segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O rapaz infinitamente promissor

Conversei recentemente com uma jovem que tinha trabalhado nove anos nos Estados Unidos e que hoje mora em Belo Horizonte com o marido e os filhos, tem casa própria, uma empresa bem estabelecida, carro do ano e uma poupança bem fornida, frutos de muito trabalho e dedicação na Meca do Capitalismo Ocidental.

O que mais me surpreendeu na conversa que tivemos foi o conteúdo das histórias por ela contadas, narrando suas experiências na terra do Tio Sam. Nelas, o verbo mais utilizado foi, sem dúvida, o “comprar”. Além de juntar dinheiro, essa jovem (integrante de uma equipe de faxina, que “fazia três ou quatro casas por dia”) comprava muito, geralmente produtos de consumo popular nos Estados Unidos, mas que, aqui no Brasil, são relativamente caros: televisões, computadores, celulares, tênis das marcas Nike ou Puma (originais), iphone, ipod, playstation, etc. De lá ela trouxe, só para ela, 50 pares de tênis de marca, que ela nem sabe se vai usar. Isso porque o Capitalismo é muito eficaz na criação de novas modas e novos desejos, de forma a estimular o consumo desenfreado da população que, bombardeada por propagandas sedutoras, muitas vezes abandona bens em bom estado de conservação para adquirir produtos da moda, novas tecnologias, novas marcas...

O fato é que, ao consumir, muita gente se preocupa, acima de tudo, em criar em torno de si uma imagem de prosperidade e sucesso, já que no mundo capitalista os bens materiais não são simplesmente artigos de utilidade, mas também símbolos de status social.

Imagino que o leitor conheça alguém que se endividou absurdamente para financiar um carro importado pelo simples desejo de transmitir à sociedade uma imagem de poder e riqueza. Uma imagem falsa - porque, na sua essência, o Capitalismo é falso, artificial, efêmero e, muitas vezes, cruel.

No mundo de hoje, o desejo de riqueza, poder e ostentação tem se sobreposto a valores essenciais para a harmonia da sociedade, como a humildade, a generosidade, o altruísmo e o amor ao próximo. Somos fantoches de um sistema que nos quer consumistas, bem sucedidos e orgulhosos; que quer que nos preocupemos em ser ricos e poderosos ou, pelo menos, em aparentar riqueza e poder (o que, além de ridículo, pode gerar frustração, depressão e até suicídio).

Pense nisso, leitor. Reflita mais sobre o que é realmente essencial na sua vida e procure, acima de qualquer coisa, ser feliz e viver em paz e harmonia com o próximo.

Para reflexão, deixo você com um trecho do livro Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom:

"Chegar aos quarenta abalou a idéia de que tudo me era possível. Subitamente, entendi o fato mais óbvio da vida: que o tempo é irreversível, que minha vida estava se consumindo. É claro que eu já sabia disso antes, mas sabê-lo aos quarenta foi uma espécie diferente de saber. Agora, sei que o rapaz infinitamente promissor foi meramente uma ordem de marchar, que promissor é uma ilusão, que infinitamente não tem sentido e que estou em fileira cerrada com todos os outros homens em direção à morte."

Flávio Marcus da Silva

Pará de Minas, 08 de julho de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Big Sur

Ao meio-dia o sol enfim sempre aparece, forte, batendo na varanda alta onde estou sentado com livros e café e à tarde eu pensei nos antigos índios que devem ter habitado esse cânion por milhares de anos, em como no século X esse vale devia ter o mesmo aspecto, só com árvores diferentes: esses índios antigos simplesmente os ancestrais dos índios mais recentes digamos de 1860 - Como todos morreram e em silêncio enterraram seus ressentimentos e expectativas - Como o córrego podia ser alguns centímetros mais fundo já que a atividade madeireira dos últimos 60 anos prejudicou um pouco as vertentes - Como as mulheres pilavam as bolotas, bolotas ou bolopts, até que enfim achei as nozes naturais do vale e elas tinham um gosto doce - E os homens caçavam veados - Na verdade só Deus sabe o que eles faziam porque eu não estava aqui - Mas o mesmo vale, mil anos de pó mais ou menos por cima das pegadas deles de 960 d. C. - E até onde eu vejo o mundo é velho demais para que possamos falar sobre ele com as nossas palavras tão novas - Vamos passar tão quietos pela vida (passando, passando) como o povo do século X aqui nesse vale só que com um pouco mais de barulho e algumas pontes e barragens e bombas que sequer vão durar um milhão de anos - Sendo que o mundo é apenas o que é, se movendo e passando, na verdade tudo bem a longo prazo e nada do que reclamar - Até as rochas do vale tinham ancestrais rochosos, um bilhão de bilhões de anos atrás, não deixaram nenhum uivo de queixume - Nem as abelhas, ou os primeiros ouriços do mar, ou a amêijoa, ou a pata cortada - Tudo a visão É-A-VIDA do mundo, bem diante do meu nariz enquanto eu olho, - E olhando para aquele vale na verdade eu percebo que tenho que preparar o almoço e não vai ser diferente do almoço daqueles homens antigos e ainda por cima gostoso - Tudo é a mesma coisa, a neblina diz "Nós somos neblina e voamos nos dissolvendo como coisas efêmeras", e as folhas dizem "Nós somos folhas e tremelicamos ao vento, nada mais, chegamos e partimos, crescemos e caímos" - Até os sacos de papel no lixo dizem "Nós somos sacos de papel feitos de polpa de madeira pelos homens, temos um certo orgulho de ser sacos enquanto isso for possível, mas depois voltaremos a ser polpa de madeira com nossas irmãs folhas quando chegar a época das chuvas" - Os tocos de árvore dizem "Nós somos tocos de árvores arrancadas do solo pelos homens, às vezes pelo vento, temos grandes tendões cheios de terra que bebem do solo" - Os homens dizem "Nós somos homens, arrancamos árvores, fazemos sacos de papel, achamos que temos boas ideias, fazemos o almoço, olhamos em volta, fazemos um grande esforço para perceber que tudo é a mesma coisa" - Enquanto a areia diz "Nós somos areia, nós já sabemos", e o mar diz "Nós sempre vamos e voltamos, caímos e ploch" - O grande azul vazio do céu diz "Tudo isso volta para mim, então parte outra vez, e volta outra vez, então parte outra vez, e eu não estou nem aí, de um jeito ou de outro tudo me pertence" - O céu azul acrescenta "Não me chame de eternidade, me chame de Deus se você quiser, todos vocês tagarelas estão no paraíso: a folha é o paraíso, o toco de árvore é o paraíso, o saco de papel é o paraíso, o homem é o paraíso, a areia é o paraíso, o mar é o paraíso, a neblina é o paraíso" - Você consegue imaginar que o homem com insights maravilhosos como esses pode enlouquecer em um mês? (porque você tem que admitir que os sacos de papel e as areias falantes estavam dizendo a verdade) - Mas eu lembro de ver uma massa de folhas de repente se agitar com o vento, depois flutuar depressa pelo córrego em direção ao mar, fazendo com que eu sentisse um horror inefável na mesma hora "Ah meu Deus, estamos todos sendo arrastados pro mar não importa o que a gente diga ou faça" - E um pássaro que estava num galho torto some de repente sem eu escutar nada.

Jack Kerouac, Big Sur (1962). Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 35-36.

domingo, 29 de agosto de 2010

Para sempre, até quando?

O filme Pão e tulipas conta a história de uma dona de casa que viaja de excursão com a família, mas é esquecida pelo ônibus num restaurante de beira de estrada. Então ela aproveita a oportunidade para "tirar férias" da vida que levava: pega uma carona, vai para Veneza e começa a excursionar sozinha por uma nova vida.

Ao sair do cinema, me lembrei de uma passagem do livro Ela é carioca, de Ruy Castro. Lá pelas tantas ele conta que determinada mulher havia viajado muito e frequentado todas as festas, até que casou, teve três filhos e por pouco não se aquietou. "Se ela se distraísse, acabaria sendo feliz para sempre."

Ser feliz para sempre é o final que todos nós sonhamos para nossa história pessoal. A personagem de Pão e tulipas estava sendo feliz para sempre, até que descobriu que a felicidade muda de significado várias vezes durante o percurso de uma vida. Ninguém sabe direito o que é felicidade, mas, definitivamente, não é acomodação. Acomodar-se é o mesmo que fazer uma longa viagem no piloto automático. Muito seguro, mas que aborrecimento. É preciso um pouquinho de turbulência para a gente acordar e sentir alguma coisa, nem que seja medo.

Tem muita gente que se distrai e é feliz pra sempre, sem conhecer as delícias de ser feliz por uns meses, depois infeliz por uns dias, felicíssimo por uns instantes, em outros instantes achar que ficou maluco, então ser feliz de novo em fevereiro e março, e em abril questionar tudo o que se fez, aí em agosto ser feliz porque uma ousadia deu certo, e infeliz porque durou pouco, e assim sentir-se realmente vivo porque cada dia passa a ser um único dia, e não mais um dia.

Eu não gosto de montanha-russa, o brinquedo, mas gosto de montanha-russa, a vida. Isso porque creio possuir um certo grau de responsabilidade que me permite saber até que altura posso ir e que tipo de tombo posso levar sem me machucar demasiadamente: alto demais não vou, mas ficar no chão o tempo inteiro não fico.

Viver não é seguro. Viver não é fácil. E não pode ser monótono. Mesmo fazendo escolhas aparentemente definitivas, ainda assim podemos excursionar por dentro de nós mesmos e descobrir lugares desabitados onde nunca colocamos os pés, nem mesmo em imaginação. E estando lá, rever nossas escolhas e recalcular a duração de "pra sempre". Muitas vezes o "pra sempre" não dura tanto quanto duram nossa teimosia e receio de mudar.

Martha Medeiros, Non-stop: crônicas do cotidiano. Porto Alegre, L&PM, 2007. p. 243-4

sábado, 28 de agosto de 2010

A Revolução Francesa e os livros

A Literatura de libelo do final do reinado de Luís XV tornou-se devastadoramente pertinente no final do reinado de Luís XVI. Amoldou-se aos fatos de 1787-88, fornecendo uma estrutura geral para um novo suprimento de anedotas e propos. Ajudou os contemporâneos a entenderem as coisas, apresentando-lhes uma narrativa básica que recuava no tempo, passava por Luís XVI e Luís XV e chegava a Luís XIV, Mazarin, Maria de Médicis e Henrique III. O gênero literário que se desenvolvera a partir do obscuro torneio verbal da corte renascentista produziu best-sellers e, no processo de sua evolução, cobriu mais de dois séculos de história política. Incorporou material novo e novas técnicas de retórica num conjunto de histórias, num folclore político, organizado em torno de um tema central com uma moral única: a monarquia degenerara em despotismo. Em vez de propiciar uma discussão séria dos negócios de Estado, essa literatura fechou o debate, polarizou as opiniões e isolou o governo. Atuou segundo o princípio de simplificação radical, uma tática efetiva em tempo de crise, quando a definição de posições obriga o público a tomar partido e a ver as questões como sendo absolutas: isto ou aquilo, preto ou branco, eles ou nós. Em 1787 e 1788, não importava o fato de a Bastilha estar praticamente vazia e Luís XVI não desejar nada mais do que o bem-estar de seus súditos. O regime estava condenado. Perdera o último round na longa luta para controlar a opinião pública. Perdera a legitimidade. (p. 262)

Robert Darnton, Os best-sellers proibidos da França pré-revolucionária. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Bares e casamentos

Em Londres um pub está fazendo sucesso porque instalou para seus clientes uma cabine telefônica com uma sonorização peculiar: enquanto a pessoa fala no telefone, pode acessar o som de uma tranqueira no trânsito, com muito buzinaço. Ou pode acessar o som de um ambiente de escritório. Toda essa parafernália é para que quem esteja do outro lado da linha não identifique o som do bar. Assim o bebum pode dar uma desculpa esfarrapada e chegar em casa sem levar uma descompostura; afinal, estava trabalhando até tarde, o coitado, e ainda por cima ficou preso num engarrafamento depois.

Essa cabine telefônica com efeitos especiais só vem demonstrar que os bares andam muito moderninhos, mas os casamentos continuam parados no tempo, mesmo na vanguardista Inglaterra. "Só vou se você for" segue na moda. Enquanto isso a hipocrisia deita e rola.

Muitas pessoas ainda têm uma ideia convencional do casamento: encaminham-se para o altar como quem se encaminha para o supermercado em busca de um produto pronto, industrializado, com um rótulo dando as instruções de como utilizá-lo, e parece que a primeira instrução é: nenhum dos dois tem o direito de se divertir sozinho ou com os amigos, a menos que o cônjuje esteja junto. Não é de estranhar que os prazos de validade do amor andem cada vez mais curtos.

Não há paixão que resista ao grude. Não há paciência que resista à patrulha. Não há grande amor que prescinda de outras amizades. Sair sozinho para beber com os amigos deveria ser um dos dez mandamentos para uma união estável, valendo par ambos os sexos. Quem não gosta de bar pode substituir por futebol, cinema, restaurantes, shows, sinuca, saraus ou o que o Caderno de Cultura sugerir. E não perca tempo apiedando-se daquele que vai ficar em casa. Provavelmente ele vai se divertir tanto quanto. Ouvir música, ver televisão, ler livros, abrir um vinho, tomar um banho de duas horas, navegar na internet, dormir cedinho, tudo isso também é um programaço. Quem não sabe ficar sozinho não pode casar, sob pena de transformar o matrimônio num presídio a dois.

Tem muita coisa em Londres que eu gostaria de ter aqui: parques bem-cuidados, mais livrarias, mais respeito à individualidade, melhor transporte público, prédios mais charmosos. Só dispensaria o clima e esse pub pra lá de vitoriano, onde pessoas adultas são incentivadas a inventar um álibi pra justificar um atraso. Atraso é ter que mentir para que o outro não perceba que você está feliz.

Martha Medeiros, Non-stop (crônicas do cotidiano). 7 ed. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 66-67.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Rótulos e preconceitos

"Simplificações são tentadoras neste mundo onde tudo é bem mais complexo do que parece. É quase um insulto quando encontramos uma morena burra, um português inteligente, um poeta rico, uma celebridade deprimida, um político honesto, um adolescente bem resolvido. Preferimos conviver com estereótipos porque eles facilitam a vida da gente: generaliza-se e fim. Menos uma coisa pra pensar". (p. 62-3)

Martha Medeiros, Non-stop (crônicas do cotidiano). Porto Alegre: L&PM, 2007.

domingo, 15 de agosto de 2010

Reuniões pra quê?

- Eu gostaria de falar com o Eduardo.
- Quem gostaria?
- Luiz Alfredo.
- Luiz Alfredo de onde?
- Luiz Alfredo da turma do Anchieta de 79, última fila, perto da janela, eu era aquele que sempre perdia a tampa da Bic.
- Sinto muito, seu Eduardo está em reunião.

Luiz Alfredo terá que esperar a reunião do amigo acabar, e isso levará em torno de duas horas e meia. Eduardo é o novo gerente de uma empresa que tem essa mania estranha de fazer longas reuniões para decidir coisas que poderiam ser resolvidas com uma conversa rápida no corredor ou pela internet. Mas ninguém vive sem cafezinho e retórica.

Na reunião, a terceira do dia, Eduardo está falando da importância de quebrar paradigmas e de agregar valor, e sente-se um idiota por repetir expressões que fazem seus subalternos olharem para ele como se estivessem vendo um executivo extraterrestre, um super-homem de gravata. Eduardo sabe que não está agregando valor nenhum com essa conversa pedante e que poderia resolver as coisas com menos formalismo, em linguagem de gente normal.

Mas Eduardo precisa preencher mais uma hora de reunião, pois ele também tem um superior que está checando seu perfil competitivo, que está observando as técnicas motivacionais que ele adota como gerente, que está analisando o desempenho de Eduardo em nível de chefia. Argh.

Eduardo propõe, então, O Desafio. Os subalternos entreolham-se apavorados. Eduardo apresenta gráficos, lâminas, organogramas e por pouco não coloca na roda o seu eletroencefalograma. É necessário manter todos acordados e cientes da missão da empresa: qualidade, produtividade e agilidade. A reunião ultrapassa vinte minutos do tempo previsto. Só então Eduardo retorna a ligação de Luiz Alfredo.

- Dado, até que enfim!
- Fala, Luiz Alfredo.
- Queria uma opinião sua, tenho um funcionário aqui que aumentou em 14% o faturamento da matriz, o que você acha?
- Eu promoveria na hora e adotaria o método dele nas filiais.
- Falou. Vamos bater uma bola hoje?
- Te pego às oito.
- Fechado.

Martha Medeiros, Montanha-russa (crônicas). Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 210-11

Endereço da imagem

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Falta demônio

Clarice Lispector e Fernando Sabino foram amigos íntimos e trocaram muitas cartas no início da carreira literária de ambos. Em uma dessas cartas, enviada de Berna, onde morava, Clarice escreveu para Sabino: "Falta demônio nessa cidade".

Falta demônio em toda a Suiça. Falta demônio em muitos lugares. Não falta no Brasil, e talvez seja esta a explicação para o encantamento que o país provoca em estrangeiros e nativos: é o feitiço da irreverência.

Os Beatles tinham um demônio parcimonioso quando cantavam she loves you, yeah, yeah, yeah, tornando-se mais famosos que Jesus Cristo. Só deixaram o demônio tomar conta em discos como Sargent Pepper's, Álbum Branco e Abbey Road, numa época em que Mick Jagger julgava-se o único representante de Lúcifer na terra. Há demônio no rock, em todas as bandas.

Há demônio no vinho, falta no clericot. Há demônio no jeans, falta no linho. Há demônio nas fotos em preto-e-branco.

Há demônio no cinema, não há na televisão. Há demônio em livros, não há em revistas. Há demônio em Picasso, Almodóvar, Wagner, Janis Joplin. Há demônio na chuva mais do que no sol, há demônio no humor e na ironia, nenhum demônio no pastelão.

Não há demônio em bichos e crianças. Volto atrás sobre as crianças. Em algumas há, mas somente nas muito especiais. As outras pensam que são espertas, mas são apenas mal-educadas.

Na poesia há sempre demônio. Na boa poesia, na poesia marginal, na poesia de amor. Paixão é quando o demônio está nu. Sexo com quem se ama é muito mais satânico, não precisa ser um amor pra sempre, pode ser um amor de repente, qualquer amor inferniza.

Coca-cola tem mais demônio que guaraná. A inteligência tem mais demônio que a simpatia. A vida tem mais demônio que a morte. Filosofia, psicanálise, beijo, aventura, silêncio. Um minuto de silêncio. O pensamento é o demo.

O Oriente tem. Manhattan tem. Berna não tem, como tudo que é neutro.

Martha Medeiros, Montanha-russa (crônicas). Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 44-45

Fonte da imagem: Sargent Pepper's

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Querer mesmo

O navegador Amyr Klink, ao ser perguntado por um repórter sobre o que sentia a respeito das pessoas que passam 30 anos trabalhando no mesmo escritório, sentadas a vida inteira diante da mesma escrivaninha, respondeu: "inveja". Klink admira quem consegue ser feliz numa rotina imutável e tediosa. Como ele não consegue, sai pelo mundo em busca de desafios.

Foi uma resposta provocativa. Inveja é justamente o que nós, seres confortavelmente acomodados, sentimos de Amyr Klink, quando o vemos excursionar por cenários glaciais de tirar o fôlego e fazendo da superação dos seus medos a sua rotina. Qual o segredo desse cara, afinal, para conciliar família e aventura? A gente também adoraria essa vida, mas a diferença entre ele e nós, acreditamos ingenuamente, é que ele tem patrocínio para sua falta de juízo, enquanto que nós temos juízo de sobra e dinheiro contadinho no final do mês.

Na verdade, nossa resignação é conveniente, já que realizar sonhos dá muito trabalho. A única diferença entre ser um navegador e ser um economista-que-sonha-em-ser-um-navegador é que um quis mesmo. O outro não quis tanto assim.

Para romper convenções e arriscar-se no desconhecido, é preciso querer mesmo. Querer mesmo escalar uma montanha, querer mesmo surfar uma onda assassina, querer mesmo filmar um documentário na África, querer mesmo ser correspondente de guerra, querer mesmo trabalhar na Nasa, só para citar outras aventuras supostamente inatingíveis. Querer mesmo, em vez de apenas querer, abre a cancela de qualquer fronteira, seja ela geográfica ou emocional.

Antes de alcançar os pontos mais indevassáveis da Antártida a bordo de barcos equipados com alta tecnologia, Klink remou bastante, não ficou em casa mentalizando seu sonho. Querer mesmo significa abrir mão de uma série de confortos, tomar muito chá de banco, ver inúmeras ideias darem errado antes de darem certo. E, em troca, ser chamado de doido varrido.

Querer, a gente quer muita coisa. Mas quase sempre é um querer preguiçoso, um querer que não nos impulsiona a levantar da cadeira, ainda mais quando nosso projeto tem 0,5% de chance de sucesso. É difícil conseguir o que se quer. Só se torna menos difícil quando se quer mesmo. Pena que alguns só querem mesmo é ser rico ou ser gostosa, para isso fazendo coisas muito mais insanas do que faz Amyr Klink. O que todos deveriam querer, mas querer mesmo, é fugir da mediocridade.

Martha Medeiros, Montanha-russa (crônicas). Porto Alegre: L&PM, 2009. p.166-7

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Preserve sua natureza

"Salve a Mata Atlântica, não polua mares e rios, proteja o ar que a gente respira, não deixe que ipês e plátanos sejam arrancados para dar passagem a viadutos, não pise na grama, não compre nem venda animais silvestres, mas, sobretudo, preserve sua própria natureza.

Se você não nasceu para o terno e a gravata, para o ar condicionado e para reuniões, não se torne um executivo, não ambicione ter tanto dinheiro, não pegue a trilha errada porque, lá adiante, vai dar preguiça de retornar e começar tudo de novo.

Se você não se imagina passando o resto da vida ao lado de uma única pessoa, se tem fome de liberdade, se gosta de estar em trânsito e experimentar toda forma de amor, e desconfia que sempre será assim, não importa a idade que tiver, então não case, não siga padrões de comportamento para os quais você suspeita não ter talento.

Se você sente que tem um amor enorme dentro de você e precisa dividir isso com alguém, se há em você generosidade suficiente para dedicar a maior parte do seu tempo a ensinar, brincar e criar uma pessoa, então não deixe de ter um filho, mesmo que não tenha com quem concebê-lo, mesmo que pense que já perdeu esse trem: perdeu nada, adote uma criança.

Se você não suporta mais ser governado, se não tem paciência para esperar as coisas acontecerem, se seu voto não tem adiantado grande coisa, se sua cabeça está cheia de ideias simples e praticáveis, se você tem o dom da oratória, muitos amigos, um ótimo caráter e acredita que pode mudar o que está aí, candidate-se, e apresente suas soluções.

Se você não é capaz de ficar com vários caras num único verão, se não tem pique para sair para a balada todas as noites, se sonha em encontrar um amor de verdade, alguém que a compreenda e seja um parceiro pra sempre, então não force outros relacionamentos, lute pelo seu ideal romântico, não se avexe por estar na contramão.

Não devaste nem polua você mesmo".

Martha Medeiros, Montanha-russa (crônicas). Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 110-111.

Maria João fala de sua visita a Amadeu em Coimbra

"Quando eu fui visitá-lo, ele estava vestido de maneira acintosamente desleixada. Eu lhe perguntei por que ele não usava a fita amarela da faculdade como os outros estudantes de Medicina.

"- Você sabe que eu não gosto de uniformes, nem mesmo aquele boné do liceu - disse ele.

"Quando precisei ir embora e ele me acompanhou até a estação, vimos um estudante que usava a fita azul-escura da Literatura.

"Olhei para Amadeu.

"- Não se trata da fita - disse para ele. - Trata-se da fita amarela. Você adoraria usar a fita azul.

"- Você sabe muito bem que detesto ser desmascarado. Volte logo. Por favor.


Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa, p. 392-3

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Solidão furiosa

"Será que tudo o que fazemos é pelo medo que temos da solidão? Será por isso que abrimos mão de todas as coisas das quais nos arrependeremos no fim da vida? Será por isso que tão raramente dizemos o que pensamos? Se não for por isso, por que é que insistimos em todos estes casamentos falidos, nas amizades hipócritas, nas tediosas festas de aniversário? O que aconteceria se rompêssemos com tudo isso, se acabássemos com a chantagem insidiosa e nos assumíssemos como somos? Se deixássemos irromper como uma fonte os nossos desejos escravizados e a raiva pela sua escravidão? Pois em que consiste a solidão temida? No silêncio das admoestações que deixam de ser feitas? Na falta da necessidade de se esgueirar, sem respirar, pelo campo minado das mentiras conjugais e das meias verdades complacentes? Na liberdade de não termos ninguém à nossa frente durante as refeições? Na densidade do tempo que se abre quando emudece o tiroteio de convites e combinações com os outros? E tudo isso não serão coisas maravilhosas? Não seria um estado paradisíaco? Por que, então, o medo? Será que, no fim das contas, é um medo que apenas existe porque não refletimos sobre o seu objeto? Um medo que nos foi impingido, sem refletir, por pais, professores e padres? E por que estamos assim tão seguros de que os outros não nos invejariam se vissem como cresceu a nossa liberdade? E que logo tentariam procurar a nossa companhia?"

Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa. p. 347-8

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Recordando uma leitura que me marcou muito

"Nunca existira um homem com tão profunda e apaixonada necessidade de independência como ele. Em sua juventude, quando ainda era pobre e tinha dificuldades em ganhar a vida, preferia passar fome e andar malvestido a sacrificar uma parcela de sua independência. Nunca se vendera por dinheiro ou vida fácil às mulheres ou aos poderosos, e mil vezes desprezara o que aos olhos do mundo representava vantagens e regalias, a fim de salvaguardar sua liberdade. Nenhuma idéia lhe era mais odiosa e terrível do que a de exercer um cargo, submeter-se a horários, obedecer a ordens. Um escritório, uma repartição, uma sala de audiência, eram-lhe tão odiosos quanto a morte, e o que de mais espantoso podia imaginar em sonhos seria o confinamento num quartel. Sabia subtrair-se a todas essas coisas, à custa de grandes sacrifícios, e nisso residiam sua força e virtude, nisso era inflexível e incorruptível, nisso seu caráter era firme e retilíneo. Só que a essa virtude estavam intimamente ligados seu sofrimento e seu destino".

"Se examinarmos agora a alma do Lobo da Estepe, veremos que ele é distinto do burguês por causa do alto desenvolvimento de sua individualidade, pois toda individualização superior se orienta para o egotismo e propende portanto ao aniquilamento. Vemos que tem em si um forte impulso tanto para o santo quanto para o libertino; portanto, não pode tomar o impulso necessário para atingir o espaço livre e selvagem, por debilidade ou inércia, e permanece desterrado na difícil e maternal constelação da burguesia. Esta é sua situação no espaço do mundo e sua sujeição. A maior parte dos intelectuais e dos artistas pertence a esse tipo. Só os mais fortes entre eles ultrapassam a atmosfera da terra da burguesia e logram entrar no espaço cósmico; todos os demais se resignam ou selam pactos, pertencem a ela, reforçam-na e glorificam-na, pois em última instância têm de professar sua crença para viver. A vida desse infinito número de pessoas não atinge o trágico, mas apenas um infortúnio considerável e uma desventura, em cujo inferno seus talentos engendram e frutificam. Os poucos que se libertaram buscam sua recompensa no absoluto e sucumbem no esplendor".

"Quando se falava com ele e, o que não era habitual, ele se deixava ir além dos limites do convencional e dizia coisas pessoais e singulares, então a palestra passava imediatamente a subordinar-se a ele, uma vez que havia pensado mais do que os outros homens e tinha nas questões espirituais aquela quase fria objetividade, aquela segurança de pensar e de saber que só possuem os homens verdadeiramente espirituais, que carecem de toda ambição, que nunca desejam brilhar nem persuadir aos demais nem arvorar-se em donos da verdade".

Fala o Lobo da Estepe: "Ao mesmo tempo pensava comigo: assim como agora me visto e saio, vou visitar o professor e troco com ele algumas frases amáveis, mais ou menos falsas, tudo isso contra a minha vontade; assim procede a maioria dos homens que vivem e negociam todos os dias, todas as horas, forçadamente e sem na realidade querê-lo; fazem visitas, mantêm conversações, sentam-se durante horas inteiras em seus escritórios e fábricas, tudo à força, mecanicamente, sem vontade; tudo poderia ser realizado com a mesma perfeição por máquinas ou não se realizar; e essa mecânica eternamente continuada é o que lhes impede, assim como a mim, de exercer a crítica de sua própria vida, reconhecer e sentir sua estupidez e superficialidade, sua desesperada tristeza e solidão. E têm razão, muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou. Se às vezes desprezo e até me burlo dos homens nestas páginas, não será por isso que os culpe de minha indigência pessoal! Mas eu, que cheguei tão longe e estou à margem da vida, de onde se tomba à escuridão sem fundo, cometo uma injustiça e minto, se pretendo enganar-me e enganar os outros, como se funcionasse também para mim aquela mecânica, como se continuasse a pertencer àquele mundo nobre e infantil do eterno jogo!"

Hermann Hesse, O Lobo da Estepe (Der Steppenwolf, 1927)

sábado, 31 de julho de 2010

Natal em família

"Engoliu a cerveja sem gosto e olhou em volta, o rosto lambuzado pela gordura viscosa do pernil, a camisa salpicada de farofa, os olhos meio baços, uma azia que parecia vir de olhar os rostos à sua volta. Tios, primos, ex-maridos de tias, sobrinhos de primos, pais, irmãos, avós... Essa gente, muitas vezes tão diferente e distante de nós, mas a quem nos sentimos ligados por estranhos laços de ácido desoxirribonucléico e filetes untuosos de porra. Enjoado, ele olha em volta e pensa que até poderia amar sua família, se a visitasse em outra época do ano. Impossível amá-los num período grotesco como este, quando saem vestindo os mais terríveis sorrisos e se lançam desesperados em busca da felicidade, obrigatória nesta época. Impossível amá-los assim, vendo como se enchem de comida, dão gargalhadas furiosas e evitam os assuntos errados, encenando um trato cordial, untuoso como o pernil, tudo para obedecer à ordem de serem felizes, essa felicidade 1984, essa felicidade Admirável Mundo Novo, essa felicidade com dia e horário marcados, decretada pelos comerciais das Casas Bahia, ditada pelos especiais do Roberto Carlos e da Xuxa. Em meio ao funk do rádio no último volume, ele tenta se refugiar na infância. E se lembra de como ele e os irmãos deixaram de acreditar cedo em Papai Noel, mas tiveram vergonha de contar aos pais: era tão constrangedor ver dois adultos fazendo aquele ritual ridículo de, Ei vamos dar uma volta na praça, e a mãe que dizia, Espera, e depois voltava para fechar a porta, e a gente sabia, era tão óbvio, que ela tinha voltado para colocar embaixo da árvore os presentes que estavam trancados dentro do guarda-roupa. E quando, depois do passeio, voltávamos para casa, os pais arregalavam os olhos ao ver os presentes embaixo da árvore, e falavam, Olha o que o papainoel deixou, e nós nos esforçávamos para copiar a mesma cara de espanto e maravilha que eles faziam, para nos mostrarmos tão espantados e maravilhados como eles, porque aquele, afinal, era o dia, o dia de se sentir espantado e maravilhado. Nada mudou, ele pensa, e repara como todos continuam a executar a mesma pantomina de felicidade, numa marcação precisa e antiquada. Nada pode atrapalhar a felicidade, e a mãe com o pé machucado corre de um lado para o outro atirando pratos de pernil, leitoa e peru, é tempo de muita fome, todos devem comer até se estourar. Contempla a fome dos irmãos, os olhos esbugalhados de carência e ciúme, que se atiram sobre a mãe como moscas em esterco, retalhando a coitada em pedaços com sua fome de carinho. Untuosa como o pernil, ele sente a atmosfera carregada de ódios subentendidos e rancores encobertos, menções a cornos, filhos ilegítimos e abusos sexuais que hoje devem ser evitados a todo custo – afinal, haverá outros 364 dias do ano para falar sobre eles. Eles desfilam com imensos sorrisos pregados nos rostos, feitos para não pensar no xingamento de ontem e nem na maledicência de amanhã. Tão cansado quanto ele, o pai se refugia, longe de todos, no outro extremo da casa, diante da TV. É para lá que o filho vai, exausto de tanta fartura e alegria, sem ânimo para competir com os irmãos nas disputas sangrentas pelo amor materno. Na sala, chega a sentir algo como uma imensa ternura ao ver o pai ali, tão distante, tão diferente e indiferente, controle remoto na mão, xingando alguma porcaria da televisão, tão irremediavelmente distante de qualquer felicidade de carnes gordurosas e presentes com laços. O filho sabe, porém, que não tem, como o pai, o dom de se manter apático, ao mesmo tempo ao lado e à parte. O filho contempla uma foto de si próprio, no porta-retrato da sala, a foto do bom filho, um imenso sorriso talhado na cara, transbordando de felicidade. Ele pensa em como esta fotografia nunca irá magoar ninguém com as palavras erradas, nem se aborrecer e ofender aos demais parentes com seu tédio gigantesco. Tudo o que ele quer é sumir dali, fugir para muito longe. Deixar que o porta-retrato assuma o seu papel como filho, de um jeito muito mais apropriado".

Texto de Fausto Salvadori, autor do blog Boteco Sujo

domingo, 25 de julho de 2010

L'âme du vin

Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles :
" Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité !

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l'âme ;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j'éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d'un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l'espoir qui gazouille en mon sein palpitant ?
Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
Tu me glorifieras et tu seras content ;

J'allumerai les yeux de ta femme ravie ;
A ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L'huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l'éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur ! "

Charles Baudelaire (1821-1867)

Dedico esta postagem ao meu primo Giovânio, amante do bom vinho

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Trem noturno para Lisboa

Estimado senhor diretor, caro colega Kägi,

O senhor deve ter sido informado de que ontem abandonei a sala de aula sem qualquer explicação e não voltei mais, e o senhor também já deve saber que, de lá para cá, não fui mais encontrado. Estou bem, nada aconteceu comigo. No entanto, ao longo do dia de ontem passei por uma experiência que modificou muita coisa. Ela é por demais pessoal e também ainda muito pouco clara para que eu a possa colocar no papel agora. Preciso simplesmente pedir-lhe que aceite o meu ato abrupto e sem explicação. Imagino que me conhece o suficiente para saber que nada disso aconteceu por leviandade, falta de responsabilidade ou indiferença. Estou partindo para uma longa viagem e ainda está em aberto quando voltarei e de que forma. Não espero que guarde o meu emprego para mim. A maior parte da minha vida foi intimamente entrelaçada com este liceu, e estou certo de que sentirei falta dele. Mas agora algo me impele a partir, e é bem possível que esse movimento seja definitivo. O senhor e eu somos ambos admiradores de Marco Aurélio, e o senhor haverá de se lembrar deste trecho de seus Pensamentos: "Força-te, força-te à vontade e violenta-te, alma minha; mais tarde, porém, já não terás tempo para te assumires e respeitares. Porque de uma vida apenas, uma única, dispõe o homem. E se para ti esta já quase se esgotou, nela não soubeste ter por ti respeito, tendo agido como se a tua felicidade fosse a dos outros... Aqueles, porém, que não atendem com atenção os impulsos da própria alma são necessariamente infelizes."

Agradeço a confiança que sempre me dispensou e a boa colaboração que nos uniu. Tenho certeza de que encontrará as palavras adequadas quando se dirigir aos alunos, palavras que os fará saber o quanto gostei de trabalhar com eles. Antes de partir, ontem, observei-os e pensei: Quanto tempo eles ainda têm pela frente!


Na esperança de sua compreensão e os melhores votos para o senhor e o seu trabalho sou

Raimund Gregorius

Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa. 6a ed. Rio de Janeiro: Record, 2010. p. 36-37

Profundezas incertas

Haveria um mistério sob a superfície da atividade humana? Ou seriam as pessoas exatamente como se revelam através de suas ações explícitas?

Pode parecer estranho, mas dentro de mim a resposta se alterna conforme a luz que recai sobre a cidade e o Tejo. Na luz mágica de um dia luminoso de agosto, que produz sombras nítidas e de contornos claros, a ideia de uma profundeza humana oculta me parece absurda e como um fantasma curioso, algo terno, semelhante a uma miragem que aparece quando olho longamente para as ondas que surgem naquela mesma luz. Mas se, ao contrário, a cidade e o rio, num dia triste de janeiro, são envolvidos por uma cúpula de luz sem sombra e tediosamente cinzenta, não conheço certeza maior do que esta: a de que qualquer ação humana não passa de manifestação altamente imperfeita, até mesmo ridícula e indefesa, de uma vida interior oculta de profundezas nunca imaginadas. Uma vida que quer chegar à superfície sem jamais conseguir alcançá-la.

A esta estranha e inquietante incerteza do meu julgamento soma-se ainda mais uma experiência que, desde que a conheci, tem mergulhado a minha vida em uma insegurança perturbadora: é que nessa questão, além da qual não pode existir nada mais importante para nós humanos, eu hesito tanto quanto quando se trata de me analisar a mim mesmo. Quando, por exemplo, estou sentado no meu café preferido, ao sol, escutando as risadas sonoras das senhoras que passam, parece que todo o meu mundo interior está repleto até o canto mais remoto e que eu o conheço todo por ele se esgotar nessas sensações agradáveis. Mas no momento em que uma camada de nuvens prosaica e desmistificadora encobre o sol, tenho subitamente a certeza de que existem em mim profundezas ocultas e baixios dos quais podem irromper coisas nunca imaginadas e que podem me levar de arrastão. Então, procuro pagar logo e vou buscar uma diversão na esperança de que o sol volte logo, restaurando os direitos à superficialidade tranquilizadora.

Amadeu Inácio de Almeida Prado, Um ourives das palavras. Lisboa, 1975

[Ainda não sei se este livro realmente existiu, ou se é apenas fruto da imaginação de Pascal Mercier, autor do livro Trem noturno para Lisboa].

O triunfo da ética protestante

Após a derrota dos radicais, em 1660, e a liquidação definitiva do antigo regime em 1688, os dirigentes da Inglaterra organizaram um império comercial de extrema eficácia e um sistema de dominação de classes que se revelou extraordinariamente resistente à passagem do tempo. A ética protestante impôs-se, pelo menos, às ideias e sentimentos que puderam encontrar expressão impressa. A sociedade produziu grandes cientistas, grandes romances. Inventou o romance. Newton e Locke ditaram normas ao mundo intelectual. Esta foi uma civilização poderosa, que para a maior parte das pessoas representou um progresso face ao que antes existia. Porém que certeza podemos ter, em última análise, de que esse mundo era o melhor dentre os possíveis - um mundo em que poetas enlouqueceram, em que Locke tinha medo da música e da poesia, e Newton tinha ideias secretas e irracionais que não se atrevia a tornar públicas?

(...)

A ética protestante dominou tanto as atitudes morais das classes médias, a filosofia mecanicista dominou tão completamente o pensamento científico, que nem foi preciso renovar a lei de censura ao expirar ela em 1695 - não devido a um possível triunfo dos princípios libertários dos radicais, mas simplesmente porque a censura já não era necessária. Iguais a Newton nesse ponto, os formadores de opinião dessa sociedade se autocensuravam. Nada era impresso que pudesse assustar os proprietários. O que assim passava ao mundo subterrâneo e clandestino só podemos suspeitar. Alguns poucos poetas tinham ideias românticas que destoavam desse mundo; mas não era preciso levá-los demasiado a sério. A autocensura implicava a satisfação consigo mesmo.


Christopher Hill, O mundo de ponta-cabeça: Idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Cia das Letras, 1987. p. 366-367.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O mundo de ponta-cabeça

Dizer que uma coisa está de ponta-cabeça, ou posta de pernas para o ar, afinal de contas é uma descrição bastante relativa. A idéia de que esta é a posição errada só vale na medida em que a olhamos de cima para baixo. Marx disse que encontrou Hegel de ponta-cabeça e o colocou na posição correta; mas certamente não era assim que Hegel via a sua própria posição. Marx pensava que a Prússia de seu tempo era um mundo de pernas para o ar. A idéia de que o debaixo possa ir ter em cima, de que o último possa ser o primeiro e o primeiro, último, de que a "comunidade... denominada Cristo ou o amor universal" possa banir "a propriedade, cujo nome é diabo ou cobiça", e de que "as servidões internas da mente" (a cobiça, o orgulho, a hipocrisia, os medos, o desespero e a doença mental) possam ser "causadas, todas, pelas servidões externas que uma espécie de gente impõe a outra" - essas idéias não são necessariamente opostas à ordem: simplesmente contemplam uma ordem diferente. Podemos estar muito condicionados pela via ascendente que o mundo tomou nesses últimos trezentos anos, a ponto de não conseguirmos ser justos com os homens do século XVII que anteviram as possibilidades do avesso, das pernas para o ar, da reviravolta do mundo. Mas pelo menos devemos tentar entendê-los (p. 367).

Christopher Hill, O mundo de ponta-cabeça: Idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. Tradução e apresentação de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Cia das Letras, 1987.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Os fuzilamentos da Moncloa

Uma das obras mais visitadas no Museu do Prado, em Madri, é um quadro do pintor Francisco de Goya chamado Os fuzilamentos da Moncloa [pintado em 1814]. Retrata uma cena assustadora ocorrida na noite de 3 de maio de 1808 em Montana Del Príncipe Pio, nos arredores da capital espanhola. Do lado direito do quadro, sobre um fundo de tom escuro e pesado, uma fileira de soldados aponta seus fuzis para um grupo de pessoas ajoelhadas à esquerda. No centro, uma lanterna no chão projeta uma luz fantasmagórica sobre um homem que, de camisa branca e calça bege, ergue os braços em direção aos atiradores. Pede clemência? Tenta explicar alguma coisa? Faz um último ato de protesto? Ninguém nunca saberá. O instante congelado pelas tintas de Goya é de puro medo e desespero. Aos pés do homem de camisa branca estão empilhados três ou quatro cadáveres cobertos de sangue. Ao seu lado, outras pessoas esperam pelo tiro fatal. Algumas cobrem os olhos. Outras pendem a cabeça, num gesto de resignação.

O quadro de Goya é um trágico testemunho dos acontecimentos que abalaram a Península Ibérica no ano em que a família real portuguesa chegou ao Brasil. Na véspera daquelas execuções em massa, os espanhóis se rebelaram contra a invasão das tropas francesas e a deposição do rei Carlos IV. A repressão foi violenta e implacável. Entre a tarde do dia 2 e a noite do dia 3, centenas de rebeldes foram fuzilados nos subúrbios de Madri. Começava ali um dos confrontos mais sangrentos das guerras napoleônicas - e que teriam consequências profundas para os dois lados em disputa. (p. 242-243).

Laurentino Gomes, 1808. 3. ed. São Paulo: Planeta, 2009. p. 242-3.

O Brasil e os livros

"O Brasil não é lugar de literatura. (...) Na verdade, a sua total ausência é marcada pela proibição geral de livros e a falta dos mais elementares meios pelos quais seus habitantes possam tomar conhecimento do mundo e do que se passa nele. Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e sua consequência natural: o orgulho". James Henderson, 1821

James Henderson, A History of the Brazil - comprising its geography, commerce, colonization, aboriginal inhabitants. London: Longman, 1821. p. 76.

1808

"Imagine que, num dia qualquer, os brasileiros acordassem com a notícia de que o presidente da República havia fugido para a Austrália, sob a proteção de aviões da Força Aérea dos Estados Unidos. Com ele, teriam partido, sem aviso prévio, todos os ministros, os integrantes dos tribunais superiores de Justiça, os deputados e senadores e alguns dos maiores líderes empresariais. E mais: a esta altura, tropas da Argentina já estariam marchando sobre Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a caminho de Brasília. Abandonado pelo governo e todos os seus dirigentes, o Brasil estaria à mercê dos invasores, dispostos a saquear toda e qualquer propriedade que encontrassem pela frente e assumir o controle do país por tempo indeterminado.

Provavelmente, a primeira sensação dos brasileiros diante de uma notícia tão inesperada seria de desamparo e traição. Depois, de medo e revolta.

E foi assim que os portugueses reagiram na manhã de 29 de novembro de 1807, quando circulou a informação de que a rainha, o príncipe regente e toda a corte estavam fugindo para o Brasil sob a proteção da Marinha britânica. Nunca algo semelhante tinha acontecido na história de qualquer país europeu. Em tempos de guerra, reis e rainhas haviam sido destronados ou obrigados a se refugiar em territórios alheios, mas nenhum deles tinha ido tão longe a ponto de cruzar um oceano para viver e reinar do outro lado do mundo. Embora os europeus dominassem colônias imensas em diversos continentes, até aquele momento nenhum rei havia colocado os pés em seus territórios ultramarinos para uma simples visita - muito menos para ali morar e governar. Era, portanto, um acontecimento sem precedentes tanto para os portugueses, que se achavam na condição de órfãos de sua monarquia da noite para o dia, como para os brasileiros, habituados até então a ser tratados como uma simples colônia extrativista de Portugal.

No caso dos portugueses, além da surpresa da notícia, havia um fator que agravava a sensação de abandono. Duzentos anos atrás, a noção de Estado, governo e identidade nacional era bem diferente do que se tem hoje. Ainda não existia em Portugal a ideia de que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido - o princípio fundamental da democracia. No Brasil de hoje, se, por uma circunstância inesperada, todos os governantes fugissem do país, o povo ainda teria a prerrogativa de se reunir e eleger um novo presidente, deputados e senadores, de modo a recompor imediatamente o Estado e seu governo. As próprias empresas, depois de um período de incerteza pela ausência de seus donos ou dirigentes, poderiam se reorganizar e continuar funcionando. Em Portugal de 1807 não era assim. Sem o rei, o país ficava à míngua e sem rumo. Dele dependiam toda a atividade econômica, a sobrevivência das pessoas, o governo, a independência nacional e a própria razão de ser do Estado português". (p. 31-32).

Laurentino Gomes, 1808. 3. ed. São Paulo: editora Planeta, 2009, p. 31-32.

domingo, 27 de junho de 2010

A man saw a ball of gold in the sky

A man saw a ball of gold in the sky;
He climbed for it,
And eventually he achieved it --
It was clay.

Now this is the strange part:
When the man went to the earth
And looked again,
Lo, there was the ball of gold.
Now this is the strange part:
It was a ball of gold.
Aye, by the heavens, it was a ball of gold.

Stephen Crane (1871-1900)

Clay = barro

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um Sopro de Destruição

"As consequências sociais, econômicas e políticas da devastação das florestas, erosão e esgotamento dos solos, degradação do clima, extinção das espécies animais e vegetais. Pauta do dia? Sim - desde 1786.

Muito antes do que se costuma imaginar, já se discutia no Brasil, de forma consistente e criativa, a destruição do meio ambiente. Analisando cerca de 150 textos de época, produzidos por mais de 50 autores, este livro reconstitui pela primeira vez, de maneira lúcida e abrangente, um capítulo fascinante e praticamente esquecido na história do pensamento social brasileiro: a crítica ambiental nos séculos XVIII e XIX.

Nomes como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Baltasar da Silva Lisboa e Francisco Freire Alemão, entre vários outros, dedicaram-se ao debate ambiental. E - ainda mais espantoso - muitos perceberam que a superação das práticas devastadoras, a partir de um esforço consciente de modernização tecnológica, passava necessariamente pela implementação de reformas socioeconômicas profundas, que rompessem com o legado do colonialismo: o tripé escravidão-latifúndio-monocultura.

Destruir matos virgens, ... e sem causa, como até agora se tem praticado no Brasil, é extravagância insofrível, crime horrendo e grande insulto feito à natureza. Que defesa produziremos no Tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?

A pergunta que José Bonifácio se fez em 1821 vale ainda hoje. Um sopro de destruição nos permite identificar a origem de inúmeros problemas que persistem no país, funcionando como um alerta para a profundidade e urgência da questão ambiental no Brasil". (Orelha do livro).

José Augusto Pádua, Um Sopro de Destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Solenidade de (des)formatura


Jorge Ferreira S. Filho

Em recente artigo, publicado no jornal “Hoje em Dia”, o ex-reitor da UFMG, Aloísio Pimenta, teceu considerações sobre a banalização que tomou conta das solenidades de colação de grau. Indistintamente, atos públicos de formatura de engenheiros, médicos, arquitetos e até de advogados, estão se transformando em algo que mais parece um ensaio de escola de samba que uma solenidade. Apitos, cornetas, conversas, gritos e tambores dominam o espaço e o tempo do evento de formaturas.

Ao que parece, não se trata de casos isolados, pois excetuando-se as solenidades de formatura nas escolas militares (IME, ITA, Academia Naval, Agulhas Negras, CFO, etc.) e nas instituições eclesiásticas, a “bagunça” se generalizou.

Paraninfos, homenageados, patronos e autoridades discursam sabendo que ninguém presta ou pode prestar atenção às suas palavras. O barulho é ensurdecedor e não raras são as deseducadas manifestações da platéia – “kabou”, “chega”, “cala a boca” – no sentido de abafar ou inibir aquele que, ingenuamente, pretende transmitir uma mensagem, ensinar, contribuir, formar uma pessoa, por meio do conteúdo de seu discurso.

O total desprezo pela forma tradicional que se adotava para a colação de grau no Brasil, se configura hoje, como diria Émile Durkhein, um “fato social”. Isso significa a constatação da existência de “maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo”, caracterizadas por um forte poder coercitivo, da massa de pessoas presentes na solenidade, sobre o comportamento de cada pessoa isoladamente considerada.

Instiga-me perguntar: o fenômeno seria universal ou meramente brasileiro? Aloísio Pimenta, no artigo supra referido, comenta que seus quatro filhos graduaram-se em universidades norte-americanas e suas formaturas foram atos solenes. Disse ainda o ilustre ex-reitor que a responsabilidade pela banalização do ato de colação de grau recai também sobre a autoridade universitária. “Solenidades de formatura representam uma marca da mais alta importância cívica, ética e, inclusive, legal, para todos que participam destes eventos, do mais alto nível social e cultural”, lembra.

Concordo totalmente com Aloísio Pimenta, mas não acredito que este nosso posicionamento – ou manifestação de inconformismo – seja compartilhado pela maioria da sociedade. Fenômenos sociais merecem variadas leituras e interpretações. Por isso, lanço-me numa incursão para verificar como a Antropologia percebe o fenômeno “rito”.

Mariza Peirano, pesquisando sob a tutela da David Rockfeller Center for Latin American Studies, concluiu que, independentemente do tempo e do lugar, a vida social sempre foi marcada por rituais. Trata-se de uma ilusão pensar que o rito seja um fenômeno do passado e que dele estejamos, hoje, liberados. Rituais são instrumentos válidos, eficazes e eficientes para transmitir valores e conhecimentos. São adequados também para reproduzir as relações sociais. Ritual, na concepção do antropólogo Stanley Tambiah, “é um sistema cultural de comunicação simbólica”. Por isso, quando o rito passa a ser a dessacralização do próprio rito – o anti-rito – o fenômeno sinaliza que caminhamos para uma sociedade sem valores, ou seja, sem uma referência ou discussão sobre como nossa sociedade é ou gostaria de ser.

Perder referências aos valores significa também dizer que não há mais o certo ou o errado; tudo pode. O político pode mentir; o aluno pode colar grau, ainda que nada saiba ou que tenha conseguido terminar seu curso sistematicamente “colando”.

As Faculdades, instituições tradicionalmente havidas como responsáveis pela transmissão do legado cultural da humanidade às novas gerações, ou seja, instrumentos de formação das pessoas como cidadãos aptos à moderna sociedade democrática de direito, capitulam-se diante da difícil tarefa de formar – construir uma pessoa – e se transformam em meros transmissores de informações; informam, mas não formam.

Talvez, quando familiares, convidados, professores e colegas passam a admitir como normal o “carnaval” que se verifica nas “solenidades” de formatura, estejam, também, declarando que: não acreditam em nada relacionado com a finalidade da cerimônia; meu filho, que hoje forma, nada sabe; meu colega, que ora cola grau, passou colando; qualquer um hoje pode obter um diploma, sem nunca ter comprado ou lido um livro didático.

Raramente se nota um efetivo compromisso com o ensinar (formar e transmitir valores) nas escolas de ensino superior. Diretores e coordenadores de cursos, com raras exceções, apresentam-se hoje como simples instrumentos de viabilização do negócio – atividade econômica – em que se tornou o ensino superior. O aluno passou a ser um consumidor – um centro de direitos. O professor transformado num “Sílvio Santos” – aquele que deve agradar a platéia; dar à platéia o que ela quer e não o que ela precisa receber.

Não se pode, entretanto, permitir que essa leitura dos fatos nos mergulhe no mar do pessimismo. Ao contrário, o fato serve de alerta e sinalização à sociedade para envidar esforços no sentido de corrigir estes rumos, sob pena de se “desconstruir” a sociedade democrática de direito que almejamos alcançar.

Jorge Ferreira S. Filho é advogado, Mestre em Direito pela Universidade Gama Filho /RJ e membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família - IBDFAM; Integrante do Instituto dos Advogados de Minas Gerais – IAMG e Secretário Geral da 72ª Subseção da OAB – Seção Minas Gerais.

Richelieu and Olivares

Leitura fascinante! Um estudo biográfico comparativo de dois dos maiores estadistas europeus do século XVII, grandes defensores do Absolutismo Monárquico:

Armand Jean du Plessis, Cardeal Richelieu (1585-1642): primeiro-ministro do rei francês Luís XIII de 1628 a 1642.

Gazpar de Guzmán y Pimentel Ribera Velasco e Tovar, Conde-duque de Olivares (1587-1645): primeiro-ministro do rei espanhol Filipe IV de 1621 a 1643.

It was in their fierce determination to control and reshape the world to their image through every instrument at their disposal, including that of language, that Richelieu and Olivares - in many respects so different - came together as one. But there is something paradoxical about this determination. Living, as Richelieu said, in a corrupt age when men were unwilling to be led by reason; sharing an instinctive pessimism about men and events; aware that some sudden contingency could make the best-laid plans go awry; they fought for power with a tenacity born of the optimistic conviction that they could somehow use it to transform the world. Dangerous men, perhaps, but these were dangerous times. (p.31)

J. H. Elliot, Richelieu and Olivares. NY: Canto edition, 1991.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A queda de José Bonifácio

"(...) podemos vislumbrar o espírito que prevalecia na mente daquele estadista-filósofo, tantas vezes comparado aos founding fathers norte-americanos, nos gloriosos anos de 1821 e 1822, quando os horizontes que se abriam para a construção de um Brasil independente e próspero pareciam vastos e luminosos. As dinâmicas políticas posteriores, no entanto, abortaram todos os seus projetos. Em julho de 1823 ele foi forçado a abandonar o ministério. Em novembro do mesmo ano foi preso e exilado na França, onde permaneceu até 1829. A elite dos grandes proprietários, que constituía a base do poder econômico e político, não estava disposta a acompanhá-lo em seus propósitos de extinguir a escravidão, dividir as propriedades e combater a rotina predatória e lucrativa da monocultura exportadora. Esse foi o motivo profundo da sua queda, muito mais do que os conflitos conjunturais e intrigas políticas em que se envolveu. É verdade que a sua prepotência no exercício do poder, somada à incapacidade para estabelecer acordos e alianças, contribuiu para sua derrota política. Bonifácio era fundamentalmente um intelectual, que tentou exercer o governo com a mesma impetuosidade com que participava dos debates acadêmicos. O seu desprezo por ostentações de riqueza, títulos de nobreza e artificialismos de etiqueta, além disso, provocou desavenças com a elite da monarquia emergente. Mas tudo isso é relativamente secundário diante da ameaça que o seu projeto quase revolucionário de mudança social e ambiental colocava para essa mesma elite". (p. 158)

José Augusto Pádua, Um Sopro de Destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

sábado, 12 de junho de 2010

A Morte

A morte aparece
sem fazer ruído.

Senta-se num canto
fica indiferente
com seu ar de calma
absoluta.
Mira longamente
o quarto o retrato
a cama os remédios
postos entre os livros
sobre a mesa escura.

Depois se levanta
sem nenhuma pressa
sem impaciência
retorna ao seu mundo
a morte, de gestos
claros e serenos.

H. Dobal (1927-)

Imagem: "O Leito da Morte", de Edvard Munch

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Liderança não é gerência

Gosto de começar meus seminários de liderança com a seguinte declaração: "Sempre parto do pressuposto que todos vocês são excelentes gerentes, possuem uma sólida competência técnica e são eficientes na realização de suas tarefas. Por isso, antes mesmo de começarmos, vou dar nota dez em habilidades gerenciais para cada um de vocês. Tudo indica que vocês possuem todas as chances de assumir posições de liderança. Mas, se virem até aqui para ouvir sugestões para serem gerentes melhores, devo dizer que estão na sala errada. Nós estamos aqui para falar sobre liderança, não sobre gerência".

Planejamento, orçamento, organização, solução de problemas, controle, manutenção da ordem, desenvolvimento de estratégias e várias outras coisas - gerência é o que fazemos, liderança é quem somos.

Conheço ótimos gerentes que naufragaram quando se viram diante da tarefa de liderar pessoas, inspirando-as a fazerem grandes coisas. O inverso é verdadeiro. Muitos líderes eficientes são gerentes sofríveis, como o provam Winston Churchill, Franklin Delano Roosevelt e Ronald Reagan. Eles não entraram para a história por serem considerados "bons gerentes".

O estilo que caracteriza o "bom gerente" é, em geral, autoritário e centralizador. Sim, muitos acreditam erroneamente que um gerente eficiente deve ter todas as respostas, resolver todos os problemas e, acima de tudo, manter o controle.

Quando recebem algum treinamento de liderança, o foco é sempre voltado para o lado operacional. Ou seja: tem o objetivo de tornar as pessoas capazes de administrar coisas, não o de fazer com que liderem e inspirem as outras à ação.

As habilidades técnicas orientadas para o resultado que levaram muitos gerentes a posições de liderança não são exatamente as melhores ferramentas para inspirar os outros a fazerem um bom trabalho.

Liderar significa conquistar as pessoas, envolvê-las de forma que colquem seu coração, mente, espírito, criatividade e excelência a serviço de um objetivo. É preciso fazer com que se empenhem ao máximo na missão, dando tudo pela equipe.

Você não gerencia pessoas. Você lidera pessoas. (p. 19-20)

(...)

Quando se está numa posição de liderança, a medida do sucesso muda. Os esforços realizados para agir da forma certa, os depósitos em contas bancárias emocionais, o empenho em ensinar, treinar e estimular as pessoas - tudo isso pode demorar a dar frutos.

Essa é uma situação que pode ser muito frustrante para quem está acostumado a ter uma gratificação imediata, com direito a resultados quantificáveis no final do dia. (p. 36).

(...)

Minha mãe podia me pedir para fazer qualquer coisa, e eu não pensava duas vezes a respeito. Lembro que ela não tinha mais poder algum sobre mim - eu podia correr mais depressa do que ela, agora que era adulto. Mas mamãe tinha muita autoridade. De onde ela tirou sua autoridade? Que seminário sobre habilidades de supervisão ela cursou? A verdade é que mamãe sempre serviu. Eu faria qualquer coisa por ela. (p.38).

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Poder é a capacidade de obrigar, por causa de sua posição ou força, os outros a obedecerem à sua vontade, mesmo que eles preferissem não fazê-lo. Weber, em sua definição básica de poder, diria: "Faça isso, senão vai ver!"

O raciocínio é o seguinte: se eu tenho a habilidade de derrotá-lo, bombardeá-lo, espancá-lo ou despedi-lo, posso forçá-lo a obedecer à minha vontade.

Autoridade é muito diferente de poder, já que ela envolve a habilidade de levar os outros a fazerem - de bom grado - sua vontade. Na visão de Weber, a definição de autoridade seria: "Farei isso por você".

Outra maneira de observar a diferença entre autoridade e poder é a seguinte: O poder pode ser comprado e vendido, dado e tirado. Ou seja: laços de parentesco ou amizade realmente conseguem colocar uma pessoa numa posição de poder, mas isso já não acontece com a autoridade - ela é a essência da pessoa, está ligada a seu caráter. (p.32).

James C. Hunter, Como se tornar um líder servidor: os princípios de liderança de O Monge e o Executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.