"Um elixir cultural para almas sequiosas, este blog: literatura, cinema, história-estória... Uma seleção realizada com tanto esmero e bom gosto que já tornou-se vital a ingestão de goles diários desta rica tela".
Comentário ao Post Ventre Feroz
Junto à ponte do ribeirão Meninos brincam nus dentro da água faiscante. O sol brilha nos corpos molhados, Cobertos de escamas líquidas.
Da igreja velha, no alto do morro, O sino manda lentamente um dobre fúnebre.
Na esquina da cadeia desemboca o enterro. O caixão negro, listado de amarelo, Pende dos braços de quatro homens de preto. Vêm a passo cadenciado os amigos, seguindo, O chapéu na mão, a cabeça baixa. As botas rústicas, no completo silêncio, Fazem na areia do chão o áspero rumor de vidro [ moído.
O sino dobra vagaroso: dobre triste Na tarde clara que dá pena de morrer.
Cheios do inexplicável respeito pela morte Os meninos correram para baixo da ponte, Como se a sua nudez pura pudesse ofender a [ morte.
Vai agora subindo o morro do cemitério O caixão negro listado de ouro. Já não se vê mais, desapareceu atrás do mato.
E na água fugitiva do ribeirão Os corpos nus cambalhoteiam de novo Com o sentimento espontâneo e invencível da [ vida.
As crianças moravam em apart-hotéis. Primeiro, apart-berçário, depois apart-escolas, até chegar no apart-singles, não sem antes passar pelos apart-quartéis.
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...