
Então leu o poema. Era simplesmente uma beleza. Misturava palavrões com as maiores delicadezas. Oh Cláudio - tinha eu vontade de gritar - nós todos somos fracassados, nós todos vamos morrer um dia! Quem? mas quem pode dizer com sinceridade que se realizou na vida? O sucesso é uma mentira.
(...)
Fiquei fumando. Meu cachorro no escuro me olhava.
Isso foi ontem, sábado. Hoje é domingo, 12 de maio, Dia das mães. Como é que posso ser mãe para este homem? pergunto-me e não há resposta.
Não há resposta para nada.
Fui me deitar. Eu tinha morrido.
Clarice Lispector, A Via Crucis do corpo (1974). Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 38 e 40.
Nenhum comentário:
Postar um comentário