sexta-feira, 24 de abril de 2015

O dentro de tudo



"Andava de mãos na barriga. Queria o meu filho. Carregava-o com cada pensamento. Não correria risco algum de o perder. Explicaram-me que, naquela idade quase nenhuma, a possibilidade de perder um filho era muito comum. O esqueleto da mãe podia partir-se. Podia vergar como as velhas que apodreciam as rodinhas da coluna. Podia vomitar o filho como um troço de carneiro que não fora capaz de digerir. Era tão criança que me dava susto pensar que com um sopro o corpo se me esvaziaria da gravidez. Como se eu não fosse um ovo, com se fosse apenas um balão. Dava-me medo pensar que a alma dele escapasse no exercício de respirar. Tinha um filho tão novo na barriga que talvez o seu conteúdo fosse ainda indeciso. Dividido entre completar-se ou desistir. E eu levava sempre as mãos à barriga e adorava sentir aquele peso e sentir-me pesada, e esperava todos os ínfimos sinais de movimento. Vivia ansiosa. Ansiava pelo meu filho como quem fizesse o próprio mundo nascer. Depois que nascesse, ele ocuparia o lugar inteiro do mundo. Seria o tamanho inteiro de cada coisa e tudo se justificaria pela sua existência. Pensei: será o dentro de tudo."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 69

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