A menina apareceu grávida de um gavião.
Veio falou para a mãe: o gavião me desmoçou.
A mãe disse: Você vai parir uma árvore para
a gente comer goiaba nela.
E comeram goiaba.
Naquele tempo de dantes não havia limites
para ser.
Se a gente encostava em ser ave ganhava o
poder de alçar.
Se a gente falasse a partir de um córrego
a gente pegava murmúrios.
Não havia comportamento de estar.
Urubus conversavam sobre auroras.
Pessoas viravam árvore.
Pedras viravam rouxinóis.
Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos.
Só as palavras não foram castigadas com
a ordem natural das coisas.
As palavras continuam com seus deslimites.
Manoel de Barros, Retrato do artista quando coisa (1998)
quarta-feira, 18 de julho de 2012
À Morte
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Moiramo, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera,... quebra-me o encanto!
Florbela Espanca, Reliquiae (1931, póstuma). In: Poemas de Florbela Espanca. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 301
Florbela Espanca, Reliquiae (1931, póstuma). In: Poemas de Florbela Espanca. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 301
O visconde partido ao meio
- Está procurando caranguejos? - disse Medardo -, estou atrás de polvos. - E me mostrou sua presa.
Eram grandes polvos marrons e brancos. Estavam cortados em dois com um golpe de espada, mas continuavam a mover os tentáculos.
- Que se pudesse partir ao meio toda coisa inteira - disse meu tio, de bruços no rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo -, que todos pudessem sair de sua obtusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram naturais e confusas, estúpidas como o ar: acreditava ver tudo e só havia a casca. Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa. E você há de querer que tudo seja partido ao meio e talhado segundo sua imagem, pois a beleza, sapiência e justiça existem só no que é composto de pedaços.
Eram grandes polvos marrons e brancos. Estavam cortados em dois com um golpe de espada, mas continuavam a mover os tentáculos.
- Que se pudesse partir ao meio toda coisa inteira - disse meu tio, de bruços no rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo -, que todos pudessem sair de sua obtusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram naturais e confusas, estúpidas como o ar: acreditava ver tudo e só havia a casca. Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa. E você há de querer que tudo seja partido ao meio e talhado segundo sua imagem, pois a beleza, sapiência e justiça existem só no que é composto de pedaços.
Italo Calvino, O visconde partido ao meio (1952). São Paulo: Cia das Letras, 2011, p. 50
segunda-feira, 16 de julho de 2012
a aranha
então houve um tempo em
New Orleans
em que eu vivia com uma gorda,
Marie, no Bairro Francês
e fiquei bastante doente.
enquanto ela estava no trabalho
ajoelhei-me
naquela tarde
na cozinha e
rezei. não sou um homem religioso
mas era uma tarde escura demais
e eu rezei:
"caro Deus: se você me poupar,
prometo-lhe nunca mais tomar
outro trago".
fiquei ali de joelhos e foi como estar
num filme -
ao terminar minha oração
as nuvens se abriram e o sol
rasgou as cortinas
e deitou sobre mim.
então me ergui e fui dar uma cagada.
havia uma aranha enorme no banheiro da Marie.
mas caguei do mesmo jeito.
uma hora depois comecei a me sentir muito
melhor. dei uma volta pelo bairro
e sorri para as pessoas.
parei na mercearia e comprei
uma dúzia de cervejas para Marie.
comecei a me sentir tão bem que uma hora depois
me sentei na cozinha e abri
uma das cervejas.
esvaziei-a e depois outra
e então fui lá e
matei a aranha.
quando Marie voltou do trabalho
eu lhe dei um beijo daqueles,
depois sentei na cozinha e conversamos
enquanto ela preparava o jantar.
ela me perguntou o que eu tinha feito naquele dia
e eu lhe disse que tinha matado uma
aranha. ela não ficou
braba. era uma boa
pessoa.
Charles Bukowski, O amor é um cão dos diabos (1977). Porto Alegre, L&PM, 2011, p. 41
New Orleans
em que eu vivia com uma gorda,
Marie, no Bairro Francês
e fiquei bastante doente.
enquanto ela estava no trabalho
ajoelhei-me
naquela tarde
na cozinha e
rezei. não sou um homem religioso
mas era uma tarde escura demais
e eu rezei:
"caro Deus: se você me poupar,
prometo-lhe nunca mais tomar
outro trago".
fiquei ali de joelhos e foi como estar
num filme -
ao terminar minha oração
as nuvens se abriram e o sol
rasgou as cortinas
e deitou sobre mim.
então me ergui e fui dar uma cagada.
havia uma aranha enorme no banheiro da Marie.
mas caguei do mesmo jeito.
uma hora depois comecei a me sentir muito
melhor. dei uma volta pelo bairro
e sorri para as pessoas.
parei na mercearia e comprei
uma dúzia de cervejas para Marie.
comecei a me sentir tão bem que uma hora depois
me sentei na cozinha e abri
uma das cervejas.
esvaziei-a e depois outra
e então fui lá e
matei a aranha.
quando Marie voltou do trabalho
eu lhe dei um beijo daqueles,
depois sentei na cozinha e conversamos
enquanto ela preparava o jantar.
ela me perguntou o que eu tinha feito naquele dia
e eu lhe disse que tinha matado uma
aranha. ela não ficou
braba. era uma boa
pessoa.
Charles Bukowski, O amor é um cão dos diabos (1977). Porto Alegre, L&PM, 2011, p. 41
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Paz
Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro
à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo de ambição
que minha só leitura é ler o chão.
(...)
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São Nunca.
Saiu pra não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
(...)
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam
garotos de colégio de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando:
Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
(...)
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada
de Morro Velho
a paz
da paz.
Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética (1962)
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Morte de Clarice Lispector
Enquanto te enterravam no cemitério judeu
de S. Francisco Xavier
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós
Ferreira Gullar (1977)
de S. Francisco Xavier
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós
Ferreira Gullar (1977)
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Cinzas do Norte
Passei semanas no sobrado da
Villa Road, sem sair, pintando dia e noite, destruindo e pintando outra vez,
tentando encontrar a imagem em seu instante de plenitude. Não sei quanta coisa
veio do acaso, quanta coisa veio dos estudos e esboços, esse difícil equilíbrio
entre o acaso e a intenção. O que sei é que trabalhei de maneira exasperada,
alucinada às vezes, às vezes rindo da minha própria desgraça. Formas mais ou
menos figurativas, decompondo o retrato da família, até chegar à roupa e aos
dejetos de Jano. Idéias e emoções que nos movem. Me livrei de um peso quando
terminei esse trabalho, mas não me considero um artista, Lavo. Só quis dar
algum sentido a minha vida. Tinha medo de morrer com os meus esboços, teria
sido uma vida esvaziada...
(...)
Pensei em reescrever minha vida
de trás para frente, de ponta-cabeça, mas não posso, mal consigo rabiscar, as
palavras são manchas no papel, e escrever é quase um milagre... Sinto no corpo
o suor da agonia. Amigo... Esse teto baixo, paredes vazias, ausência de cor e
de céu... O sol e o céu do Rio e do Amazonas... nunca mais... Só essas paredes,
e esse cheiro insuportável... Agora a minha própria voz zunindo e sinto
fagulhas na cabeça, e a voz zunindo, fraca, dentro de mim... Não posso mais
falar. O que restou de tudo isso? Um amigo, distante, no outro lado do Brasil. Não
posso mais falar nem escrever. Amigo... sou menos que uma voz...
Milton Hatoum, Cinzas do Norte
(2005). São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
sábado, 7 de julho de 2012
Stupeur et tremblements
Comme l'a remarqué le commun des mortels, les toilettes sont un endroit propice à la méditation. Pour moi qui y étais devenue carmélite, ce fut l'occasion de réfléchir. Et j'y compris une grande chose: c'est qu'au Japon, l'existence, c'est l'entreprise.
Certes, c'est une vérité qui a déjà été écrite dans nombre de traités d'économie consacrés à ce pays. Mais il y a un mur de différence entre lire une phrase dans un essai et la vivre. Je pouvais me pénétrer de ce qu'elle signifiait pour les membres de la compagnie Yumimoto et pour moi.
Mon calvaire n'était pas pire que le leur. Il était seulement plus dégradant. Cela ne suffisait pas pour que j'envie la position des autres. Elle était aussi misérable que la mienne.
Les comptables qui passaient dix heures par jour à recopier des chiffres étaient à mes yeux des victimes sacrifiées sur l'autel d'une divinité dépourvue de grandeur et de mystère. De toute éternité, les humbles ont voué leur vie à des réalités qui les dépassaient: au moins, auparavant, pouvaient-ils supposer quelque cause mystique à ce gâchis. A présent, ils ne pouvaient plus s'illusionner. Ils donnaient leur existence pour rien.
Le Japon est le pays où le taux de suicide est le plus élevé, comme chacun sait. Pour ma part, ce qui m'étonne, c'est que le suicide n'y soit pas plus fréquent.
Et en dehors de l'entreprise, qu'est-ce qui attendait les comptables au cerveau rincé par les nombres? La bière obligatoire avec des collègues aussi trépanés qu'eux, des heures de métro bondé, une épouse déjà endormie, des enfants déjà lassés, le sommeil qui vous aspire comme un lavabo qui se vide, les rares vacances dont personne ne connaît le mode d'emploi: rien qui mérite le nom de vie.
Le pire, c'est de penser qu'à l'échelle mondiale ces gens sont des privilégiés.
(...)
Certes, c'est une vérité qui a déjà été écrite dans nombre de traités d'économie consacrés à ce pays. Mais il y a un mur de différence entre lire une phrase dans un essai et la vivre. Je pouvais me pénétrer de ce qu'elle signifiait pour les membres de la compagnie Yumimoto et pour moi.
Mon calvaire n'était pas pire que le leur. Il était seulement plus dégradant. Cela ne suffisait pas pour que j'envie la position des autres. Elle était aussi misérable que la mienne.
Les comptables qui passaient dix heures par jour à recopier des chiffres étaient à mes yeux des victimes sacrifiées sur l'autel d'une divinité dépourvue de grandeur et de mystère. De toute éternité, les humbles ont voué leur vie à des réalités qui les dépassaient: au moins, auparavant, pouvaient-ils supposer quelque cause mystique à ce gâchis. A présent, ils ne pouvaient plus s'illusionner. Ils donnaient leur existence pour rien.
Le Japon est le pays où le taux de suicide est le plus élevé, comme chacun sait. Pour ma part, ce qui m'étonne, c'est que le suicide n'y soit pas plus fréquent.
Et en dehors de l'entreprise, qu'est-ce qui attendait les comptables au cerveau rincé par les nombres? La bière obligatoire avec des collègues aussi trépanés qu'eux, des heures de métro bondé, une épouse déjà endormie, des enfants déjà lassés, le sommeil qui vous aspire comme un lavabo qui se vide, les rares vacances dont personne ne connaît le mode d'emploi: rien qui mérite le nom de vie.
Le pire, c'est de penser qu'à l'échelle mondiale ces gens sont des privilégiés.
(...)
Pauvre monsieur Saito! C'était à moi de le réconforter. Malgré sa relative ascension professionnelle, il était un Nippon parmi des milliers, à la fois esclave et bourreau maladroit d'un système qu'il n'aimait sûrement pas mais qu'il ne dénigrerait jamais, par faiblesse et manque d'imagination.
Amélie Nothomb, Stupeur et tremblements. Éditions Albin Michel, 1999
Amélie Nothomb, Stupeur et tremblements. Éditions Albin Michel, 1999
sexta-feira, 29 de junho de 2012
The Schopenhauer Cure
"For me, there is comfort in the idea that my death informs my life." Philip spoke with uncharacteristic fervor as he continued, "There is comfort in the idea of not allowing my core being to be devoured by trivialities, by insignificant successes or failures, by what I possess, by concerns about popularity - who likes me, who doesn't. For me, there is comfort in the state of remaining free to appreciate the miracle of being." p. 264
(...)
"One of Schopenhauer's formulations that helped me," said Philip, "was the idea that relative happiness stems from three sources: what one is, what one has, and what one represents in the eyes of others. He urges that we focus only on the first and do not bank on the second and third - on having and our reputation - because we have no control over those two; they can, and will, be taken away from us - just as your inevitable aging is taking away your beauty. In fact, 'having' has a reverse factor, he said - What we have often starts to have us." p. 272
(...)
"One of Schopenhauer's formulations that helped me," said Philip, "was the idea that relative happiness stems from three sources: what one is, what one has, and what one represents in the eyes of others. He urges that we focus only on the first and do not bank on the second and third - on having and our reputation - because we have no control over those two; they can, and will, be taken away from us - just as your inevitable aging is taking away your beauty. In fact, 'having' has a reverse factor, he said - What we have often starts to have us." p. 272
Irvin D. Yalom, The Schopenhauer Cure, Harper Perennial, 2006.
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Inglês,
Morte,
Psicologia etc
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Popularity
Philip, not distracted from gazing at his
favorite spot somewhere on the ceiling, answered quickly, "Schopenhauer
said that a highly attractive women, like a highly intelligent man, was
absolutely destined to living an isolated life. He pointed out that others are
blind with envy and resent the superior person. For that reason, such people
never have close friends of their same sex."
"That's not necessarily true," said Bonnie. "I'm thinking of Pam, our missing member, who is beautiful too and yet has a large number of close girlfriends."
"Yeah, Philip," said Tony, "you saying that, to be popular, you have to be dumb or ugly?"
"Precisely," said Philip, "and the wise person will not spend his life or her life pursuing popularity. Popularity does not define what is true or what is good; (...) Far better to search within for one's values and goals."
Irvin D. Yalom, The Schopenhauer Cure. Harper Perennial, 2006, p. 138-9
quarta-feira, 6 de junho de 2012
As intermitências da morte (II)
E a morte se apaixona pelo violoncelista que ela veio buscar...
Com seu vestido novo comprado ontem numa loja do centro, a morte assiste ao concerto. Está sentada, sozinha, no camarote de primeira ordem, e, como havia feito durante o ensaio, olha o violoncelista. Antes que as luzes da sala tivessem sido baixadas, quando a orquestra esperava a entrada do maestro, ele reparou naquela mulher. Não foi o único dos músicos a dar pela sua presença. Em primeiro lugar porque ela ocupava sozinha o camarote, o que, não sendo caso raro, tão-pouco é frequente. Em segundo lugar porque era bonita, porventura não a mais bonita entre a assistência feminina, mas bonita de um modo indefinível, particular, não explicável por palavras, como um verso cujo sentido último, se é que tal cousa existe num verso, continuamente escapa ao tradutor. E finalmente porque a sua figura isolada, ali no camarote, rodeada de vazio e ausência por todos os lados, como se habitasse um nada, parecia ser a expressão da solidão mais absoluta. A morte, que tanto e tão perigosamente havia sorrido desde que saiu do seu gelado subterrâneo, não sorri agora. Do público, os homens tinham-na observado com dúbia curiosidade, as mulheres com zelosa inquietação, mas ela, como uma águia descendo rápida sobre o cordeiro, só tem olhos para o violoncelista. Com uma diferença, porém. No olhar desta outra águia que sempre apanhou as suas vítimas há algo como um ténue véu de piedade, as águias, já o sabemos, estão obrigadas a matar, assim lho impõe a sua natureza, mas esta aqui, neste instante, talvez preferisse, perante o cordeiro indefeso, abrir num repente as poderosas asas e voar de novo para as alturas, para o frio ar do espaço, para os inalcançáveis rebanhos das nuvens. A orquestra calou-se. O violoncelista começa a tocar o seu solo como se só para isso tivesse nascido. Não sabe que aquela mulher do camarote guarda na sua recém-estreada malinha de mão uma carta de cor violeta de que ele é destinatário, não o sabe, não poderia sabê-lo, e apesar disso toca como se estivesse a despedir-se do mundo, a dizer por fim tudo quanto havia calado, os sonhos truncados, os anseios frustrados, a vida, enfim. Os outros músicos olham-no com assombro, o maestro com surpresa e respeito, o público suspira, estremece, o véu de piedade que nublava o olhar agudo da águia é agora uma lágrima.
José Saramago, As intermitências da morte. São Paulo: Cia das Letras, p. 191-192
domingo, 3 de junho de 2012
As intermitências da morte
Apesar de tudo, a morte que agora se está levantando da cadeira é uma imperatriz. Não deveria estar nesta gelada sala subterrânea, como se fosse uma enterrada viva, mas sim no cimo da mais alta montanha presidindo aos destinos do mundo, olhando com benevolência o rebanho humano, vendo como ele se move e agita em todas as direcções sem perceber que todas elas vão dar ao mesmo destino, que um passo atrás o aproximará tanto da morte como um passo em frente, que tudo é igual a tudo porque tudo terá um único fim, esse em que uma parte de ti sempre terá de pensar e que é a marca escura da tua irremediável humanidade.
José Saramago, As intermitências da morte. São Paulo: Cia das Letras, 2005, p. 163.
José Saramago, As intermitências da morte. São Paulo: Cia das Letras, 2005, p. 163.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
O cavaleiro inexistente (II)
Eu, que estou contando esta história, sou irmã Teodora, religiosa da ordem de são Columbano. Escrevo no convento, deduzindo coisas de velhos documentos, de conversas ouvidas no parlatório e de alguns raros testemunhos de gente que por lá andou. Nós, freiras, temos poucas ocasiões de conversar com soldados: e, assim, o que não sei, trato de imaginar; caso contrário, como faria? E nem tudo da história está claro para mim. Vocês vão me desculpar: somos moças do interior, ainda que nobres, tendo vivido sempre em retiro, em castelos perdidos e depois em conventos; excetuando-se funções religiosas, tríduos, novenas, trabalhos de lavoura, debulha de cereais, vindimas, açoitamento de servos, incestos, incêndios, enforcamentos, invasões de exércitos, saques, estupros, pestilências, não vimos nada. O que pode saber do mundo uma pobre freira? Portanto, prossigo penosamente esta história que comecei a narrar como penitência. Agora Deus sabe como farei para contar-lhes a batalha, eu que das guerras, Deus nos livre, sempre fiquei afastada e, exceto aqueles quatro ou cinco embates em campo aberto que tiveram lugar na planície embaixo de nosso castelo e que, meninas, acompanhávamos das ameias, entre caldeirões de piche fervente (quantos mortos ficavam apodrecendo depois pelos prados e os encontrávamos ao brincar, no verão seguinte, sob uma nuvem de zangões!), sobre batalhas, dizia, não sei nada. (...). (p. 32)

Sob minha cela fica a cozinha do convento. Enquanto escrevo ouço o barulho dos pratos de cobre e estanho: as freiras ajudantes de cozinha estão enxaguando as louças de nosso magro refeitório. A abadessa deu-me uma tarefa diferente da que atribuiu a elas: escrever esta história, mas todos os trabalhos do convento, destinados que são a um único fim - a saúde da alma -, é como se fosse tudo uma coisa só. Ontem escrevia sobre a batalha e no ruído da louça na pia acreditava estar ouvindo o bater de lanças contra escudos e couraças, o ressoar de elmos atingidos por grandes espadas; do pátio chegavam até mim os golpes do tear das irmãs tecedoras e me parecia uma batida de cascos de cavalos a galope: e, assim, aquilo que minhas orelhas ouviam meus olhos entreabertos transformavam em visões e meus lábios silenciosos em palavras e palavras e a pena se lançava pela folha branca, correndo atrás delas. (p. 44)
Italo Calvino, O cavaleiro inexistente. São Paulo: Cia das Letras, 2005.
sábado, 26 de maio de 2012
O cavaleiro inexistente
Alguém mais anda procurando Agilulfo: é Gurdulu, que, todas
as vezes que descobre uma panela vazia ou um cano de chaminé ou uma tina, para
e exclama:
- Senhor patrão! Comande, senhor patrão!
Sentado num gramado à beira de uma estrada, fazia um longo
discurso no gargalo de um frasco quando uma voz o interpelou:
- O que procura aí dentro, Gurdulu?
Era Torrismundo que, celebradas solenemente as núpcias com
Sofrônia, na presença de Carlos Magno, cavalgava com a esposa e um rico séquito
pela Curvaldia, da qual fora armado conde pelo imperador.
- Procuro meu patrão – diz Gurdulu.
- Dentro daquele frasco?
- Meu patrão é alguém que não existe; assim, pode não estar
tanto num frasco quanto numa armadura.
- Mas o seu patrão dissolveu-se no ar!
- Então, sou o escudeiro do ar?
- Se me seguir, será meu escudeiro.
Chegaram à Curvaldia. Não se reconhecia mais a região. Em
lugar das aldeias haviam surgido cidades com palácios de pedra, e moinhos, e
canais.
- Voltei, boa gente, para ficar com vocês...
- Viva! Bravo! Viva ele! Viva a esposa dele!
- Esperem para manifestar sua felicidade com a notícia que
tenho para dar-lhes: o imperador Carlos Magno, a cujo nome sagrado doravante
vocês se inclinarão, investiu-me do título de conde da Curvaldia!
- Ah... Mas... Carlos Magno...? Fala a sério...
- Não entendem? Agora têm um conde! Vou defendê-los de novo
contra as prepotências dos cavaleiros do Graal!
- Oh, há bastante tempo já expulsamos aquela gente da
Curvaldia! Veja, nós obedecemos durante tanto tempo... Mas agora percebemos que
se pode viver bem sem dever nada a cavaleiros nem a condes... Cultivamos a
terra, construímos oficinas para artesãos, moinhos, tratamos de fazer respeitar
nossas leis, defender nossas fronteiras, enfim, vamos em frente, não temos do
que nos lamentar. É um jovem generoso e não esquecemos o que fez por nós...
Gostaríamos que ficasse aqui... mas de igual para igual...
- De igual para igual? Não me querem como conde? Mas é uma
ordem do imperador, não entendem? É impossível que se recusem!
- É, sempre se diz assim: impossível... Mesmo livrar-se
daqueles do Graal parecia ser impossível... E então só tínhamos podadeiras e
forcados... Não queremos mal a ninguém, senhorzinho, especialmente a quem nos
salvou... É um jovem valoroso, tem prática de tantas coisas que nós não
sabemos... Se morar aqui, de igual para igual, sem praticar prepotências, quem
sabe não acaba se tornando o primeiro entre nós...
- Torrismundo, estou cansada de tantas travessias – disse Sofrônia
erguendo o véu. – Esta gente tem uma expressão ponderada e cortês e a cidade me
parece mais bonita e mais bem abastecida do que tantas outras... Por que não
procuramos chegar a um acordo?
- E nosso séquito?
- Todos poderiam ser cidadão da Curvaldia – responderam os
moradores -, e terão conforme o que produzirem.
- Terei de considerar igual a mim este escudeiro, Gurdulu,
que nem sabe se existe ou não?
- Até ele aprenderá... Nem nós sabíamos que estávamos no
mundo... Também a existir se aprende...
Italo Calvino, O cavaleiro inexistente. São Paulo: Cia das Letras, 2005, pp. 111-113
domingo, 13 de maio de 2012
Criatividade
Originalidade implica coragem
suficiente para transcender as normas geralmente aceitas. Algumas vezes isso
implica ser mal compreendido ou rejeitado pelos companheiros. Os que não
dependem excessivamente dos outros nem mantêm com eles vínculos excessivamente
estreitos acham mais fácil ignorar as convenções. As sociedades primitivas
acham difícil permitir decisões individuais ou a diversidade de opiniões.
Quando a manutenção da solidariedade do grupo é uma preocupação fundamental, a
originalidade talvez seja sufocada. Bruno Bettelheim estudou adolescentes
israelenses que haviam sido criados em kibbutzim. Descobriu que o elevado valor
atribuído ao compartilhamento dos sentimentos em grupo era hostil à
criatividade:
Acredito que considerem quase impossível ter opinião pessoal diferente da do grupo, ou se expressar através de trabalho literário criativo - não apenas por causa da repressão dos sentimentos, mas porque isso despedaçaria o ego. Se o ego da pessoa é um ego grupal, pôr um contra o outro é uma experiência destrutiva. E o ego pessoal sente-se excessivamente fraco para sobreviver quando seu aspecto mais forte, o ego grupal, é perdido.
Solidão: a conexão com o eu, Anthony Storr. São Paulo: Benvirá, 2011, p. 160.
Acredito que considerem quase impossível ter opinião pessoal diferente da do grupo, ou se expressar através de trabalho literário criativo - não apenas por causa da repressão dos sentimentos, mas porque isso despedaçaria o ego. Se o ego da pessoa é um ego grupal, pôr um contra o outro é uma experiência destrutiva. E o ego pessoal sente-se excessivamente fraco para sobreviver quando seu aspecto mais forte, o ego grupal, é perdido.
Solidão: a conexão com o eu, Anthony Storr. São Paulo: Benvirá, 2011, p. 160.
sábado, 5 de maio de 2012
Les Catilinaires
- J’ai réfléchi: je vous ai
compris, Palamède. Maintenant, je sais que c’est pour vous la seule solution [le
suicide]. J’ai eu du mal à l’admettre, car enfin c’est le contraire de ce que l’on
m’a toujours appris. Vous savez ce que c’est: “La vie est la valeur suprême, le
respect de la vie humaine...”. Grâce à vous, je sais que c’est de la foutaise:
ça dépend d’un individu à l’autre, comme n’importe quoi sur terre. Et la vie,
ça ne vous convient pas: c’est clair. Je vous jure que je m’en veux: je
regrette de vous avoir tiré du garage.
Silence de mille tonnes.
- Je me doute bien qu’une seconde
tentative doit être insurmontable. Et cependant, si étrange que cela puisse paraître,
je viens vous y encourager. Oui, Palamède. Je devine qu’un tel acte exige une
force d’âme dont je serais incapable: mais moi, j’aime la vie, c’est différent.
Vous, je vous exhorte à avoir cette détermination.
Sans m’en apercevoir, je me mettais à parler avec fougue: je m’emportais comme Cicéron prononçant la première Catilinaire.
- Songez surtout à ce qui se passerait si vous ne le faites pas. Vous ne pouvez pas continuez comme ça. Regardez ce qu’est votre existence: votre vie n’est pas une vie! Vous êtes une masse de souffrance et d’ennui. Plus grave: vous êtes le néant. Et le néant souffre, nous le savons depuis Bernanos. Bien sûr, vous ne l’avez pas lu, vous ne lisez jamais, d’ailleurs vous ne faites jamais rien. Vous n’êtes rien et sans doute n’avez-vous jamais rien été. Cela ne me dérangerait pas si vous étiez seul, mais ce n’est pas le cas: vous vous vengez de votre sort sur votre femme qui, même si elle n’a pas l’apparence d’une femme, est cent fois plus humaine que vous. Vous la séquestrez, vous voulez la plier à votre néant. C’est abject. Si l’on est incapable de vivre sans opprimer quelqu’un, il vaut mieux ne pas vivre.
Je commençais à me sentir bien. Le feu de l’art oratoire me remplissait d’énergie.
- Que comptez-vous faire aujourd’hui, Palamède? Je vais vous raconter votre
journée: après avoir rentré les commissions, vous allez tomber dans votre
fauteuil et regarder quatre horloges jusqu’à l’heure du déjeuner. Vous allez préparer
de la nourriture infâme, vous en gaverez Bernadette avant de vous en gaver
vous-même, alors que vous détestez manger, et particulièrement cette bouffe
infecte. Puis vous vous écroulerez à nouveau dans le fauteuil et vous dévisagerez
le temps qui passe et qui meut la petite et la grande aiguille. Nouvelle épreuve
alimentaire, ensuite vous vous coucherez et ce sera le plus mauvais moment de
votre journée: je devine que, comme moi, vous êtes insomniaque et si mes
insomnies sont sordides, que doivent être les vôtres? L’insomnie d’un gros porc
qui s’emmerde et qui n’espère même pas dormir puisqu’il n’aime pas ça. Car vous n’aimez rien, Palamède
Bernardin! Quand on n’aime rien, il faut mourir. Vous n’allez pas me
dire que vous n’avez pas dans votre trousse de médicin des pilules qui puissent
vous y aider. Ce sera plus facile que les gaz d’échappement. Courage, Palamède!
Il vous suffit d’ouvrir la bouche, d’avaler un tube de comprimés avec un verre
d’eau, de vous coucher – et ce sera fini, l’ennui, le vide, le calvaire de la
nourriture, les horloges, votre femme et les insomnies! Il n’y aura plus rien et vous ne serez plus là
pour vous en rendre compte. Ce sera le salut, Palamède, le salut! Pour l’éternité!
Amélie Nothomb, Les Catilinaires,
Albin Michel, 1995, p. 145-147
sábado, 28 de abril de 2012
Jornal íntimo
Hoje roí cinco unhas até o sabugo e encontrei no cinema, vendo Charles Chaplin e rindo às gargalhadas, de chinelos de couro, um menino claro. Usei a toalha alheia e fui ao ginecologista.
(...)
Acordei com uma coceira terrível no hímen. Sentei no bidê com um espelhinho e examinei minuciosamente o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado a mais. Passei uma pomada branca até que a pele (rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.
Ana Cristina César (1952-1983).
(...)
Acordei com uma coceira terrível no hímen. Sentei no bidê com um espelhinho e examinei minuciosamente o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado a mais. Passei uma pomada branca até que a pele (rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.
Ana Cristina César (1952-1983).
Trechos tirados do livro "26 poetas hoje" (Aeroplano editora, 2007, páginas 139 e 143), organizado por Heloisa Buarque de Hollanda.
Os subterrâneos
A vez que o vizinho alegre dela o jovem escritor John Golz veio (religiosamente oito horas por dia à máquina de escrever, escreve histórias para revistas, admirador de Hemingway, com frequência dá comida a Mardou e é um rapaz simpático de Indiana e é cheio de boas intenções e está longe de ser um subterrâneo cheio de subterfúgios manhoso feito serpente e interessante e sim um cara aberto, jovial, brinca com as crianças no pátio meu Deus) - veio ver Mardou, eu estava lá sozinho (por algum motivo, Mardou estava num bar dentro do esquema que tínhamos combinado, a noite que ela saiu com um rapaz negro que ela não gostava muito mas só de sarro e ela disse a Adam que estava fazendo isso porque ela queria transar com um rapaz negro de novo, o que me fez ficar com ciúme, mas Adam disse "Se dissessem a ela que você saiu com uma menina branca para ver se você conseguia transar com branca de novo ela certamente ia ficar toda prosa, Leo") - aquela noite, eu estava na casa dela esperando, lendo, John Golz veio filar um cigarro e vendo que eu estava sozinho o garoto quis falar sobre literatura - "Olha, pra mim a coisa mais importante é a seletividade", e eu explodi e disse: "Ah não me vem com esses papos que você aprendeu no colégio que eu já ouvi uma porrada de vezes muito antes de você nascer quase pelamordideus diz uma coisa nova e interessante sobre literatura" - arrasando o rapaz, mal-humorado, principalmente porque eu estava irritado e porque ele parecia inofensivo e portanto parecia não ter perigo nenhum berrar com ele, no que aliás eu estava absolutamente certo - arrasando o rapaz, que era amigo dela, coisa que não se faz - não, no mundo não há lugar para esse tipo de coisa, e então o que a gente faz, e onde? quando? buá buá buá, chora o bebê no estouro da meia-noite.
Jack Kerouac, Os subterrâneos (1958). Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 92-93.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Tenho uma folha
Saudação
A cada animal que abate ou come sua própriaespécie
E cada caçador com rifles montados em
camionetas
E cada miliciano ou atirador particular
com mira telescópica
E cada capataz sulista de botas com seus cães
& espingardas de cano serrado
E cada policial guardião da paz com seus cães
treinados para rastrear & matar
E cada tira à paisana ou agente secreto
com seu coldre oculto cheio de morte
E cada funcionário público que dispara contra o
público ou que alveja-para-matar
criminosos em fuga
E cada Guarda Civil em qualquer país que
guarda os civis com algemas & carabinas
E cada guarda-fronteiras em tanto faz qual
posto da barreira em tanto faz qual lado de
qual Muro de Berlim cortina de Bambu ou
de Tortilha
E cada soldado de elite patrulheiro rodoviário
em calças de equitação sob medida &
capacete protetor de plástico &
revólver em coldre ornado de prata
E cada radiopatrulha com armas anti-motim &
sirenes e cada tanque anti-motim com
cassetetes & gás lacrimogênio
E cada piloto de avião com foguetes & napalm
sob as asas
E cada capelão que abençoa bombardeiros que
decolam
E qualquer Departamento de Estado de qualquer
super-estado que vende armas aos dois lados
E cada Nacionalista em tanto faz que Nação em
tanto faz qual mundo Preto Pardo ou Branco
que mata por sua Nação
E cada profeta com arma de fogo ou branca e
quem quer que reforce as luzes do espírito
à força ou reforce o poder de qualquer
estado com mais Poder
E a qualquer um e a todos que matam & matam & matam & matam pela Paz
Eu ergo meu dedo médio na única saudação apropriada
Lawrence Ferlinghetti (1968)
La mort des pauvres
C'est la Mort qui console, hélas ! et qui fait vivre;C'est le but de la vie, et c'est le seul espoir
Qui, comme un élixir, nous monte et nous enivre,
Et nous donne le coeur de marcher jusqu'au soir;
A travers la tempête, et la neige, et le givre,
C'est la clarté vibrante à notre horizon noir;
C'est l'auberge fameuse inscrite sur le livre,
Où l'on pourra manger, et dormir, et s'asseoir;
C'est un Ange qui tient dans ses doigts magnétiques
Le sommeil et le don des rêves extatiques,
Et qui refait le lit des gens pauvres et nus;
C'est la gloire des Dieux, c'est le grenier mystique,
C'est la bourse du pauvre et sa patrie antique,
C'est le portique ouvert sur les Cieux inconnus!
Charles Baudelaire (1821-1867)
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terça-feira, 3 de abril de 2012
The Open Road
Afoot and light-hearted, I take to the open road,Healthy, free, the world before me,
The long brown path before me, leading wherever I choose.
Henceforth I ask not good-fortune—I myself am good fortune;
Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,
Strong and content, I travel the open road.
The earth—that is sufficient;
I do not want the constellations any nearer;
I know they are very well where they are;
I know they suffice for those who belong to them.
(...)
From this hour, freedom!
From this hour I ordain myself loos’d of limits and imaginary lines,
Going where I list, my own master, total and absolute,
Listening to others, and considering well what they say,
Pausing, searching, receiving, contemplating,
Gently, but with undeniable will, divesting myself of the holds that would hold me.
(...)
Allons! we must not stop here!
However sweet these laid-up stores—however convenient this dwelling, we cannot remain
here;
However shelter’d this port, and however calm these waters, we must not anchor here;
However welcome the hospitality that surrounds us, we are permitted to receive it but a
little
while.
(...)
Allons! with power, liberty, the earth, the elements!
Health, defiance, gayety, self-esteem, curiosity;
Allons! from all formules!
From your formules, O bat-eyed and materialistic priests!
(...)
Allons! the road is before us!
It is safe—I have tried it—my own feet have tried it well.
Allons! be not detain’d!
Let the paper remain on the desk unwritten, and the book on the shelf unopen’d!
Let the tools remain in the workshop! let the money remain unearn’d!
Let the school stand! mind not the cry of the teacher!
Let the preacher preach in his pulpit! let the lawyer plead in the court, and the judge
expound
the
law.
Mon enfant! I give you my hand!
I give you my love, more precious than money,
I give you myself, before preaching or law;
Will you give me yourself? will you come travel with me?
Shall we stick by each other as long as we live?
Walt Whitman (1819-1892)
quinta-feira, 22 de março de 2012
Devolvo-te hoje "O arroz de Palma"

Pará de Minas, 15 de março de 2012
Amiga,
Com um leve aperto de saudade no coração, devolvo-te hoje “O arroz de Palma”.
É verdade que tuas mãos, ao senti-lo, encontrarão nele algumas marcas de uso deixadas pelas minhas. Por mais cuidado que eu tenha tido com ele, não consegui evitar, pelo manusear, as duas dobras na capa, na frente e atrás (surgidas quase naturalmente, pela leitura, como duas rugas de velho); um pouco de terra ou poeira (invisível para mim) que, muito discretamente, nuançou uma ou outra página; e também o pernilongo que, sem eu ver, pousou na última folha e acabou deixando lá sua vida, coitadinho.
Peço desculpas.
Mas, para compensar, devolvo-te hoje “O arroz de Palma” carregado de energia boa. Devolvo-o diferente, não só pelo toque de minhas mãos, pelo manusear (que deveria ter sido mais cuidadoso), mas com uma aura diferente: uma luz boa que a gente não pode ver nem sentir com as mãos, só com o coração: a luz da alegria que ele me proporcionou; do prazer que eu tive ao sentir suas páginas enquanto viajava no tempo e no espaço ao lado dos personagens; do choro bom que inúmeras vezes ele me fez derramar; da esperança, da paz, enfim, de tudo de bom que esse livro encantador me proporcionou.
E o mais importante, amiga: devolvo-te hoje “O arroz de Palma” cheio de gratidão por você, que me despertou para a sua leitura.
Muito obrigado pelo bem que você me fez!
Que Deus te abençoe!
Flávio Marcus da Silva
sábado, 10 de março de 2012
Boa morte
Isabel e eu temos a mesma idade. Nas orações da noite, ela pede a Deus uma boa morte. Pergunto a ela o que é uma boa morte. Uma morte natural, ela responde. Seria assim uma morte "light". Mas nós não somos uma "Família Light". Para mim, é pouco. Explica melhor, por favor... Isabel é paciente comigo. Às vezes, eu canso, eu sei. Ela me dá uma imagem, que é como eu melhor a entendo.- Já é tarde. Você jantou, viu alguma bobagem na televisão. Veio para o quarto, leu mais uns capítulos do livro de cabeceira. O sono bate. As pálpebras começam a pesar. Agora, você quer é dormir. Está de banho tomado, dentes escovados, camisola limpa, nova muda de roupa na cama. O colchão com o lençol esticado apetece. Podem convidá-la para o que for, a melhor festa, o programa mais animado, ver o amigo ou o filho mais querido, conhecer a cidade que você sempre sonhou, comer o doce especial, fazer a antiga extravagância, o sexo mais arrebatado. Nada seduz. Nada será capaz de lhe tirar aquele soninho gostoso. Você se dá por satisfeita, está de bem com a vida. Tem certeza de que será uma noite tranquila. Enfim, quer mesmo é apagar a luz e dormir. E você dorme. E você se entrega ao desconhecido sem nenhum medo.
Francisco Azevedo, O arroz de Palma. Rio de Janeiro: Record, 2011, p. 63-64
Foto: Francisco Azevedo (1951-)
sexta-feira, 9 de março de 2012
Memória
Se me perguntarem, não sei dizer o que comi ontem no almoço. Mas sou capaz de reproduzir diálogos inteiros da minha juventude, quando esta fazenda ainda era do senhor Avelino e eu ainda morava na casa lá de baixo, com Tia Palma, meus pais e meus irmãos. Gozado, isso. Vai entender. Memórias antigas? Nítidas, perfeitas, cheias de mínimos detalhes, cheiros e sons até. Inclusive as experiências ancestrais que não vivi, as histórias lá de Portugal que me foram contadas: todas aqui dentro, de cor e salteado. Fatos recentes? Coitados. Vão se segurando em mim como podem. Parecem aqueles personagens de cinema, cara de terror, agarrados no alto do edifício só pelas pontinhas dos dedos. Quase todos despencam. E pior: diante do olhar de alguém que os vê de cima sem pingo de misericórdia. Uma coisa ou outra fica, é verdade. Meio desbotada, imprecisa, extremamente grata à mão do cérebro que a resgata. Nenhum critério de seleção. A bobagem, o cérebro retém. O notável, ele descarta. O recado é direto: chega de colecionar lembrancinhas da viagem terrena. Fazer o que com toda a tralha? Além do mais, com o correr ou o arrastar dos anos, não há fortuna que pague tal excesso de bagagem. Eu, Antonio, entendo perfeitamente os argumentos. Aceito sem queixumes. Só levo comigo o que a alfândega da mente deixa passar.Aos 88 anos posso delirar à vontade. Delírio, o cérebro deixa. E até estimula. O Deus do azul acha graça. Imaginação fértil, realismo fantástico: preciosidades de velho e criança. Bom ser criança vetusta, reaprender a inventar histórias e a esquecê-las com facilidade, alimentar sonhos, não guardar raivas nem condecorações, não se deter em nada que dure mais de um dia. (p.143-4)
(...)
Vejo-me aos 10, aos 20, aos 40 e poucos anos com alegre saudade. Claro que é possível. Há sempre algo engraçado na dor da lembrança. Quando cheguei aos 70 anos, chorei muito, choro acumulado. "Quanto tempo me resta? E no pouquinho de vida antes do fim, serei lúcido, serei lúcido? Esses riscos todos aí no rosto e no pescoço, tantos e tão fundos... Tia Palma, você está por perto? Me ensina alguma coisa nova, por favor, me ensina." E o choro vinha. E vinha. Incontido. Até que a voz - era a dela, tenho certeza - não fez drama, fez comédia: "Brinque de dar nome de rio às suas rugas, Antonio." Comecei a rir e a chorar ao mesmo tempo. "Que história é essa, Tia Palma?" Só fui entender quando, de imediato, identifiquei o Ganges, o Nilo e o Amazonas caudalosos em minha testa. E depois, o Tigre e o Eufrates - irmãos antiquíssimos - descendo à direita e à esquerda do nariz. E também o Paraná, e o São Francisco. No pescoço, altivos, o Tejo, o Tibre, o Tâmisa, o Volga e o Reno. Exultei ao reconhecer o Sena, o Prata e todos os seus afluentes em volta dos olhos. Era uma bela e estranha geografia. E chorei feito bobo ao ver aquele manancial de água me correndo pelo rosto. Água doce.
Hoje, a caminho dos 90, faço a barba sem medo do escanhoar, a afiada navalha mais uma vez a contrapelo. O apuro possível, a melhor aparência para os que estão perto. Não importam os eventuais cortes aqui e ali, os arranhões passageiros, a inesperada irritação da pele. Confio na velha pedra-ume. E o rosto já não mudará tanto. Ninguém perceberá as novas rugas, os novos rios. Pelo menos por fora, sei perfeitamente como me verei amanhã. O espelho não me intimida faz tempo. Eu já fui tantos! (p. 65-66)
Francisco Azevedo, O arroz de Palma. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.
domingo, 4 de março de 2012
O arroz de Palma
Papai possuía inúmeras qualidades, mas era homem orgulhoso e enfezado. Tia Palma tinha uma teoria que explicava perfeitamente o mau humor de meu pai: a prisão de ventre. É verdade. Papai sofria horrores com prisão de ventre. Tia Palma me ensinou que "enfezado" vem de "fezes". Uma pessoa com o intestino preso se enfeza com facilidade. E não é que, na prática, a teoria dava certo? Sempre que papai era feliz no banheiro, a família inteira notava. Ele ficava, literalmente, mais leve. Se alguém tivesse que pedir algo a ele, ficava atento à sua ida à privada: este poderia ser o momento ideal. Quando bem sucedido, papai saía do banheiro em verdadeiro estado de graça. Um homem purificado.Cedo também aprendi que o corpo conhece outras maneiras de se purificar. A urina, a menstruação, o vômito, as espinhas, o esperma, a coriza e o suor, tudo nos purifica. O que o corpo põe fora é sinal de purificação. Assim, as lágrimas seriam a forma mais elevada de nos purificarmos. E o nascimento de uma criança, a mais completa. (p. 21-22)
(...)
- Às vezes, é bom deixar correr o sangue. (p. 117)
(...)
- Nosso presente é feito de amor. Só amor. Mas sabe, Joaquim, que quando fores rico - se um dia fores - poderás comprar quantos sobrados tu quiseres. Agora, amor, não. Amor é artigo que não está à venda. Propriedades, sim. Automóveis, sim. Mas amor, meu filho, nem ao menos uns poucos gramas tu consegues encontrar no mercado. (p. 109)
(...)
Tento entender minha aflição. Sim, porque só procuramos entender o que é ruim. O que é bom simplesmente vivemos sem mistérios. Se estamos com saúde, se realizamos um bom negócio, se é um bom filho, achamos que tem de ser assim e pronto. Os porquês só para o que nos desgraça e incomoda - questionários sem-fins. Para o que nos alegra não há perguntas, só belas exclamações - vida que segue e nem nos damos conta. Na felicidade tudo faz sentido. O universo torna-se simples e fácil como número de mágica que fascina. Mas eu, neste exato momento, embora eternamente curioso, peço a Deus que não me tire mais nada da cartola. Quero é mergulhar de cabeça dentro desse vaso preto de abas que não quebra, conhecer a origem do caos e da ordem, aprender os truques... Deus coleciona universos, eu coleciono memórias e sonhos, Bernardo coleciona amigos no Orkut. Se não é o mais sábio, é sem dúvida o mais comunicativo dos três. (p. 90-91)
(...)
Quando conto ao meu neto casos vividos por mim, e por pessoas que me são queridas, ou que me foram passados por meus pais ou Tia Palma, não aspiro à posteridade. Bem ou mal falado, meu nome não irá além de umas poucas gerações. Pretendo apenas cuidar do meu jardim. Depois, será a vez de o mato tomar conta. Mas tudo a seu tempo. (p. 83)
Francisco Azevedo, O arroz de Palma. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.
Brooklyn Follies
Un jour ou l'autre, nous allions tous mourir et une fois nos corps emportés et enfouis dans la terre, seuls nos amis et nos familles sauraient que nous avions vécu. Nos morts ne seraient pas annoncées à la radio, ni à la télévision. Il n'y aurait pas de notices nécrologiques dans le New York Times. On n'écrirait pas de livres sur nous. Cet honneur-là est réservé aux puissants et aux célébrités, aux gens d'un talent exceptionnel, mais qui se soucierait de publier les biographies des gens ordinaires, de ceux qu'on ne chante pas, de ceux qu'on rencontre dans la rue tous les jours de la semaine et qu'on ne prend même pas la peine de remarquer?La plupart des vies disparaissent. Quelqu'un meurt et, petit à petit, toutes traces de sa vie s'effacent. Un inventeur survit dans ses inventions, un architecte dans ses immeubles, mais la majorité des gens ne laissent derrière eux ni monument ni réalisation durable: une série d'albums photo, un bulletin scolaire de cinquième primaire, un trophée gagné au bowling, un cendrier piqué dans une chambre d'hôtel en Floride le dernier jour de vacances quasiment oubliées. Quelques objets, quelques documents, quelques impressions vagues conservées par des tiers. Ceux-ci ont invariablement des histoires à raconter à propos du défunt, mais le plus souvent en mêlant les dates, en oubliant des événements, et la vérité en sort de plus en plus déformée et quand ces gens-là meurent à leur tour, presque toutes leurs histoires s'en vont avec eux.
Mon idée était la suivante: créer une entreprise qui publierait des livres sur les oubliés, sauvegarder les histoires, les événements et les documents avant qu'ils s'évanouissent - et leur donner la forme d'un récit continu, le récit d'une vie.
Les biographies seraient commandées par des amis ou des parents de l'intéressé, et les livres seraient imprimés en quantités limitées à usage privé - de cinquante à trois ou quatre cents exemplaires. J'imaginais que je les écrirais moi-même mais, si la demande devenait trop importante, je pourrais toujours me faire aider par d'autres auteurs: poètes et romanciers désargentés, anciens journalistes, universitaires sans emploi, voire, peut-être, par Tom. Le coût de la rédaction et de la publication de tels livres serait considérable mais je ne voulais pas que mes biographies deviennent un privilège accessible seulement aux riches. Pour les familles aux petits moyens, j'envisageais un nouveau genre de police d'assurance selon laquelle une somme négligeable serait mise de côté chaque mois ou chaque trimestre en vue de faire face au financement du livre. Non plus une assurance immobilière, ni une assurance vie - une assurance biographie.
Étais-je fou de rêver que je pourrais faire quelque chose de ce projet incongru? Je ne le pensais pas. Quelle jeune femme n'aimerait pas lire la biographie véridique de son père - même si ce père n'avait été q'un ouvrier d'usine ou le sous-directeur d'une banque rurale? Quelle mère ne souhaiterait lire l'histoire de son fils policier, tué dans l'exercice de ser fonctions à l'âge de trente-quatre ans? Dans tous les cas, ce devrait être une affaire d'amour. Une épouse ou un mari, un fils ou une fille, un père ou une mère, un frère ou une soeur - seuls les attachements les plus profonds. Ces gens viendraient me trouver six mois ou un an après la mort du sujet. Ils auraient alors fait leur deuil, mais ils ne seraient pas encore consolés et, à présent que leur vie quotidienne avait repris son cours, ils comprendraient qu'ils ne le seraient jamais. Ils désireraient redonner vie à celui ou celle qu'ils aimaient et je ferais tout ce qui serait humainement possible pour répondre à leur désir. Je ressusciterais cette personne à l'aide de mots et, une fois les pages imprimées et l'histoire reliée sous une couverture, ils auraient un objet à chérir pour le restant de leur vie. Non seulement cela, mais aussi un objet qui leur survivrait, qui nous survivrait à tous.
Il ne faut jamais sous-estimer le pouvoir des livres.
Paul Auster, Brooklyn Follies. Babel, 2005, p. 360-2
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O mistério da caixa-preta
Aproveitei o carnaval para ler. O livro escolhido? “O mistério da caixa-preta e outras histórias” do escritor patafufo Flávio Marcus da Silva. Uma delícia de livro! São contos. Alguns eu já havia lido no site GRNews [na coluna Crônicas de um patafufo]. E achei ótimo relê-los. Aproveitei para ler para minha filha o conto “Muito esquisito” e rimos juntas. É que o conto passa pela fantasia de todo pai e de todo filho. O pai super herói! Eu sempre falei com ela que sou uma onça e ai de quem ousar machucá-la. Não cometeria a indelicadeza de contar a história. Mas já deixei claro o tema.Flávio é um acendedor de luzes. Sabe como poucos os cômodos da alma. E vai sem dó. Escancara as portas do “Barba Azul”. Deixa todas as feras soltas. Não há como contestá-lo. Ele abre portas e janelas deste submundo que mora em nós e deixa entrar o ar. As nossas mazelas ficam esparramadas pelas páginas e longe de temê-las! O olhar de frente só nos faz entender a nossa pequenez e ao mesmo tempo a nossa grandeza. Não há contradição. Há sim, um humor cortante. (...)
Ana Cláudia SSaldanha
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Vermelho amargo
Sobre os dias, a ausência de mãe ganhava corpo. O tempo - capaz de trocar a roupa do mundo - não consumia sua lembrança. Quando se ama, em cada dia o morto nasce mais. Em tudo, sua ausência estava presente. Sobre a fruteira da mesa da sala de jantar, na janela em que se debruçava nas tardes, na gota de água que pingava da torneira, no anil que clareava os lençóis, ela se anunciava. No silêncio obrigatório para bem escutar os pássaros, ela se emanava. (p. 20)(...)
A felicidade abraçava-me, embaraçava-se em meu corpo, salgava-me com o sal de sua saliva. A felicidade se escondia no porão da casa, e cabia a mim visitá-la. Ser feliz era estar em pecado, eu me culpava e negociava o fingimento de estar infeliz. Caminhar por sobre o pecado demandava muitas pernas. Mentir-me em tristeza preservava a felicidade que me assaltara, eu suspeitava. (p. 23)
(...)
Ao amar, desvendei a serventia do corpo para além de guardar a alma imortal. Até então, o corpo só me servia para carregar no estômago o tomate. Favorecia-me, vez por outra, ao nadar no córrego e desfrutar a maciez das águas, ao pedalar a bicicleta do padre, ao correr nos campos e vencer o mais longe. No amor, meu corpo delatou a presença da alma, que veio morar na superfície de minha pele. (p. 27)
(...)
O fundo é frio e a terra úmida. A aragem não sopra no lá embaixo. No fundo, o peso da terra é definitivo véu. Não há carga que o corpo morto não suporte. Não há alma lá no fundo. A luz não desfaz o breu que arde no bem profundo. No bem fundo, não há palavra capaz de soar. Mas o silêncio não existe no fundo. O nada interrompe tudo. A mãe dorme no muito fundo. (p. 32)
(...)
Se a chuva chovia mansa o dia inteiro, o amor da mãe se revelava com mais delicadeza. O tempo definia as receitas. Na beira do fogão ela refogava o arroz. O cheiro do alho frito acordava o ar e impacientava o apetite. A couve, ela cortava mais fina que a ponta da agulha que borda mares em ponto cheio. Depois, mexia o angu para casar com a carne moída, salpicada de salsinha, conversando com o caldo do feijão. Tudo denunciava o seu amor. Nós, meninos, comíamos devagar, tomando sentido para cada gosto. Ela desconfiava que matar nossa fome era como nos pedir para viver. A comida descia leve como o andar do gato da minha irmã. (p. 35)
(...)
Durante quatro estações, em todas as manhãs, o trem deslizava em frente de nossa casa. Nascia na cidade de um avô, que escrevia nas paredes, e morria na cidade de outro avô, com seu olho de vidro. Sempre suspeitei o nascer como entrar num trem andando. Só que, o mundo, eu não sabia de onde vinha nem para onde ia. E, no meu vagão, não escolhi os companheiros para a viagem. Eram todos estranhos, severos, amargos, impostos. Também entrei sem comprar o bilhete de viagem. Minha bagagem, pequena, cabia debaixo do banco - da segunda classe - sem incomodar. Contrabandeava poucos pertences: uma grande dor que doía o corpo inteiro e a vontade de encontrar um remédio capaz de remediar o incômodo. Até hoje o mundo ainda não atracou. Vou sem escolher o destino. O trem estancava na minha cidade, trocava de carga e reabastecia-se. O mundo só nos permite uma baldeação definitiva. (p. 38)
Bartolomeu Campos de Queirós, Vermelho amargo. São Paulo: Cosar Naify, 2011
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
A paixão segundo G.H.
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas estou tão pouco preparada para entender. Mas como faço agora? Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.(...)
Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.
(...)
Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
(...)
Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa - a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes - então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada.
(...)
Perdoa eu te dar isto, mão que seguro, mas é que não quero isto para mim! Toma essa barata, não quero o que vi.
Ali estava eu boquiaberta e ofendida e recuada – diante do ser empoeirado que me olhava. Toma o que eu vi: pois o que eu via com um constrangimento tão penoso e tão espantado e tão inocente, o que eu via era a vida me olhando.
Como chamar de outro modo aquilo horrível e cru, matéria-prima e plasma seco, que ali estava, enquanto eu recuava para dentro de mim em náusea seca, eu caindo séculos e séculos dentro de uma lama – era lama, e nem sequer lama já seca mas lama ainda úmida e ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as raízes de minha identidade.
Toma, toma tudo isso para ti, eu não quero ser uma pessoa viva! Tenho nojo e maravilhamento por mim, lama grossa lentamente brotando.
Era isso – era isso então. É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda. Em derrocada difícil, abriam-se dentro de mim passagens duras e estreitas.
Olhei-a, à barata: eu a odiava tanto que passava para o seu lado, solidária com ela, pois não suportaria ficar sozinha com minha agressão.
E de repente gemi alto, dessa vez ouvi meu gemido. É que como um pus subia à minha tona a minha mais verdadeira consistência – e eu sentia com susto e nojo que "eu ser" vinha de uma fonte muito anterior à humana e, com horror, muito maior que a humana.
Abria-se em mim, com uma lentidão de portas de pedra, abria-se em mim a larga vida do silêncio, a mesma que estava no sol parado, a mesma que estava na barata imobilizada. E que seria a mesma em mim! Se eu tivesse coragem de abandonar... de abandonar meus sentimentos? Se eu tivesse coragem de abandonar a esperança.
(...)
Segura a minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina, estou indo para um inferno de vida crua. Não me deixes ver porque estou perto de ver o núcleo da vida – e, através da barata que mesmo agora revejo, através dessa amostra de calmo horror vivo, tenho medo de que nesse núcleo eu não saiba mais o que é esperança.
A barata é pura sedução. Cílios, cílios pestanejando que chamam.
Também eu, que aos poucos estava me reduzindo ao que em mim era irredutível, também eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu protozoária, proteína pura. Segura minha mão, cheguei ao irredutível com a fatalidade de um dobre – sinto que tudo isso é antigo e amplo, sinto no hieróglifo da barata lenta a grafia do Extremo Oriente. E neste deserto de grandes seduções, as criaturas: eu e a barata viva. A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz. Aquele quarto que estava deserto e por isso primariamente vivo. Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e úmido.
Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. (1964)
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