sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Considerações à hora do jantar

Manoel: Isso lá é vida? Trabalhar o dia inteiro, chegar em casa, jantar e assistir televisão. Ah, se não fosse o faroeste... Chego aqui caindo aos pedaços, janto um arroz com feijão que vejo há quase vinte anos e ainda tenho de ouvir as reclamações dessas duas como se eu fosse Deus e pudesse melhorar a vida delas. Humpf... não consigo melhorar nem a minha... Se pudesse, começava caindo fora daquele emprego de merda, que só me enche o saco. O dia todo vendo o torno cuspir peças, uma atrás da outra, que só servem para enriquecer “seu” Armando e deixar alguns parvos contentes. E não é que os palhaços ainda saem da fábrica contando piadas e rindo? Como conseguem?

Isabel: Pela cara do Manoel já posso adivinhar que teve um dia de cachorro. Mais um, para variar. Quem vive há tanto tempo com um homem percebe até nos mínimos gestos quando as coisas não vão bem. Como agora: do jeito que ele fica empurrando o feijão e o arroz, pra lá e pra cá, já sei que está de cabeça quente. Nem vou perguntar; melhor deixar do jeito que está.

Neusinha: Ah, se eu pudesse cair fora desta casa, morar sozinha... Mas quem é que vai meter na cabeça dessas duas múmias a idéia de eu viver por minha conta? Se eu falasse nisso, o velho ia me encher de porrada, “filha a gente cria pra arranjar um bom marido e constituir família”, e estufa o peito quando diz isso. Está crente que é o dono da verdade, que mulher é pra prendas domésticas. Que nem a burra dessa daí. Nasce, cresce, quando pensa que tá virando gente vem um pé-rapado qualquer e com uma boa conversa ganha a idiota. Aí casa e entra pra lista das donas-de-casa. Donas de quê? Essa daí só tem de seu a dureza dessa vida besta.

Isabel: Mas tem suas vantagens. Quando está assim é sinal que não irá me procurar, de noite. Ainda bem, porque estou morta de tanto trabalhar como uma mula de carga. Não é brincadeira, mas parece que lavei a roupa de um batalhão inteiro. E somos só nós três; nunca vi gente pra sujar roupa como esses aí. Se ao menos a Neuzinha me ajudasse... Mas, agora, com esse negócio de trabalhar fora... Quer ser independente. Ela ainda vai ver essa independência se acabando num tanque cheio de roupas e limpando merda de nenê. Bem, ao menos ainda ajuda um pouco nas despesas e tem um dinheirinho de seu, pra gastar. E eu? Até que gostaria de ganhar algum, mas se falasse em trabalhar fora, esse animal me cobriria de pancada. Nem sei como ele deixou a Neuzinha...

Manoel: Olha só essas duas. Caladas como dois postes. Mulher é assim mesmo. Sabe Deus o que conversam quando estão só elas. Corto o meu saco se a Isabel já não fez a cabeça da Neuzinha a meu respeito. Deve ter falado pra ela que o pai só anda de mau humor, não dá dinheiro em casa... É verdade que esse dinheirinho não é lá grande coisa, mas é suado, é honesto e bem ou mal, vamos vivendo. Será que preferiam que eu fosse como aqueles mandriões do bar? Todas as tardes dizendo “como é, Mané? Que tal uma sinuca? Chega aí pra uma cervejinha”. O que eu ganho vindo direto pra casa, é isso: carrancas. E uma cerveja, que é bom, só aos domingos e olhe lá. Ah, se um dia eu ganhasse na loteria, virava tudo de pernas pro ar. Essa história de que dinheiro não traz felicidade é consolo daqueles que erraram a loteria por um número.

Isabel: Que posso fazer? Pra comprar um vestidinho nas Pernambucanas tenho de ficar alisando essa besta por um mês, pegar de bom humor. Do contrário, é aquela cantilena: “vestido novo, pra quê? A gente nunca vai a lugar nenhum...”

Neusinha: Comigo vai ser diferente. Posso até demorar pra sair daqui, mas quando sair, vai ser em grande estilo. O cara vai ter de ser rico, bonito. O amor vem depois, com o tempo. Eu sei como são essas coisas...

Isabel: Paciência, Isabel. Não era você quem estava louca pra casar? Se soubesse... O Manoel até que é um bom sujeito, às vezes. Mas, qual é a mulher que quer um bom marido “às vezes”? Quando ele não é, só Deus sabe o que tenho de agüentar. Pior é que não tenho nem com quem desabafar. A Neuzinha é uma alienada. Quando não está naquele escritorinho de contabilidade, passa o tempo lendo essas ridículas fotonovelas. Nem de escola quer saber. Não dá mesmo pra conversar. E depois, ainda ia piorar mais as coisas, ficar contra o pai, coisa e tal. Paciência, paciência...

Manoel: Amanhã, vou ter uma conversa com o “seu” Armando. Ele tem de entender que precisa dar uma melhorada no meu ordenado. Com esse papo de livre negociação, o cacete, acho que está é me enrolando. E a situação aqui em casa, cada vez mais preta. A Isabel só chora, pedindo dinheiro pra fazer a feira. A incompetente da Neuzinha pensa que recebo rios de dinheiro. Ainda bem que arranjou esse emprego e está pesando menos no bolso. Mesmo assim, as coisas não estão boas, não.

Isabel: Espero que a água volte logo. Lavar essa pilha de louça, no balde, é um tormento. Por que essa porcaria de água não acabou antes de eu ter lavado a roupa? Pelo menos não estaria neste bagaço. Pobre, nem nisso dá sorte.

Neusinha: Que dia... Como se não bastasse ter de agüentar aquele papo cretino das meninas, chego em casa e encontro esse clima de velório. Pior que depois disso a gente ainda tem de aturar o Jornal. Se ao menos depois desse pra assistir a novela... O diabo é que o velho não perde a sessão bang-bang, nem que a vaca tussa. Que pobreza, meu Deus! Casa com uma televisão só, não dá. Na minha, eu vou ter TV até no banheiro.

Manoel: Há quanto tempo não tomo um vinho? Sorte que de vez em quando vamos pra casa dos pais dela. O velho Nogueira, malandrão, é que sabe viver a vida. Só toma Chatô Duvaliê. Pelo menos ele não é regulado. Faz questão que eu acompanhe em cada copo. Quem sou eu pra rejeitar? Por outro lado, o maldito não nega a raça; está sempre a tirar uma casquinha comigo: “Manoel, Manoel, tu não sabes aproveitar a vida. Precisas viajar. Não tens saudade da terrinha?” O filho da puta sabe muito bem que ganho uma merda de salário e vem com essa conversa pra cima de mim, só pra me humilhar. Se eu fosse como ele, que enriqueceu explorando aqueles cortiços, estaria bem melhor agora. Deixa estar. Quem mandou ele me dar a filha única? O dia que aquele diabo bater as botas, ponho as mãos naquele dinheirão todo. Mas, azarado como sou, é capaz que eu vá antes daquele aldrabão.

Isabel: Já vi esse sorriso na cara do Manoel outras vezes e nunca, esses anos todos, consegui saber em que estava pensando. De uma coisa tenho certeza: não é por causa da comida; mesmo comendo como um morto de fome, posso esperar sentada por um elogio dele.

Manoel: Coitada da Isabel. Eu nunca elogio sua comida. E olha que este picadinho está uma delícia. Uma delícia mesmo!

Isabel: Que nojo!...

Neusinha: Parece um porco...


Carlos Bruni