Li recentemente, numa sequência, três livros que me ajudaram a entender melhor a noção limitada que grande parte dos brasileiros tem hoje sobre a democracia. De certa forma, os três autores confirmam a célebre afirmação de Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil (1936): "A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido" (p. 160).Os livros Brasil: de Getúlio a Castelo, de Thomas Skidmore (1967), Os Senhores das Gerais: os 'Novos Inconfidentes' e o Golpe de 1964, de Heloísa Maria Murgel Starling (1986), e Partido e Sociedade: a Trajetória do MDB, de Rodrigo Patto Sá Motta (1993), mostram como predominou no Brasil, desde a década de 1940, uma noção de democracia focada quase exclusivamente no direito ao voto, muitas vezes manipulado pelos meios de comunicação, pelo clientelismo (explícito ou disfarçado) e pelos famosos conchavos políticos de bastidores.
Nos anos 60, 70 e 80, muitos cidadãos brasileiros se levantaram a favor de uma democracia autêntica, baseada numa participação efetiva da sociedade no espaço público, e até hoje, sobretudo nos grandes centros, suas vozes ecoam contra uma cultura política tradicionalista, que impede a formação e a entrada na arena política de uma sociedade organizada, bem informada e crítica.
Por que a Educação no Brasil é tão elitizada? Por que o ensino básico público no Brasil é, na maioria das vezes, de má qualidade? Onde estudam, na sua cidade, os filhos da elite?
O fato é que a crise da Educação no Brasil tem atingido também as escolas particulares, sobretudo no interior, pois encontrar bons professores, com boa formação, que saibam se expressar bem e se posicionar de forma crítica e reflexiva diante dos problemas enfrentados pela sociedade - criando assim um diferencial no ensino privado -, é mais difícil do que achar uma agulha no palheiro. Nas capitais, essa diferenciação injusta e vergonhosa entre um ensino básico público ruim e um ensino básico privado de qualidade permite que a maioria das vagas nas universidades federais - ainda consideradas centros de excelência em educação superior -, sobretudo naqueles cursos que oferecem maiores oportunidades de ascensão social, quais sejam Direito, Medicina, Odontologia etc, sejam preenchidas, em sua maior parte, por alunos que frequentaram escolas particulares.
Assim fica fácil manter a maioria da população desorganizada politicamente, pouco consciente de seus direitos e deveres de cidadão, incapaz de perceber a diferença entre o clientelismo personalista, baseado numa política de favores, e a democracia autêntica, baseada na participação efetiva de uma sociedade organizada, crítica e consciente da importância do seu papel na defesa da coisa pública.
Flávio Marcus da Silva

1 comentários:
Estamos em meio a um ciclo vicioso, creio eu: a desinformação dificulta a tomada de postura, por parte da população, no que diz respeito a abrir canais de participação democrática. E a inexistência de uma democracia de fato no país afasta a possibilidade de democratização da informação, dificutando assim, que se forme no nosso país, consciencias críticas e problematizadoras.
"Quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?"
Vivi
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