<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784</id><updated>2012-02-16T07:20:06.456-08:00</updated><category term='Jack Kerouac'/><category term='Francês'/><category term='MEUS ESCRITOS'/><category term='Charles Bukowski'/><category term='Cummings'/><category term='Florbela'/><category term='Velhice'/><category term='Pessoa'/><category term='Rubem Alves'/><category term='Whitman'/><category term='Filmes'/><category term='Escrever'/><category term='Stephen Crane'/><category term='Vídeos'/><category term='Allen Ginsberg'/><category term='Gustavo Corção'/><category term='Vinicius de Moraes'/><category term='Lisboa'/><category term='Meu diário 1999-2001'/><category term='Amor'/><category term='Café'/><category term='Morte'/><category term='Adélia Prado'/><category term='Mário Quintana'/><category term='Rubem Fonseca'/><category term='Rubem Braga'/><category term='História'/><category term='Mulheres extraordinárias'/><category term='Espiritismo'/><category term='Clarice Lispector'/><category term='Poemas'/><category term='Drummond'/><category term='Espanhol'/><category term='Psicologia etc'/><category term='Águas escuras'/><category term='Baudelaire'/><category term='Inglês'/><category term='Ler'/><category term='Martha Medeiros'/><category term='Manoel de Barros'/><category term='O Lobo da Estepe'/><category term='Nelson Rodrigues'/><category term='Músicas'/><title type='text'>Oficina de Histórias</title><subtitle type='html'>"Um elixir cultural para almas sequiosas, este blog: literatura, cinema, história-estória... Uma seleção realizada com tanto esmero e bom gosto que já tornou-se vital a ingestão de goles diários desta rica tela".

Comentário ao Post Ventre Feroz</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>477</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1196678216134249957</id><published>2012-02-15T19:13:00.004-08:00</published><updated>2012-02-15T19:46:12.884-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A paixão segundo G.H.</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-4zoRPKxcQ3Q/Tzx1M6TWcvI/AAAAAAAABro/YmI6jJLjQZc/s1600/gh.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 212px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-4zoRPKxcQ3Q/Tzx1M6TWcvI/AAAAAAAABro/YmI6jJLjQZc/s320/gh.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5709567292268245746" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas estou tão pouco preparada para entender. Mas como faço agora? Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa - a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes - então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdoa eu te dar isto, mão que seguro, mas é que não quero isto para mim! Toma essa barata, não quero o que vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali estava eu boquiaberta e ofendida e recuada – diante do ser empoeirado que me olhava. Toma o que eu vi: pois o que eu via com um constrangimento tão penoso e tão espantado e tão inocente, o que eu via era a vida me olhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como chamar de outro modo aquilo horrível e cru, matéria-prima e plasma seco, que ali estava, enquanto eu recuava para dentro de mim em náusea seca, eu caindo séculos e séculos dentro de uma lama – era lama, e nem sequer lama já seca mas lama ainda úmida e ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as raízes de minha identidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toma, toma tudo isso para ti, eu não quero ser uma pessoa viva! Tenho nojo e maravilhamento por mim, lama grossa lentamente brotando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era isso – era isso então. É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda. Em derrocada difícil, abriam-se dentro de mim passagens duras e estreitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei-a, à barata: eu a odiava tanto que passava para o seu lado, solidária com ela, pois não suportaria ficar sozinha com minha agressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de repente gemi alto, dessa vez ouvi meu gemido. É que como um pus subia à minha tona a minha mais verdadeira consistência – e eu sentia com susto e nojo que "eu ser" vinha de uma fonte muito anterior à humana e, com horror, muito maior que a humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abria-se em mim, com uma lentidão de portas de pedra, abria-se em mim a larga vida do silêncio, a mesma que estava no sol parado, a mesma que estava na barata imobilizada. E que seria a mesma em mim! Se eu tivesse coragem de abandonar... de abandonar meus sentimentos? Se eu tivesse coragem de abandonar a esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segura a minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina, estou indo para um inferno de vida crua. Não me deixes ver porque estou perto de ver o núcleo da vida – e, através da barata que mesmo agora revejo, através dessa amostra de calmo horror vivo, tenho medo de que nesse núcleo eu não saiba mais o que é esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A barata é pura sedução. Cílios, cílios pestanejando que chamam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também eu, que aos poucos estava me reduzindo ao que em mim era irredutível, também eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu protozoária, proteína pura. Segura minha mão, cheguei ao irredutível com a fatalidade de um dobre – sinto que tudo isso é antigo e amplo, sinto no hieróglifo da barata lenta a grafia do Extremo Oriente. E neste deserto de grandes seduções, as criaturas: eu e a barata viva. A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz. Aquele quarto que estava deserto e por isso primariamente vivo. Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e úmido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A paixão segundo G.H.&lt;/span&gt; (1964)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1196678216134249957?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1196678216134249957/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1196678216134249957' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1196678216134249957'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1196678216134249957'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2012/02/paixao-segundo-gh.html' title='A paixão segundo G.H.'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-4zoRPKxcQ3Q/Tzx1M6TWcvI/AAAAAAAABro/YmI6jJLjQZc/s72-c/gh.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5280525656668597149</id><published>2012-01-29T13:19:00.000-08:00</published><updated>2012-02-07T17:42:12.477-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Psicologia etc'/><title type='text'>O despotismo do bom senso</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-aVioOwoJxrg/TyW-A5hDauI/AAAAAAAABqY/ByPOLlFJlR4/s1600/lucio%2Bcardoso.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 231px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-aVioOwoJxrg/TyW-A5hDauI/AAAAAAAABqY/ByPOLlFJlR4/s320/lucio%2Bcardoso.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5703173425783335650" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Abro "O Idiota", de Dostoiewski, que tanto me deslumbrou outrora. Insensivelmente uma pergunta me vem ao pensamento: que é o senso, o bom senso? A capacidade de se adaptar ao nível comum em que todos vivem. Neste caso, os que não podem, os que possuem arestas que não se adaptam às engrenagens da realidade comum, serão loucos simplesmente? Ou há um nome especial para esta exaltação, este sentimento de impotência e ao mesmo tempo de plenitude?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Ah, como sinto, como vejo, como percebo a ausência de Jesus Cristo - o nome assim atirado fere a página, estremece, lacera a terra morna do hábito, acostumada à visão materialista das coisas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espírito cristão é exatamente a loucura, a falta de senso. Ao longo do tempo, como vimos perdendo suas linhas essenciais, seus ensinamentos, sua própria figura!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi Ele, não há dúvida, foi Jesus Cristo quem mais se insurgiu contra a dura tirania da realidade, o despotismo do bom senso e da complicada maquinaria dos fatos comuns. Penso um minuto, rapidamente, no sistema burocrata tão pateticamente denunciado por Kafka, através dos seus funcionários, juízes, escriturários: há nele uma espantosa imagem do inferno. O funcionalismo público, com suas redes de controle e seu sistema de mecanização, é uma das mais perfeitas invenções do diabo. Que louve, quem quiser louvar, esta mentira trágica do poeta funcionário: este monstro esvaziado de sua verdadeira essência é a última invenção de Satanás para planificar o mundo e reduzir-lhe o espírito poético. O poeta funcionário é um escárnio só admissível no mundo aterrorizante de hoje, é o toque final do diagrama da decomposição, o fêcho, o cimo da obra de abastardamento e de diminuição dos valores maiores que a nossa época assiste sem defesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esse processo de eleição de valores que nos trucidam e que nos matam é que esquecemos a doença que o Cristo representa, seu perpétuo embate contra o sono e as forças passivas do senso comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcio Cardoso, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Diário I&lt;/span&gt; (1949-1951). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Editora Elos: Rio de Janeiro, p. 198-9.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5280525656668597149?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5280525656668597149/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5280525656668597149' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5280525656668597149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5280525656668597149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2012/01/o-despotismo-do-bom-senso.html' title='O despotismo do bom senso'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-aVioOwoJxrg/TyW-A5hDauI/AAAAAAAABqY/ByPOLlFJlR4/s72-c/lucio%2Bcardoso.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-354479039692850150</id><published>2012-01-27T06:55:00.000-08:00</published><updated>2012-01-27T07:06:46.178-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Músicas'/><title type='text'>Concerto de Brandenburgo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-eqKKiktvF_o/TyK8PAgapZI/AAAAAAAABqM/SahDp-ffUVg/s1600/bach.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 280px; height: 280px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-eqKKiktvF_o/TyK8PAgapZI/AAAAAAAABqM/SahDp-ffUVg/s320/bach.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5702327044224492946" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=gNXaJKdr7yk"&gt;Concerto de Brandenburgo n. 2, 1º movimento, de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Maestro: Claudio Abbado&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-354479039692850150?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/354479039692850150/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=354479039692850150' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/354479039692850150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/354479039692850150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2012/01/concerto-de-brandenburgo.html' title='Concerto de Brandenburgo'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-eqKKiktvF_o/TyK8PAgapZI/AAAAAAAABqM/SahDp-ffUVg/s72-c/bach.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-558602105118816133</id><published>2012-01-27T03:14:00.000-08:00</published><updated>2012-01-27T03:17:47.697-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Músicas'/><title type='text'>Nina Simone</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-GJM9EeCN1rM/TyKHk9WkvZI/AAAAAAAABqA/SYNNoiT35Pc/s1600/nina.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 300px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-GJM9EeCN1rM/TyKHk9WkvZI/AAAAAAAABqA/SYNNoiT35Pc/s320/nina.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5702269147218754962" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=DFVAoIU8vTM&amp;amp;feature=related"&gt;Tomorrow is my turn&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-558602105118816133?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/558602105118816133/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=558602105118816133' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/558602105118816133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/558602105118816133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2012/01/nina-simone.html' title='Nina Simone'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-GJM9EeCN1rM/TyKHk9WkvZI/AAAAAAAABqA/SYNNoiT35Pc/s72-c/nina.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-6428788047937727475</id><published>2012-01-27T03:09:00.000-08:00</published><updated>2012-01-27T03:17:47.698-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Músicas'/><title type='text'>The Shins</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-63WFHd5dXTA/TyKGh-T2PwI/AAAAAAAABp0/-WIKEAiXH2c/s1600/shinswood.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 212px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-63WFHd5dXTA/TyKGh-T2PwI/AAAAAAAABp0/-WIKEAiXH2c/s320/shinswood.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5702267996424519426" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=OHTSxw6zN1E&amp;amp;ob=av2e"&gt;Australia&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=XBt1UvuQqHw&amp;amp;feature=related"&gt;Australia (live)&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-6428788047937727475?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/6428788047937727475/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=6428788047937727475' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/6428788047937727475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/6428788047937727475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2012/01/australia-shins.html' title='The Shins'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-63WFHd5dXTA/TyKGh-T2PwI/AAAAAAAABp0/-WIKEAiXH2c/s72-c/shinswood.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1692487552195530684</id><published>2012-01-22T05:06:00.000-08:00</published><updated>2012-01-22T12:34:25.578-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Partir</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-kWiKNaGlIvg/TxwL8PWgkjI/AAAAAAAABpg/EgKEDSCXEVQ/s1600/guillotine.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-kWiKNaGlIvg/TxwL8PWgkjI/AAAAAAAABpg/EgKEDSCXEVQ/s320/guillotine.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700444357885202994" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O jovem Pierre acordou às três da madrugada, todo molhado de suor, apesar do frio intenso que invadia o seu quarto pelas frestas da janela em rajadas de vento e neve.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enrolou-se num pesado casaco de lã e foi alimentar o fogo na lareira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às quatro horas ele daria início à limpeza do cadafalso, pois antes mesmo do nascer do sol haveria uma nova execução, seguida de outras trinta, naquele dia sombrio de inverno do ano de 1793, em Paris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esfregou vagarosamente as mãos sobre o fogo que ardia e estalava num dos cantos do quarto, pensando nas expressões de espanto, desespero, ódio, angústia, medo e também de indiferença e resignação que tantas vezes ele vira nos rostos dos condenados minutos antes da lâmina da guilhotina cortar fora as suas cabeças. Algumas rodopiavam no ar antes de cair na cesta de vime que ficava no chão, próximo ao patíbulo. Outras, maiores, mais redondas e gordas, caíam como jacas maduras ou pesados queijos Roquefort, sem muita acrobacia, produzindo, ao atingir o fundo da cesta, um baque só um pouco mais audível que o de uma cabeça menor. Outras, porém, devido ao formato do crânio e da face, ou talvez em decorrência de uma contração muscular mais forte no pescoço do condenado, além de rodopiarem várias vezes no ar, saltavam dos troncos com tanta força, que caíam fora da cesta até dois ou três metros adiante, para delírio da multidão que se aglomerava ao redor da guilhotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que pensavam os infelizes naquela hora? O que passava pelas suas cabeças nos segundos que antecediam a decapitação? O que eles sentiam no momento em que a lâmina ceifava a carne e os ossos dos seus pescoços? E no segundo seguinte, quando a cabeça, já separada do tronco, caía ao chão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tenho que ir”, disse para si mesmo o jovem Pierre, enquanto comia um pedaço de queijo e se dirigia à saída, espantando com o pé esquerdo uma enorme ratazana que seguia lentamente pelo corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora o frio era cortante, mas Pierre estava bem agasalhado; e também aquele não era o seu primeiro inverno como trabalhador pobre nas madrugadas escuras e geladas de Paris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele chegou à praça onde se erguia o cadafalso, o vento soprava preguiçosamente alguns pequenos flocos de neve, castigando-lhe a face desprotegida, que ardia e queimava de frio. Havia neve depositada no chão de terra batida, mas não em quantidade suficiente para esconder as marcas de sangue deixadas por algumas cabeças que tinham sido lançadas ao solo, como balas de canhão, no dia anterior. A lâmina encontrava-se também com manchas e respingos escuros de sangue coagulado e congelado, assim como a parte do estrado que ficava próxima ao local de decapitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu trabalho era limpar tudo aquilo até a chegada da carroça que traria o primeiro condenado do dia, juntamente com uma multidão de curiosos, que se deliciava com cada espetáculo do Terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou a limpeza pela lâmina, que ele esfregou com força até que todos os resíduos de sangue desaparecessem, tomando muito cuidado para conservar intactos os seus dedos que, mesmo enluvados, tremiam de frio. Depois começou a esfregar o chão do estrado, cujas manchas resistiam mais à escova e ao sabão. Mas foi interrompido pela chegada de um amigo, que subiu a escada sorrindo, meio cambaleante, como se acabasse de sair de uma festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Olá, Pierre", disse o amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olá, Henri!”, respondeu Pierre, levantando-se lentamente e afastando com o pé o balde e a escova para o amigo passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pierre, meu caro... Não tenho muito tempo para você hoje. Aliás, em breve não terei tempo para mais nada. Só vim para te esclarecer uma dúvida que, na última vez que nos encontramos, neste mesmo cadafalso, você começou a me explicar, mas não terminou, porque fomos interrompidos pela chegada da carroça, lembra?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro que me lembro!”, disse Pierre empolgado, com os olhos pregados no rosto pálido do amigo, que perguntou: “E então?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em resposta, Pierre reformulou a sua dúvida: “Naquele dia, o que eu queria saber era se a cabeça, separada do tronco, logo após o encontro da lâmina com o pescoço, tem consciência de que ela se encontra decapitada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Henri passou a mão direita em seu pescoço nu, seguindo com os dedos o contorno de uma linha avermelhada e grossa que o rodeava como um cordão apertado, e respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como eu mantive os olhos abertos, pude ver uma parte do estrado e também a cesta de vime, que ficava ali embaixo. Ouvi as pessoas gritando e também o assobio da lâmina que descia veloz. Naquele momento, a única imagem que me veio à mente foi a do meu filho de dois anos correndo e brincando no pátio da nossa casa, feliz, enquanto eu lia um livro de M. de Voltaire. Mas quando a lâmina separou minha cabeça do tronco, no exato momento do corte, tanto a imagem reconfortante da memória quanto a da terrível realidade desapareceram, para no mesmo instante darem lugar a um turbilhão de imagens confusas, mas que eu pude identificar como sendo o céu, o sol, as pessoas, os prédios, o chão, tudo em movimento, girando, girando velozmente, até eu ver, numa espécie de fixidez instável – como se eu estivesse bêbado –, os pés de uma enorme multidão”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas e depois?”, perguntou Pierre, os olhos brilhando de curiosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Depois, no instante seguinte, eu vi uma luz, uma luz branca que brilhava intensamente à minha frente, e eu estava de pé, com a cabeça de volta ao tronco, sem dor, sem medo, sentindo uma espécie de chamado, um chamado silencioso, vindo da luz. Mas eu não queria entrar. Eu lutei, desvencilhei-me daquele campo de forças com determinação... gritei que não, que não... E aqui estou eu: um morto que vaga pela cidade, e que é visto por alguns, como você, que possuem um dom especial que eu ainda não sei explicar...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Henri fez uma breve pausa, enquanto olhava o vazio, e continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas como eu disse, não dá mais para ficar. Vou me entregar. Eles já me procuram, me cercam, tentam uma aproximação... Vou me entregar, Pierre... vou partir, como muitos outros partiram... Partir...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois amigos se olharam, preparando-se para um abraço fraterno, quando, de repente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A carroça”, disse Pierre, levantando os olhos em direção à avenida. No segundo seguinte, voltando-se novamente para o amigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Henri...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele já tinha partido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1692487552195530684?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1692487552195530684/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1692487552195530684' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1692487552195530684'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1692487552195530684'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2012/01/o-jovem-pierre-acordou-as-tres-da.html' title='Partir'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-kWiKNaGlIvg/TxwL8PWgkjI/AAAAAAAABpg/EgKEDSCXEVQ/s72-c/guillotine.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-3494226109003870362</id><published>2012-01-04T06:03:00.000-08:00</published><updated>2012-01-04T06:07:30.917-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Pombos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-EbfMPqtM-vY/TwRcs4NiKvI/AAAAAAAABpQ/DenmUflK3Ps/s1600/pombos.jpeg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 239px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-EbfMPqtM-vY/TwRcs4NiKvI/AAAAAAAABpQ/DenmUflK3Ps/s320/pombos.jpeg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5693777754976299762" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Numa ensolarada tarde de sábado, quando voltavam de um passeio pelo bairro, o jovem professor e sua esposa viram dois pombos cinzentos se esfregando no telhado de sua nova residência, bem em cima da garagem. Naquele dia, o jovem casal não percebeu a dimensão hitchcockiana do problema que em breve eles teriam que enfrentar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Dois pombinhos de namorico no telhado de uma casa. Que problema há nisso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concordo que pode até ser agradável receber de vez em quando a visita de uma dessas aves em casa, ou talvez até tê-la como hóspede definitivo em algum canto do telhado, onde ela pode fazer seu ninho e viver em paz com seus filhotes. (Algumas são até muito bonitas, com suas plumagens em tons brilhantes de cinza, preto e verde). Se fosse só isso – e para corrigir o exagero que eu cometi acima ao empregar a palavra “agradável” – eu diria que seria até suportável. Mas quando o substantivo é “pombo’, não há na sintaxe do discurso que lhe serve nenhum espaço para o advérbio “poucos”. Não existe UM pombo em nenhum telhado do mundo. Se há pombos no seu ou em qualquer outro telhado, eles são muitos, dezenas, centenas, e se reproduzem como ratos, e comem e cagam e fedem como ratos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que isso nem sequer passou pela cabeça dos dois novos moradores do bairro, pois ao entrarem pelo portão e notarem os dois pombinhos num dos cantos do telhado, eles apenas sorriram um para o outro e entraram na casa, como se flutuassem no ar. E quem tivesse testemunhado de perto aqueles sorrisos e soubesse ler o que se escondia por trás deles, certamente entenderia o motivo da pouca importância que os recém-chegados deram à presença ameaçadora de um casal de pombos em seu telhado – uma imagem que, para ambos, naquele momento, significou o prenúncio do que eles próprios planejavam fazer na cama logo em seguida: dois pombinhos recém-casados, sem filhos e com menos de trinta anos, quando chegam em casa e têm como recepção dois outros pombinhos em plena Lua de Mel só podem pensar mesmo em se empoleirarem na cama e mandarem ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso não posso afirmar que o motivo deles não terem estranhado aquela presença alada no telhado, nem tampouco olhado um para o outro com aquele olhar característico de “problema à vista”, fosse a ignorância pura e simples. O mais provável é que, naquele momento, ambos tenham sido desviados da razão pelos hormônios do desejo, que, no início de qualquer casamento convencional, permitem até associações de imagens românticas – óbvias demais, temos que concordar –, como aquelas: um casal de pombos namorando no telhado // um ninho de amor à espera de dois jovens apaixonados, encantados com o início do casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tarde seguinte, porém, a associação de imagens foi outra. (Se é que podemos chamá-la de associação de imagens. Talvez melhor seria a percepção de uma semelhança macabra, que significava, naquele momento, um aviso).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como eu ia dizendo, na tarde seguinte, o olhar do jovem professor foi outro – talvez por não estar numa veia romântica em pleno domingo, com três pacotes de provas para corrigir –, quando viu, ao entrar, sete pombos se acariciando ao redor da caixa d’água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui cabe um parêntese para explicar que a caixa d’água em questão foi projetada por uma renomada arquiteta para ser um elemento de harmonia no conjunto da fachada da casa: uma combinação de curvas e retas que, no entanto, logo perdeu a simetria planejada para se tornar um mostruário de outras peças decorativas (estas inoportunas e invasoras), cujas características principais, como sabemos, são três: voarem, defecarem e federem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, ao ver sete ratos alados se esfregando ao redor da caixa d’água, o professor resgatou da sua memória cinematográfica a velha cena do filme “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock, em que Tippi Hedren observa, aterrorizada, um bando de corvos empoleirados no parquinho de uma velha escola americana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma outra cena seria mais apropriada. O prognóstico foi perfeito: a caixa d’água do professor se tornou, com o passar dos dias, o ponto de encontro de uma infinidade de pombos, de várias cores e tamanhos, que ali ficavam horas e horas, emporcalhando tudo ao redor. Saíam apenas para seus vôos regulares sobre o bairro ou para alguns passeios estratégicos pelo telhado da casa, onde verificavam os melhores lugares para os seus ninhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como é espantosa a capacidade reprodutiva desses bichinhos! Não preciso nem dizer que as laterais e cantos do telhado do professor se transformaram num verdadeiro pombal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta altura do texto é importante explicar que o jovem professor não sabia fazer nada que, fora dos planos afetivo e sexual, um marido de verdade deveria saber, pelo menos na opinião do senso comum: consertar pia, desentupir privada, fazer o carro pegar no tranco, trocar lâmpadas fluorescentes (daquelas compridas) e, é claro, subir no telhado para exterminar pombos – com toda a crueldade de macho que o ato exigia, já que não bastava acabar com os pais, era preciso também aniquilar os filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é mais do que sabido que quando esses pseudo-maridos precisam pagar outro homem para fazer o serviço, eles adiam a decisão o máximo possível, talvez por vergonha ou por avareza (ou as duas coisas juntas), e o problema cresce – no caso dos pombos, de forma assustadoramente rápida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sejamos justos: o professor tentou pelo menos acabar com as orgias na caixa d’água, jogando traques e naftalina no telhado, o que no final das contas não adiantou grande coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espingarda de chumbinho? Proibido. Veneno? Proibido. O que resta, então, ao pobre professor? Conviver com os pombos? Enlouquecer? Se ele conseguisse ao menos não ter que se lembrar do filme do Hitchcock toda vez que entrasse pelo portão da garagem, já estaria satisfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eles estão sempre lá, principalmente à tarde, arrulhando, cagando, copulando, fedendo, enfim, vivendo suas vidas, mais ou menos como qualquer outro ser vivo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como qualquer um de nós...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou quase.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-3494226109003870362?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/3494226109003870362/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=3494226109003870362' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3494226109003870362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3494226109003870362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2012/01/pombos.html' title='Pombos'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-EbfMPqtM-vY/TwRcs4NiKvI/AAAAAAAABpQ/DenmUflK3Ps/s72-c/pombos.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5009842173733296961</id><published>2012-01-02T13:16:00.000-08:00</published><updated>2012-01-02T13:20:57.519-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><title type='text'>A Partida</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-KayhDPOZOwY/TwIfPyBynwI/AAAAAAAABpE/TAc522oj9lE/s1600/augusto_frederico_schmidt.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 195px; height: 267px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-KayhDPOZOwY/TwIfPyBynwI/AAAAAAAABpE/TAc522oj9lE/s320/augusto_frederico_schmidt.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5693147234937511682" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Quero morrer de noite —&lt;br /&gt;         As janelas abertas,&lt;br /&gt;Os olhos a fitar a noite infinda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero morrer de noite.&lt;br /&gt;         Irei me separando aos poucos,&lt;br /&gt;         Me desligando devagar.&lt;br /&gt;A luz das velas envolverá meu rosto lívido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero morrer de noite.&lt;br /&gt;         As janelas abertas.&lt;br /&gt;Tuas mãos chegarão aos meus lábios&lt;br /&gt;         Um pouco de água&lt;br /&gt;E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos.&lt;br /&gt;Os que virão, os que ainda não conheço.&lt;br /&gt;         Estarão em silêncio,&lt;br /&gt;         Os olhos postos em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero morrer de noite.&lt;br /&gt;         As janelas abertas,&lt;br /&gt;Os olhos a fitar a noite infinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.&lt;br /&gt;O berço se embalará na sombra de uma sala&lt;br /&gt;E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.&lt;br /&gt;Uma luz vermelha iluminará um grande dormitório&lt;br /&gt;E passos ressoarão quebrando o silêncio.&lt;br /&gt;Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero morrer de noite —&lt;br /&gt;         As janelas abertas.&lt;br /&gt;Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando todos souberem que já não estou mais&lt;br /&gt;E que nunca mais volverei&lt;br /&gt;Haverá um segundo, nos que estão&lt;br /&gt;E nos que virão, de compreensão absoluta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:85%;" &gt;Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5009842173733296961?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5009842173733296961/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5009842173733296961' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5009842173733296961'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5009842173733296961'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2012/01/partida.html' title='A Partida'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-KayhDPOZOwY/TwIfPyBynwI/AAAAAAAABpE/TAc522oj9lE/s72-c/augusto_frederico_schmidt.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-577176145760536875</id><published>2011-12-31T10:44:00.000-08:00</published><updated>2011-12-31T10:49:37.200-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Felizes acima do peso</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-vFgwFBp6pC4/Tv9ZBB7f4UI/AAAAAAAABo4/ncfVJwVJp-0/s1600/Botero.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 218px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-vFgwFBp6pC4/Tv9ZBB7f4UI/AAAAAAAABo4/ncfVJwVJp-0/s320/Botero.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5692366328252326210" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Na festinha de aniversário da filha de um conhecido advogado na cidade, o jovem professor e sua esposa dividem a mesa com um casal de amigos. Eles não têm filhos, mas vieram assim mesmo, por vir. Para cumprir o social.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;O prato com coxinhas, empadas e canapés acaba de chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças brincam no parquinho longe dos pais, que nas dezenas de mesas espalhadas pelo enorme salão colorido conversam ao som de Xuxa e Balão Mágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O professor olha para a sua linda e jovem esposa: os cabelos negros, lisos e brilhantes, a pele clara, de uma palidez de conto de fadas – e sente no peito uma dor difícil de explicar, porque não dói: algo como uma nuvem densa e fria, quase gelada, preenchendo os espaços entre o coração e os pulmões, indo até a garganta e voltando, indo e voltando, lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a angústia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esposa não conversa. Observa os amigos do marido com desprezo. Não sabe o que está fazendo ali, nem por que está casada com um professor pobre e acima do peso. Justo ela, que é tão magra, linda e saudável, e ainda por cima de estirpe nobre, pois seu pai, embora falido, é tataraneto do Marquês de Itamaracá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na opinião de algumas colegas de trabalho do jovem professor (professoras como ele no Colégio São Francisco), aquela barriga levemente inflada esticando a camisa de malha tamanho M, que a esposa insiste em fazê-lo vestir (quando está claro para todos que a G é a única possibilidade), é um charme a mais, tornando-o até mais bonito e sexy. Mas sua mulher não concorda com isso de jeito nenhum. Quer vê-lo magro, sem barriga, sem bunda, sem coxa, sem aquele harmonioso preenchimento de gordura que disfarça os ossos salientes do rosto, tornando sua face mais redonda – e mais atraente, na opinião das colegas. Quer vê-lo na balança digital do quarto todos os dias, anotando o peso, calculando o índice de massa corporal e as calorias ingeridas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A caminhada é um ritual diário sagrado na vida do casal. Pelo menos para a mulher. Porque para ele é uma tortura das mais difíceis de suportar. Ele simplesmente odeia cada segundo passado na avenida, onde caminham todos os dias, faça chuva, sol ou tempestade, morra parente, morra quem quer que seja, acabe o mundo: eles estão lá, no mesmo ritmo, a passos largos, rápidos, em silêncio. Um silêncio pesado e triste que ele preenche conversando baixinho consigo mesmo, preparando aulas, imaginando-se longe dali, em qualquer outro lugar, comendo um pastel, um crepe ou uma torta de limão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como eu disse, o pratinho com coxinhas, empadas e canapés acaba de chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um olhar fulminante, a esposa faz o marido se lembrar do pacto selado entre eles há duas semanas: nada de gordura, nada de fritura e nada de açúcar. Discretamente ela lhe faz um sinal com a mão, mostrando-lhe a bolsa de couro que ela traz no colo, onde duas barras de cereal se encontram sequinhas, durinhas, com seu gostinho inconfundível de capim seco. Como é sábado, os nomes dos sabores podem variar: trufa e torta de morango (mas no fundo no fundo é tudo a mesma coisa).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O combinado era que, quando a fome apertasse, ele pegaria discretamente uma das barras e se dirigiria ao banheiro para comê-la. Simples e prático.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nesse momento a nuvem densa e fria que cresce em seu peito fica mais pesada e escura (de um cinza quase preto), cheia de ódio e desilusão. E nela surgem raios e relâmpagos, que aos poucos vão quebrando a crosta que serve de fachada para esse casamento infeliz, sacudindo a alma faminta de vida desse jovem quase gordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele toma uma decisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha desafiador para a esposa (que o encara com determinação e frieza) e lentamente pega uma coxinha. Não é daquelas coxinhas vagabundas, frias e emborrachadas, que viram uma pasta sem gosto antes mesmo de se misturarem à saliva. Não. É coxinha frita na hora, firme, sequinha por fora, com recheio abundante de frango e catupiry.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele dá a primeira mordida. Sente seus dentes quebrarem a fina capa crocante e penetrarem lentamente a maciez tenra da deliciosa massa recheada. E nesse momento de sublime deleite, um pouco de catupiry escorre pelo seu queixo. Ele sorri e passa o dedo no creme, que leva à boca com sofreguidão, sorvendo tudo com um estalar de língua molhada que faz a esposa tremer de indignação e ódio no mais íntimo do seu ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos da mulher estão em chamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele continua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um canapé inteiro desaparece na sua boca de uma só vez. E outro. E mais outro. Mais uma coxinha. Uma empada. Um copo de coca-cola bem gelada (da legítima, com açúcar). E outro. E mais outro. E mais uma coxinha. E depois dos parabéns, uma mão cheia de doces, sob o olhar atônito da esposa (que não acredita no que vê). Do bolo ele come dois pedaços, saboreando-os com uma alegria de dar gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar resoluto e frio da esposa diz tudo. Ela se levanta e, sem se despedir de ninguém, desaparece da festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar em casa, o professor descobre que a mulher foi embora levando todas as suas roupas e objetos pessoais. Dois dias depois ele recebe a visita de um advogado, que lhe explica todos os detalhes do divórcio. Ele aceita tudo sem reclamar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente está livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O divórcio deixa-o mais pobre e um pouco mais gordo, mas muito mais feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três semanas depois ele começa a namorar a nova professora de História do Colégio São Francisco, uma mulata linda de morrer, cheia de carne para pegar e de amor para dar. Comem de tudo, reservando as guloseimas mais calóricas para os finais de semana, e exercitam-se na cama quase todas as noites, o que ajuda a manter o excesso de peso num nível aceitável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele adora suas ancas largas, sua bunda redonda e volumosa e até suas celulites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Formam um casal perfeito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acima do peso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas felizes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-577176145760536875?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/577176145760536875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=577176145760536875' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/577176145760536875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/577176145760536875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/felizes-acima-do-peso.html' title='Felizes acima do peso'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-vFgwFBp6pC4/Tv9ZBB7f4UI/AAAAAAAABo4/ncfVJwVJp-0/s72-c/Botero.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4426166482626695995</id><published>2011-12-26T12:49:00.000-08:00</published><updated>2011-12-26T13:11:26.471-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inglês'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Charles Bukowski'/><title type='text'>Friends within the Darkness</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-q6oOGx3l244/TvjfRjEA0xI/AAAAAAAABos/pzCMqH3PT5g/s1600/bukowski028.JPG"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 290px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-q6oOGx3l244/TvjfRjEA0xI/AAAAAAAABos/pzCMqH3PT5g/s320/bukowski028.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5690543621745464082" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;I can remember starving in a&lt;br /&gt;small room in a strange city&lt;br /&gt;shades pulled down, listening to&lt;br /&gt;classical music&lt;br /&gt;I was young I was so young it hurt like a knife&lt;br /&gt;inside&lt;br /&gt;because there was no alternative except to hide as long&lt;br /&gt;as possible--&lt;br /&gt;not in self-pity but with dismay at my limited chance:&lt;br /&gt;trying to connect.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;the old composers -- Mozart, Bach, Beethoven,&lt;br /&gt;Brahms were the only ones who spoke to me and&lt;br /&gt;they were dead.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;finally, starved and beaten, I had to go into&lt;br /&gt;the streets to be interviewed for low-paying and&lt;br /&gt;monotonous&lt;br /&gt;jobs&lt;br /&gt;by strange men behind desks&lt;br /&gt;men without eyes men without faces&lt;br /&gt;who would take away my hours&lt;br /&gt;break them&lt;br /&gt;piss on them.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;now I work for the editors the readers the&lt;br /&gt;critics&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;but still hang around and drink with&lt;br /&gt;Mozart, Bach, Brahms and the&lt;br /&gt;Bee&lt;br /&gt;some buddies&lt;br /&gt;some men&lt;br /&gt;sometimes all we need to be able to continue alone&lt;br /&gt;are the dead&lt;br /&gt;rattling the walls&lt;br /&gt;that close us in.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:85%;" &gt;Charles Bukowski (1920-1994)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4426166482626695995?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4426166482626695995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4426166482626695995' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4426166482626695995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4426166482626695995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/friends-within-darkness.html' title='Friends within the Darkness'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-q6oOGx3l244/TvjfRjEA0xI/AAAAAAAABos/pzCMqH3PT5g/s72-c/bukowski028.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4199928578715224622</id><published>2011-12-26T02:44:00.000-08:00</published><updated>2011-12-26T02:46:53.991-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>No avesso de mim</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-zPXxfNZGT54/TvhQVSea5mI/AAAAAAAABog/lXqVUWKpUAg/s1600/No%2Bavesso%2Bde%2Bmim.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 227px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-zPXxfNZGT54/TvhQVSea5mI/AAAAAAAABog/lXqVUWKpUAg/s320/No%2Bavesso%2Bde%2Bmim.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5690386455849526882" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Hoje estou pelo avesso e não é feio.&lt;br /&gt;A solidão está na carne aberta viva e não é feia.&lt;br /&gt;A indiferença em mim pelo que é de aparência e artifício está no meu avesso em grito mudo e não é feia.&lt;br /&gt;Tudo que é parte do que em mim sou eu pelo avesso não é feio.&lt;br /&gt;Nem belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou eu pelo avesso o avesso de mim,&lt;br /&gt;que sou mais eu ainda do que o não avesso de mim.&lt;br /&gt;Sou eu na mais pura verdade de mim –&lt;br /&gt;na mais pura solidão escura e vibrante e alegre de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração dói de ser eu pelo avesso e vivo e sofro.&lt;br /&gt;Sozinho eu sofro&lt;br /&gt;e alegre vivo o ser&lt;br /&gt;que pelo avesso me sou e me faz de mim algo&lt;br /&gt;que dentro de mim sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou eu pelo avesso&lt;br /&gt;quando digo Sim&lt;br /&gt;ao que vem do mais fundo&lt;br /&gt;do avesso em mim:&lt;br /&gt;um grito&lt;br /&gt;uma dor no escuro&lt;br /&gt;uma luz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liberdade –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O não-medo da morte&lt;br /&gt;O não-medo da vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quarto escuro do meu avesso de mim&lt;br /&gt;não há planos nem projetos,&lt;br /&gt;nem vitórias nem derrotas&lt;br /&gt;não há nada que não sou eu –&lt;br /&gt;no escuro iluminado e puro de mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou pura aceitação de mim no avesso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E só&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4199928578715224622?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4199928578715224622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4199928578715224622' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4199928578715224622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4199928578715224622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/no-avesso-de-mim.html' title='No avesso de mim'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-zPXxfNZGT54/TvhQVSea5mI/AAAAAAAABog/lXqVUWKpUAg/s72-c/No%2Bavesso%2Bde%2Bmim.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-7944249945600325902</id><published>2011-12-22T07:02:00.000-08:00</published><updated>2011-12-22T07:04:34.965-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Subindo na vida</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-QeDHckHhRYs/TvNG3ePusFI/AAAAAAAABoU/HZ2S1uWZB3w/s1600/Subindo%2Bna%2Bvida.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 222px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-QeDHckHhRYs/TvNG3ePusFI/AAAAAAAABoU/HZ2S1uWZB3w/s320/Subindo%2Bna%2Bvida.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5688968673124855890" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Pulando os degraus de dois em dois, o jovem Teo subia quente o morro da Penha, onde morava com a mãe e três irmãos pequenos. Pai ele não tinha. Nem sabia o nome. De vez em quando aparecia um pretendente, um fodido na vida que se instalava no barraco com sua tralha, mas só ficava uma ou duas semanas – tempo mais do que suficiente para ver o tamanho da encrenca em que se metera e sair, esmurrando portas e mandando mãe e filhos para as putas que os pariram, para nunca mais voltar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Teo bufava de alegria e cansaço. Parecia um touro satisfeito. Queria chegar logo em casa para contar o dinheiro. Seiscentas pratas limpinhas. Ralou muito para conseguir juntar. Lavou carro, engraxou sapato, vendeu picolé e todo domingo ia para a feira ajudar na barraca de acarajé da negra Eulália, uma baiana que de baiana não tinha nada, nem a roupa, comprada de segunda mão no bazar das putas, no alto do morro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teo entrou correndo em casa. A mãe surrava um dos moleques, que gritava sem parar, com a bunda já cheia de vergões vermelhos da vara de marmelo arrancada às pressas no quintal do vizinho (se é que podemos chamar de quintal dois metros quadrados de terra encharcada de esgoto fedendo a merda vinte e quatro horas por dia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teo nem ligou. Entrou no quartinho que dividia com os irmãos, e de dentro de um buraco que ele mesmo havia cavado no chão de terra batida, atrás do guarda-roupa, tirou um saco plástico todo amarrotado. Seu dinheiro estava lá, dobradinho. Cinco notas de cem. Às quais, satisfeito, ele acrescentou outra novinha. Quem trocava para ele era o dono de uma padaria no centro. Moedas e notas miúdas por uma nota de cem. Levou quase dois anos para conseguir as seis. Teria conseguido em um ano se não tivesse que ajudar nas despesas de casa. Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ali estavam elas. E ele sentia o seu cheiro, tocava-as levemente com os lábios, acariciava-as, os olhos brilhando de contentamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E com a mesma alegria com que subira minutos antes, ele desceu, correndo, pulando de dois em dois, de três em três, os degraus imundos e escalavrados do morro da Penha.  Nem sentia que estava no morro. Parecia nas nuvens. E em menos de meia hora já estava na loja experimentando o tênis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o seu sonho aquele tênis. Todos os dias ele passava ali para se certificar de que o preço continuava 599 reais. Respirava aliviado quando via que sim, pois tivera que adiar a compra duas vezes em um ano por causa dos aumentos. Quando o Ronaldinho começou a aparecer na televisão usando-o, o preço pulou de 470 para 550 reais em um dia. Foi um choque para Teo. “Mas é o Ronaldinho”, pensara ele na época, triste pelos meses a mais de ralação que aquilo significaria, mas ao mesmo tempo feliz pelo fato de alguém tão importante para o Brasil colocar nos pés (e que pés!) o objeto de seus sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou quarenta minutos se olhando no espelho da loja, maravilhado. (É que no barraco não tinha espelho de corpo inteiro e ele queria aproveitar). Enquanto isso o dono da loja mantinha o dedo encostado no botão do alarme, pronto para apertá-lo a qualquer momento, se precisasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não foi preciso. Teo pagou pelo par de tênis (em dinheiro e à vista) e foi embora, feliz da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou para o barraco, sentindo-se um rei, o dono do pedaço. Na subida reparou os olhares de respeito e admiração quando cruzava com amigos e conhecidos. Estava muito feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era alguém...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-7944249945600325902?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/7944249945600325902/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=7944249945600325902' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7944249945600325902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7944249945600325902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/subindo-na-vida.html' title='Subindo na vida'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-QeDHckHhRYs/TvNG3ePusFI/AAAAAAAABoU/HZ2S1uWZB3w/s72-c/Subindo%2Bna%2Bvida.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-3707821150070662207</id><published>2011-12-17T08:44:00.000-08:00</published><updated>2011-12-22T07:04:34.966-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Descendo do salto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-0VnI39QMp4Y/TuzHcYDGMmI/AAAAAAAABoA/ynnQRr_G9Ig/s1600/Descendo%2Bdo%2Bsalto.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 214px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-0VnI39QMp4Y/TuzHcYDGMmI/AAAAAAAABoA/ynnQRr_G9Ig/s320/Descendo%2Bdo%2Bsalto.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687139719767798370" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A bela professora universitária entrou na sala de aula como se estivesse na passarela de um desfile de modas em Paris ou Milão. Era sexta-feira à noite e, embora já estivesse com o atestado médico em mãos, assinado por uma prima ginecologista, ela resolvera, de última hora, abandonar o marido e os amigos no refinado restaurante francês &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Le Bistrot&lt;/span&gt; e ir direto para a universidade. Fez isso pelos alunos, que queriam muito a sua presença durante a realização da atividade que ela havia preparado para aquela noite, e que seria aplicada por uma estagiária.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Quando ela entrou na sala, irradiando beleza e simpatia, havia em seus intestinos meia garrafa de um vinho francês da &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Borgogne&lt;/span&gt;, já completamente absorvido pelo maravilhoso &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Cassoulet &lt;/span&gt;que ela havia comido antes de sair. (E ao distribuir os exercícios aos alunos, ela fez questão de referir-se a esse jantar requintado, que prosseguia sem a sua presença encantadora no restaurante mais caro da cidade).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto ela desfilava pelos corredores da sala, fazendo soar no piso de madeira o leve toc toc dos seus belos saltos importados, uma enorme quantidade de bactérias atacava os carboidratos da mistura de iguarias francesas que se movimentava no interior de suas tripas. Desse processo de fermentação é perfeitamente natural que surjam gases, como o metano, o sulfeto de hidrogênio ou o dióxido de carbono. Se os componentes da mistura vêm da França, da Alemanha ou do quintal de um pequeno roceiro do interior de Minas Gerais não interessa às bactérias que produzem tais gases. E quanto mais enxofre tiver na mistura, mais fedidas serão as ventosidades produzidas, não fazendo qualquer diferença neste processo a nacionalidade das iguarias presentes nos intestinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a professora dizia algumas frases decoradas em francês para impressionar os alunos, tentando imitar os sons ouvidos no filme &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Piaf &lt;/span&gt;ou em &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Coco avant Chanel&lt;/span&gt;, uma pequena bolha de gás, contendo uma quantidade considerável de sulfeto de hidrogênio (rico em enxofre), aumentava de tamanho entre as paredes do seu intestino grosso. Ela circulava em torno de um bolo fecal de aspecto uniforme e cor marrom parda (devido ao ganso presente no &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Cassoulet&lt;/span&gt;) que se movimentava lentamente em direção ao ânus da mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bolha aumentava de tamanho a cada minuto, e às vezes a professora sentia o seu movimento, que se não fosse o constante toc toc de seus saltos sobre o piso da sala, poderia ser ouvido até pelo aluno que estivesse mais próximo. E, aos poucos, outras bolhas vinham se aproximando da bolha maior, pois no tempo em que esteve no restaurante, antes de servirem a refeição, a professora conversou muito enquanto bebia, a maior parte do tempo criticando colegas de trabalho que ela considerava inferiores, e enquanto ria e falava, uma enorme quantidade de ar entrava pela sua boca. O ar não absorvido pelo organismo ou eliminado pelos arrotos discretíssimos que ela soltava se misturou ao &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Cassoulet&lt;/span&gt; e ao vinho tinto, e acompanhou a mistura em direção aos intestinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, alguns ácaros iniciavam uma pequena reação alérgica nas mucosas nasais da mulher. Um leve corrimento teve início, o que fez com que ela tirasse do bolso um lenço bordado a mão por artesãos indianos, comprado na última viagem que ela havia feito com o marido à Ásia. Levou o lenço ao nariz e, discretamente, limpou um excesso de mucosidade nasal que se acumulava na narina esquerda e que estava prestes a pingar. Uma leve irritação nos olhos e uma coceira em ambas as narinas começavam a incomodá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, a professora continuava o seu desfile pelos corredores da sala, respondendo às questões feitas pelos alunos como se ela fosse a maior autoridade em Psicologia Social do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, uma bolha de ar que se movimentava no seu intestino grosso se juntou a uma pequena bolha de dióxido de carbono e sulfeto de hidrogênio, produzida por um grupo de bactérias famintas, o que fez surgir uma bolha muito maior. Essa bolha forçou a parede do intestino, que pressionava de um lado, enquanto o bolo fecal pressionava do outro, o que fez com que ela se deslocasse rapidamente em direção à outra bolha, a mais fedida de todas, que já se aproximava do ânus da professora. Ao se encontrarem, as duas bolhas formaram uma bolha só, de proporções devastadoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um espirro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em pânico, a professora respirou fundo o ar ao seu redor, com medo de que alguma coisa tivesse escapado. Nada. Nenhum cheiro desagradável. Ela tinha que sair dali o mais rápido possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro espirro, e mais um, e mais outro. A bolha estava quase lá, a mulher podia sentir, e enquanto caminhava lentamente em direção à porta, percebeu uma pressão nas paredes do seu ânus – como um inchaço interno – que só podia significar uma coisa: uma enorme quantidade de gases já tinha chegado ali e estava pronta para explodir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente a mulher parou. Qualquer movimento podia ser fatal. Um novo espirro seria a tragédia completa. E ali ela ficou, entre duas fileiras de alunos, quase no meio da sala, à espera de um milagre, de uma intervenção divina que fizesse desaparecer todo aquele gás acumulado bem na saída, que ela trancava com todas as forças que sua bem trabalhada musculatura glútea e anal permitia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, os ácaros não davam trégua e provocavam mais coceira no nariz da desesperada professora, que já não falava mais, apenas aguardava, em pânico, o que o destino lhe reservava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando veio o espirro, o mais forte de todos, que vibrou a abertura anal com a rapidez de um raio: um único segundo, o tempo de uma pequena piscadela do esfíncter, mas que foi suficiente para que uma parte dos gases acumulados sob pressão escapasse com um enorme estrondo, tão alto, que a tentativa da professora de abafá-lo com o som do espirro foi em vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tragédia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os alunos escutaram o som e perceberam de imediato de onde ele tinha vindo e do que se tratava. E os que estavam mais próximos da professora sentiram um cheiro tão fedido, que alguns fizeram vômito, e outros chegaram a vomitar no chão, próximo aos pés da desesperada mulher, que não sabia onde enfiar a cara. E antes que ela raciocinasse sobre o que fazer numa situação dessas, um novo espirro, e um novo estrondo, ainda mais alto e fedido que o primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro estava por toda a sala. Alguns alunos pediram licença e se retiraram. Outros foram para a janela. E a professora ficou lá, parada que nem uma estátua, com o pensamento em branco, sentindo o cheiro dos gases produzidos pelas bactérias dos seus intestinos: um cheiro de corpo, de carne, de vida e morte, um cheiro de existir, de ser e estar no mundo, vivendo, comendo e morrendo, como eu, como você, como qualquer um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-3707821150070662207?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/3707821150070662207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=3707821150070662207' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3707821150070662207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3707821150070662207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/descendo-do-salto.html' title='Descendo do salto'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-0VnI39QMp4Y/TuzHcYDGMmI/AAAAAAAABoA/ynnQRr_G9Ig/s72-c/Descendo%2Bdo%2Bsalto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-317418781599558702</id><published>2011-12-16T06:10:00.001-08:00</published><updated>2011-12-16T06:34:26.176-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Psicologia etc'/><title type='text'>Viver é recriar-se</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-vqKm7vwF8TY/TutTtW2bAsI/AAAAAAAABnw/t-vkqEHE9rA/s1600/PENSAR_E_TRANSGREDIR_1246231599P.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 302px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-vqKm7vwF8TY/TutTtW2bAsI/AAAAAAAABnw/t-vkqEHE9rA/s320/PENSAR_E_TRANSGREDIR_1246231599P.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5686730993178444482" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lya Luft, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pensar é transgredir&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 23&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-317418781599558702?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/317418781599558702/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=317418781599558702' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/317418781599558702'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/317418781599558702'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/viver-e-recriar-se.html' title='Viver é recriar-se'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-vqKm7vwF8TY/TutTtW2bAsI/AAAAAAAABnw/t-vkqEHE9rA/s72-c/PENSAR_E_TRANSGREDIR_1246231599P.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-7724226279890338088</id><published>2011-12-11T07:37:00.000-08:00</published><updated>2011-12-11T07:55:21.059-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Mineirinho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-fWoLSLn8Gf0/TuTQqgpnvaI/AAAAAAAABnk/cFYgk_2ZsnE/s1600/clarice.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 185px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-fWoLSLn8Gf0/TuTQqgpnvaI/AAAAAAAABnk/cFYgk_2ZsnE/s320/clarice.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5684898058385997218" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente – não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho – essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranquila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo – uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Clarice Lispector, Mineirinho. In: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Para não esquecer &lt;/span&gt;(crônicas, 1978). Rio de Janeiro: Rocco.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-7724226279890338088?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/7724226279890338088/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=7724226279890338088' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7724226279890338088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7724226279890338088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/mineirinho.html' title='Mineirinho'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-fWoLSLn8Gf0/TuTQqgpnvaI/AAAAAAAABnk/cFYgk_2ZsnE/s72-c/clarice.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-7192457105114691762</id><published>2011-12-10T03:25:00.001-08:00</published><updated>2011-12-10T03:34:09.380-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Antes do fim</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-BzplePZ_oiE/TuNDbJv7p3I/AAAAAAAABnY/ZHbTjpSGcHQ/s1600/antes%2Bdo%2Bfim.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 254px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-BzplePZ_oiE/TuNDbJv7p3I/AAAAAAAABnY/ZHbTjpSGcHQ/s320/antes%2Bdo%2Bfim.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5684461288424187762" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Setenta anos de idade&lt;br /&gt;sozinho em casa num dia frio e escuro&lt;br /&gt;sentado na privada ele começou a puxar os pêlos do peito e do saco&lt;br /&gt;a puxar e arrancar os pêlos com raiva&lt;br /&gt;uma raiva que explodiu de repente, assim, sem mais&lt;br /&gt;enquanto o cheiro das fezes se espalhava pelo ar, de dentro para fora&lt;br /&gt;um cheiro de repolho podre, de carne podre&lt;br /&gt;e os pêlos caíam na água, no chão, na borda da privada&lt;br /&gt;e ele continuava puxando e arrancando com ferocidade –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;arrancando –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um pequeno vaso de sangue arrebentou&lt;br /&gt;próximo à virilha&lt;br /&gt;– um vasinho de nada, roxo&lt;br /&gt;que parecia estar preso ao pêlo que ele arrancou do saco murcho e comprido&lt;br /&gt;– uma artéria pequena, mas que sangrou&lt;br /&gt;e o sangue começou a escorrer, a pingar&lt;br /&gt;a pingar sem parar na água marrom&lt;br /&gt;que ficou mais escura na parte onde pingava&lt;br /&gt;mais escura de um vermelho vivo de sangue ruim&lt;br /&gt;de sangue azedo –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pingando –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto pingava ele puxava com mais fúria os pêlos&lt;br /&gt;e olhava as unhas dos pés nos chinelos pretos, que ele só usava em casa&lt;br /&gt;– chinelos baratos, um deles rachado na frente, sujo&lt;br /&gt;e uma das unhas encravada, trincada, de um marrom pardo escuro&lt;br /&gt;que doía todos os dias dentro do seu sapato caro de ir ao centro&lt;br /&gt;de ir cobrar as dívidas&lt;br /&gt;de ir maquinar&lt;br /&gt;e fofocar como ninguém&lt;br /&gt;e matraquear:&lt;br /&gt;‘Como sou bom, como sou honrado, como sou competente&lt;br /&gt;veja como tenho razão&lt;br /&gt;eu só quero o bem, só quero o que é certo: isso é certo, aquilo é errado&lt;br /&gt;e olha o meu filho, que beleza&lt;br /&gt;ele fala inglês e é o melhor executivo da empresa&lt;br /&gt;foi o melhor aluno da universidade’ –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o melhor –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o sangue escorrendo pelo saco murcho, comprido e velho&lt;br /&gt;– os pêlos no chão, na água&lt;br /&gt;pêlos pretos e brancos&lt;br /&gt;– quase todos brancos&lt;br /&gt;contrastando com o cabelo pintado&lt;br /&gt;que o fazia sorrir de orgulho e estufar o peito na frente do espelho&lt;br /&gt;antes de se enfiar no terno e sair para cobrar e fofocar&lt;br /&gt;matraquear e maquinar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E saía de peito erguido pelas ruas&lt;br /&gt;com sua honra e respeitabilidade de chefe de família bem casado e feliz&lt;br /&gt;– tudo certo, do jeito que tinha que ser:&lt;br /&gt;‘Lá em casa é assim, comigo é desse jeito’&lt;br /&gt;– uma felicidade embrulhada em papel de seda e fitas de ouro&lt;br /&gt;o dia seguindo o seu curso, tudo planejado desde o início&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto o sangue pingava sem parar&lt;br /&gt;ele pensava no jogo que terminava:&lt;br /&gt;rei, peão, rainha, cavalo, torre e bispo deitados na mesma caixa&lt;br /&gt;na mesma caixa de madeira escura&lt;br /&gt;E a tampa, ah a tampa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fim do jogo se aproximava&lt;br /&gt;e só naquele momento, sentado na privada&lt;br /&gt;arrancando os pêlos do peito e do saco&lt;br /&gt;ele se deu conta disso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuar para quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estava o garotinho que brincava no quintal de casa&lt;br /&gt;cheio de alegria e prazer&lt;br /&gt;vivendo o instante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava no topo, no ápice, aposentado&lt;br /&gt;– mas na ativa, maquinando, maquinando&lt;br /&gt;rico&lt;br /&gt;muito rico&lt;br /&gt;filhos brilhantes&lt;br /&gt;um casamento respeitável&lt;br /&gt;respeitabilíssimo&lt;br /&gt;com uma fachada construída em pedra maciça impenetrável&lt;br /&gt;por onde não passava nem a luz do sol numa manhã quente de verão:&lt;br /&gt;e a vida era como se o sol não brilhasse&lt;br /&gt;mas respeitável e próspera&lt;br /&gt;de dar inveja&lt;br /&gt;– era isso que importava&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o jogo terminava e ele sentia o seu fim&lt;br /&gt;foi um choque&lt;br /&gt;um tremor súbito que o fez soltar o último tufo de pentelhos no chão&lt;br /&gt;e esfregar a mão trêmula no peito quase despelado e no saco quase nu&lt;br /&gt;– triste (uma tristeza pesada e fria)&lt;br /&gt;e ao erguê-la viu o sangue&lt;br /&gt;ah aquele sangue vermelho e quente, escuro&lt;br /&gt;sangue dele&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de repente uma ânsia de beber o próprio sangue lhe tomou o corpo e o espírito&lt;br /&gt;uma fissura, uma fome de seu próprio corpo, de sua fonte de vida&lt;br /&gt;uma vontade incontrolável de buscar nela vestígios do seu eu perdido&lt;br /&gt;de arrancar as cascas, as máscaras&lt;br /&gt;de enfiar as unhas no peito e vasculhar por dentro até encontrar...&lt;br /&gt;o quê?&lt;br /&gt;onde estava? onde estava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sem pensar foi bebendo o sangue&lt;br /&gt;lambendo a mão empapada de vermelho molhado e quente&lt;br /&gt;que voltava ao saco para buscar mais e mais&lt;br /&gt;sangue dele, ácido, com gosto de ferro, de cinza pardo&lt;br /&gt;ferroso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– e mais e mais e mais e mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o saco não parava de pingar&lt;br /&gt;e ele bebendo, de olhos fechados&lt;br /&gt;sentindo, sentindo&lt;br /&gt;e de repente o cheiro podre desapareceu&lt;br /&gt;e a criança voltou gritando ‘Nada importa, nada disso importa’&lt;br /&gt;e do fundo de seu túmulo Fernando Pessoa gritou ‘Fazes falta?&lt;br /&gt;Ó sombra fútil chamada gente!&lt;br /&gt;Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...&lt;br /&gt;Sem ti correrá tudo sem ti’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele também gritou&lt;br /&gt;caiu de joelhos&lt;br /&gt;e começou a arrancar os cabelos da cabeça, dos cílios, das sobrancelhas&lt;br /&gt;e sentiu sua doença de pele descamando atrás das orelhas&lt;br /&gt;e arrancou as cascas&lt;br /&gt;as placas de casca branca e seca&lt;br /&gt;e na cabeça descobriu uma ferida que também descamava&lt;br /&gt;e que ele coçou&lt;br /&gt;coçou até sangrar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o saco pingando no chão&lt;br /&gt;formando uma poça escura no piso branco do banheiro&lt;br /&gt;e sua boca vermelha&lt;br /&gt;vermelha do seu próprio sangue&lt;br /&gt;da sua própria vida quente que pulsava fundo&lt;br /&gt;bem fundo&lt;br /&gt;sem ele saber&lt;br /&gt;perdida por trás das crostas secas&lt;br /&gt;das máscaras duras e frias da respeitabilidade&lt;br /&gt;de tudo que tem que ser, de tudo que é certo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele gritou de novo, de joelhos&lt;br /&gt;a boca cuspindo sangue num vômito de libertação&lt;br /&gt;e esfregou no corpo o seu próprio vômito, o seu próprio sangue&lt;br /&gt;e gritou&lt;br /&gt;‘Meus filhos, meus filhos, venham até mim&lt;br /&gt;venham aqui e me escutem&lt;br /&gt;não sou o que vocês pensam&lt;br /&gt;roubei, humilhei, menti, oh como menti:&lt;br /&gt;muitas dessas pessoas que vocês desprezam&lt;br /&gt;só porque eu as culpei de terem me atacado&lt;br /&gt;a mim, o inocente, o bom&lt;br /&gt;– essas pessoas não são culpadas nem inocentes&lt;br /&gt;o que vocês sabem é o que eu disse, o que tem que ser&lt;br /&gt;o que deve ser dito para sustentar a imagem pura e boa do pai&lt;br /&gt;do senhor&lt;br /&gt;do respeitável&lt;br /&gt;do marido fiel e honrado&lt;br /&gt;do profissional brilhante&lt;br /&gt;pai dos filhos brilhantes’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a poça de sangue crescia logo abaixo do seu saco&lt;br /&gt;e ele de joelhos gritando ‘Perdão, perdão’&lt;br /&gt;as mãos levantadas em súplica&lt;br /&gt;e uma nova ânsia de vômito lhe tomava o estômago em espasmos de dor&lt;br /&gt;os músculos se contraindo, apertando, apertando&lt;br /&gt;– espasmos que expeliram uma água rala, vermelha e fétida&lt;br /&gt;de um fedor ardente e seco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de repente ele se jogou no chão, deitado, com as mãos no rosto&lt;br /&gt;banhado em sangue, fezes e vômito&lt;br /&gt;imaginando-se na frente do espelho, todo importante&lt;br /&gt;e não havia nada ali&lt;br /&gt;era um espelho vazio&lt;br /&gt;nada&lt;br /&gt;ele não estava ali&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a poça aumentou ainda mais e ele desmaiou&lt;br /&gt;desmaiou de exaustão e dor, quase sem fôlego de tanto gritar&lt;br /&gt;quase sem vida&lt;br /&gt;mas limpo, purificado...&lt;br /&gt;foi salvo pelo vizinho, que o levou a um hospital&lt;br /&gt;onde os filhos e a esposa o encontraram vivo&lt;br /&gt;mas diferente: um outro homem...&lt;br /&gt;preparado para partir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As peças já estavam na caixa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘O jogo acabou’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-7192457105114691762?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/7192457105114691762/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=7192457105114691762' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7192457105114691762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7192457105114691762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/antes-do-fim.html' title='Antes do fim'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-BzplePZ_oiE/TuNDbJv7p3I/AAAAAAAABnY/ZHbTjpSGcHQ/s72-c/antes%2Bdo%2Bfim.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2359468636094774414</id><published>2011-12-09T11:31:00.001-08:00</published><updated>2011-12-09T11:57:04.156-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A graça</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-c3nOFpX7o4o/TuJnvuW8A0I/AAAAAAAABnM/O85mDAzVaTQ/s1600/maca.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 280px; height: 280px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-c3nOFpX7o4o/TuJnvuW8A0I/AAAAAAAABnM/O85mDAzVaTQ/s320/maca.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5684219749290738498" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;- e sem poder mais mentir, chorei rezando no escuro, rezando assim "nunca mais isso, oh Deus nunca mais me deixe ser tão audaciosa, nunca mais me deixe ser tão feliz, tire para sempre a minha coragem de viver; que eu nunca vá tão adiante em mim mesma, que eu nunca me permita, tão sem piedade, a graça", porque eu não quero a graça, pois antes morrer sem ter jamais visto que ter visto uma só vez! porque Deus com sua bondade permite, ouviu, permite e aconselha que as pessoas sejam covardes e se protejam, seus filhos prediletos são os que ousam mas Ele é severo com quem ousa, e é benevolente com quem não tem coragem de olhar de frente e Ele abençoa os que abjetamente tomam cuidado de não ir longe demais no arrebatamento e na procura da alegria, desiludido Ele abençoa os que não têm coragem. Ele sabe que há pessoas que não podem viver com a felicidade que há dentro delas, e então Ele lhes dá uma superfície de que viver, e lhes dá uma tristeza, Ele sabe que tem pessoas que precisam fingir, porque a beleza é árida, por que é tão árida a beleza? e então eu disse para mim "tenha medo, Vitória, porque ter medo é a salvação". Porque as coisas não devem ser vistas de frente, ninguém é tão forte assim, só os que se danam é que têm força. Mas para nós a alegria tem que ser como uma estrela abafada no coração, a alegria tem que ser apenas um segredo, a natureza da gente é o nosso grande segredo, a alegria deve ser como uma irradiação que a pessoa jamais, jamais deve deixar escapar. Sente-se um estilhaço e não se sabe onde: é assim que tem que ser a alegria: não se deve saber porque, deve-se sentir assim: "mas que é que eu tenho?" - e não saber. Embora quando se toque em alguma coisa, essa coisa brilhe por causa do grande segredo que se abafou - eu tive medo, porque quem sou eu sem contenção?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A maçã no escuro&lt;/span&gt; (1961). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 268-9&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2359468636094774414?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2359468636094774414/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2359468636094774414' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2359468636094774414'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2359468636094774414'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/graca.html' title='A graça'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-c3nOFpX7o4o/TuJnvuW8A0I/AAAAAAAABnM/O85mDAzVaTQ/s72-c/maca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-8743954246996650925</id><published>2011-12-08T16:50:00.000-08:00</published><updated>2011-12-09T11:57:21.766-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Psicologia etc'/><title type='text'>Cansado</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-BLblS65pFs8/TuFd49X6r9I/AAAAAAAABnA/6NtZwCMda3w/s1600/im.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 213px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-BLblS65pFs8/TuFd49X6r9I/AAAAAAAABnA/6NtZwCMda3w/s320/im.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5683927437847211986" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Estou cansado de me esforçar para ser agradável.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem dias que levanto com o firme propósito de pular o dia. Ainda não estou preparado para viver. Quero trabalhar sem ser notado. Invisível. Por favor, que ninguém puxe conversa, que nenhuma reunião seja marcada, que ninguém olhe nos meus olhos e pergunte se estou bem. Deixem eu causar o mínimo de impacto e voltar. Saio já esperando a noite: vou jantar, ver algum filme que já vi e dormir. Muito. Talvez amanhã eu esteja pronto. Talvez eu continue encolhido por um mês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo Gitti, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Confissões&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-8743954246996650925?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/8743954246996650925/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=8743954246996650925' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8743954246996650925'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8743954246996650925'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/cansado.html' title='Cansado'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-BLblS65pFs8/TuFd49X6r9I/AAAAAAAABnA/6NtZwCMda3w/s72-c/im.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1579490430997188228</id><published>2011-12-03T05:43:00.000-08:00</published><updated>2011-12-03T06:35:24.285-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A maçã no escuro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-9UXIguKQL1c/TtoxeguhhrI/AAAAAAAABm0/ObqcLxFhjz4/s1600/A_Ma_no_Escuro_1961.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 303px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-9UXIguKQL1c/TtoxeguhhrI/AAAAAAAABm0/ObqcLxFhjz4/s320/A_Ma_no_Escuro_1961.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5681908280132208306" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Mas que se sabe do que se passa numa pessoa? Porque ele, que estava fracassando, não poderia chamar seu fracasso de sofrimento, mesmo que a desilusão e a ofensa recebida tivessem aflorado a seu rosto, tão poucos sentimentos a carne permite. Mas como chamar de sofrimento o fato dele estar passando pela verdade da Proibição como pelo buraco de uma agulha. Como poderia ele sequer revoltar-se com a verdade. Ele era a sua própria impossibilidade. Ele era ele. A esse ponto de grande angústia tranquila ele chegou: aquele homem era a sua própria Proibição.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Sofrimento? pensou com o rosto irreparavelmente ofendido a encarar o papel branco. Mas como não amar mesmo a Proibição? se ela o empurrara até onde ele podia ir? se o empurrara até aquela resistência última onde... Onde a única solução irrazoável era o grande amor? Quando o homem é acuado só o grande amor lhe ocorre. Sofrimento? Só não podendo é que um homem sabia. Um homem afinal se media pela sua carência. E tocar na grande falta era talvez a aspiração de uma pessoa. Tocar na falta seria a arte? Aquele homem gozava sua impotência assim como um homem se reconhece. Estava espantadamente fruindo o que ele era. Pois pela primeira vez na vida sabia quanto era. O que doía como a raiz de um dente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma grande doçura o envolveu, como quando se sofre. Não conseguia encarar sem dor o papel vazio. Onde sua ação falhara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas falhara? Porque a compreensão também era fatal. Ele não conseguia deixar de admirar a perfeição da Proibição. Pois, num equilíbrio perfeito, acontecia que se ele não tinha as palavras, tinha o silêncio. E se não tinha a ação, tinha o grande amor. Um homem podia não saber nada; mas sabia como se virar, por exemplo, para o lado do poente: um homem tinha o grande recurso da atitude. Se não tivesse medo de ser mudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, não sofrimento. Porque na sua impossibilidade de criar ele não tinha tido o pior: não tinha sido espoliado. Em tudo o mais aquele homem enganara ou fora trapaceado, haviam-no roubado ou ele espertamente roubara. Mas na sua passagem pelo grande vazio, pela primeira vez na sua vida, ele não enganara ou fora enganado. A coisa era limpa: como se tratava de uma pessoa, então o limpo resultado fora cumprir a experiência de não poder. Pois, numa sensação genial, nascida talvez de sua dor, ele soube que o resultado mais acertado era falhar. Sofrimento? pensou com o rosto ofendido. Mas como não amar a Proibição, se cumpri-la é a nossa tarefa? refletiu em dor o escritor involuntário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Martim começara agora a se emaranhar numa curiosa sensação de ter conseguido alguma coisa extraordinária. Tinha passado pelo mistério de querer. Como se tivesse tocado no pulso da vida. Ele que sempre se deslumbrara com o milagre espontâneo de seu corpo ser bastante corpo para querer uma mulher, e seu corpo ser bastante corpo para querer comida - ele agora tocara na fonte de tudo isso, e do viver: ele quisera... De um modo geral e profundo, ele quisera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A mação no escuro&lt;/span&gt; (1961). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 174-5&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1579490430997188228?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1579490430997188228/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1579490430997188228' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1579490430997188228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1579490430997188228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/12/maca-no-escuro.html' title='A maçã no escuro'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-9UXIguKQL1c/TtoxeguhhrI/AAAAAAAABm0/ObqcLxFhjz4/s72-c/A_Ma_no_Escuro_1961.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-3117022903887302835</id><published>2011-11-28T10:15:00.000-08:00</published><updated>2011-11-28T10:26:14.803-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Uma cartinha ao Papai Noel</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-VEYie2JqCiQ/TtPSBQPLj9I/AAAAAAAABlg/hcyTnWjatvE/s1600/santa.png"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-VEYie2JqCiQ/TtPSBQPLj9I/AAAAAAAABlg/hcyTnWjatvE/s320/santa.png" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5680114474024669138" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Querido Papai Noel,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Neste ano eu me comportei direitinho. Obedeci à mamãe e ao papai, não briguei com a minha irmã e usei o dinheiro da minha mesada com muita responsabilidade. O papai me dá 700 reais todos os meses para eu gastar com o que eu quiser, mas eu economizo 200 reais por mês. É que eu quero juntar 3.000 reais para eu levar para a Disney no ano que vem e comprar um monte de coisas legais para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na escola eu também fiz tudo direitinho. Meus colegas fizeram muitas coisas erradas, mas eu não. Todos os dias eles insultavam um outro menino, que veio estudar na nossa sala com uma bolsa de estudos, porque ele é pobre e negro, coitado... Eles batiam nele e o chamavam de um monte de coisas feias, como urubu, filhote de cruz credo e favelado; e ainda chamavam a mãe dele de prostituta e o pai de drogado e traficante. Só que eu não. Eu ficava caladinho. Eu não conversava com o menino porque ninguém nem chegava perto dele, só a professora, então eu não podia conversar também. Mas eu nunca bati nele nem o chamei de nomes feios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando umas pessoas muito pobres tocam o interfone daqui de casa pedindo um prato de comida ou um pedaço de pão. Quando sobram restos de comida nos pratos, eu junto tudo, embrulho num jornal e levo para eles. Quando não sobra comida, eu pego uns dois ou três pães, que ficam guardados no armário a semana inteira para endurecer e a empregada poder ralar para fazer farinha de pão, e jogo para eles por cima da grade. Um dia um menino que estava com eles me pediu água. Mesmo correndo o risco de sujar o piso de granito da mamãe, eu abri o portão e deixei o coitado usar a torneira do jardim. O meu pai até chegou na hora e empurrou o menino para fora, chamando-o de pivete imundo. Eu fiquei muito triste com o papai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem esteve aqui em casa a minha tia Jaciara. Ela me contou que só existe um Papai Noel de verdade: o senhor. Ela disse que aquele Papai Noel que fica na casinha da ASCIPAM é de mentira; que o Papai Noel de verdade é um espírito superior, que só visita as residências de pessoas superiores, como nós, que merecem ser presenteadas. Foi aí que eu entendi por que os alunos bolsistas lá da escola, que são inferiores, só ganham de Natal brinquedos ruins, enquanto nós, superiores, ganhamos brinquedos bons e caros. É que quem dá os presentes para as crianças pobres são os próprios pais delas (ou alguma instituição de caridade ou empresa), que não têm muito dinheiro, enquanto, no nosso caso, é o senhor mesmo, que vem com as suas renas mágicas visitar as nossas casas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveito esta carta também para agradecer ao senhor o helicóptero de controle remoto, o computador, o tênis Puma e o celular que o senhor me deu no ano passado. Muito obrigado, Papai Noel. Gostei demais! O helicóptero ainda está funcionando, mas eu não brinco mais com ele porque fiquei enjoado, então eu o empresto ao filho da empregada todo sábado de manhã. O senhor precisa ver a alegria do menino! (Mas acho que o senhor vê, não é?). O computador já não me serve mais, porque de uma hora para outra ele ficou muito devagar e o papai teve que comprar outro. O tênis eu tive que parar de usar porque o Eloi, meu colega, chegou com um muito mais caro do que o meu, então eu tive que pedir ao papai para comprar um de uma marca ainda mais cara, para eu não ficar para trás. E o celular, o senhor sabe... Não dá para ficar com o mesmo por muito tempo, no máximo dois ou três meses, porque sempre aparece um mais avançado, com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;design&lt;/span&gt; mais moderno e mais caro lá na escola, e a gente tem que trocar o nosso, para ninguém ficar zoando a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste Natal, eu peço ao senhor um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;laptop&lt;/span&gt; (o melhor que tiver no mundo), porque oito colegas meus já têm os seus e eu preciso ter o meu também; uma viagem ao Japão, porque até hoje ninguém na minha sala foi ao Japão; e um celular novo (também o melhor do mundo), porque eu não posso ficar para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Já ia me esquecendo! Se for possível, eu gostaria de confirmar uma coisa com o senhor. É que ontem, junto com a tia Jaciara, veio nos visitar o tio Tomás, que é deputado lá no Congresso. Ele ficou o tempo todo rindo (com a mão naquela pança enorme que ele tem), bebendo um vinho importado da mamãe (reservado para ocasiões especiais), e disse que este ano o Papai Noel DELE vai chegar bem mais gordo (e de jatinho), por causa de um aumento de mais de 60% no salário que eles mesmos se deram lá no Congresso. A tia Jaciara tinha acabado de me contar a verdadeira história do Papai Noel (ou seja, do senhor), e na hora só pude crer que o tio Tomás tinha se equivocado. Como é possível que ele possa ter um Papai Noel só dele (mais gordo do que o dos outros e que chega de jatinho e não de renas mágicas) se só existe um Papai Noel: o senhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um forte abraço, blá blá blá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-3117022903887302835?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/3117022903887302835/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=3117022903887302835' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3117022903887302835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3117022903887302835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/11/uma-cartinha-ao-papai-noel.html' title='Uma cartinha ao Papai Noel'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-VEYie2JqCiQ/TtPSBQPLj9I/AAAAAAAABlg/hcyTnWjatvE/s72-c/santa.png' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-3122138092739313381</id><published>2011-11-02T15:28:00.000-07:00</published><updated>2011-11-02T15:46:55.232-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Um sopro de vida (II)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-bMCtFknL4nY/TrHIIQMbjlI/AAAAAAAABlM/Ukr-35iHTxA/s1600/Clarice%2BLispector%2B11.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 263px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-bMCtFknL4nY/TrHIIQMbjlI/AAAAAAAABlM/Ukr-35iHTxA/s320/Clarice%2BLispector%2B11.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5670533449947778642" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do espírito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo interminável da eternidade, abismo através do qual me comunico fantasmagórica com Deus.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está tudo podre. Eu o sinto no ar e nas pessoas em multidão amedrontada e faminta. Mas creio que no fundo da podridão existe - verde faiscante redentora e terra prometida - no mais fundo da escura podridão brilha límpida e fascinante a Grande Esmeralda. O Grande Prazer. Mas por que esse desejo e fome de prazer? Porque o prazer é o máximo da veracidade de um ser. É a única luta contra a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me separa do mundo é a minha futura morte. A morte será o meu maior acontecimento individual: a pessoa se despe de si mesma para morrer sozinha de si. A morte é uma atitude bíblica. E é sem história discursiva: ela é um instante. Morrer-se de uma vez só. A parada do coração não dura nada. É a mais ínfima fração de um segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto escrevo pingam os minutos irreversíveis. É o Tempo passando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu penso alto. Quem me ouve? Olho para a cara da pessoa e vejo: ela vai morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu quase já sei como será depois de minha morte. A sala vazia o cachorro a ponto de morrer de saudade. Os vitrais de minha casa. Tudo vazio e calmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Um sopro de vida&lt;/span&gt; (1977/78). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1999, pp. 148-156.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-3122138092739313381?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/3122138092739313381/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=3122138092739313381' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3122138092739313381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3122138092739313381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/11/um-sopro-de-vida-ii.html' title='Um sopro de vida (II)'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-bMCtFknL4nY/TrHIIQMbjlI/AAAAAAAABlM/Ukr-35iHTxA/s72-c/Clarice%2BLispector%2B11.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1089267970196230663</id><published>2011-11-02T15:09:00.000-07:00</published><updated>2011-11-02T15:28:11.263-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Baudelaire'/><title type='text'>Uma carniça</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-2AWCAj1lD_I/TrHB3ZvcFlI/AAAAAAAABlA/ZX4YrMCJzIA/s1600/les.gif"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 230px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-2AWCAj1lD_I/TrHB3ZvcFlI/AAAAAAAABlA/ZX4YrMCJzIA/s320/les.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5670526563382990418" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos&lt;br /&gt;Numa bela manhã radiante:&lt;br /&gt;Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,&lt;br /&gt;Uma carniça repugnante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pernas para cima, qual mulher lasciva,&lt;br /&gt;A transpirar miasmas e humores,&lt;br /&gt;Eis que as abria desleixada e repulsiva,&lt;br /&gt;O ventre prenhe de livores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ardia o sol naquela pútrida torpeza,&lt;br /&gt;Como a cozê-la em rubra pira&lt;br /&gt;E para ao cêntuplo volver à Natureza&lt;br /&gt;Tudo o que ali ela reunira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça&lt;br /&gt;Como uma flor a se entreabrir.&lt;br /&gt;O fedor era tal que sobre a relva escassa&lt;br /&gt;Chegaste quase a sucumbir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,&lt;br /&gt;Dali saíam negros bandos&lt;br /&gt;De larvas, a escorrer como um líquido grosso&lt;br /&gt;Por entre esses trapos nefandos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,&lt;br /&gt;Ou esguichava a borbulhar,&lt;br /&gt;Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,&lt;br /&gt;Vivesse a se multiplicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esse mundo emitia uma bulha esquisita,&lt;br /&gt;Como vento ou água corrente,&lt;br /&gt;Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita&lt;br /&gt;E à joeira deita novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As formas fluíam como um sonho além da vista,&lt;br /&gt;Um frouxo esboço em agonia,&lt;br /&gt;Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista&lt;br /&gt;Apenas de memória um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por trás das rochas irrequieta, uma cadela&lt;br /&gt;Em nós fixava o olho zangado,&lt;br /&gt;Aguardando o momento de reaver àquela&lt;br /&gt;Náusea carniça o seu bocado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pois hás de ser como essa infâmia apodrecida,&lt;br /&gt;Essa medonha corrupção,&lt;br /&gt;Estrela de meus olhos, sol de minha vida,&lt;br /&gt;Tu, meu anjo e minha paixão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim! tal serás um dia, ó deusa da beleza,&lt;br /&gt;Após a benção derradeira,&lt;br /&gt;Quando, sob a erva e as florações da natureza,&lt;br /&gt;Tornares afinal à poeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, querida, dize à carne que se arruína,&lt;br /&gt;Ao verme que te beija o rosto,&lt;br /&gt;Que eu preservei a forma e a substância divina&lt;br /&gt;De meu amor já decomposto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;BAUDELAIRE, Charles (1821-1867). Une charogne. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Les fleurs du mal&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;. Trad. de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p.172.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto original:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Une charogne&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="postbody"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Rappelez-vous l'objet que nous vîmes, mon âme,&lt;br /&gt;Ce beau matin d'été si doux:&lt;br /&gt;Au détour d'un sentier une charogne infâme&lt;br /&gt;Sur un lit semé de cailloux,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Les jambes en l'air, comme une femme lubrique,&lt;br /&gt;Brûlante et suant les poisons,&lt;br /&gt;Ouvrait d'une façon nonchalante et cynique&lt;br /&gt;Son ventre plein d'exhalaisons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Le soleil rayonnait sur cette pourriture,&lt;br /&gt;Comme afin de la cuire à point,&lt;br /&gt;Et de rendre au centuple à la grande Nature&lt;br /&gt;Tout ce qu'ensemble elle avait joint;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Et le ciel regardait la carcasse superbe&lt;br /&gt;Comme une fleur s'épanouir.&lt;br /&gt;La puanteur était si forte, que sur l'herbe&lt;br /&gt;Vous crûtes vous évanouir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Les mouches bourdonnaient sur ce ventre putride,&lt;br /&gt;D'où sortaient de noirs bataillons&lt;br /&gt;De larves, qui coulaient comme un épais liquide&lt;br /&gt;Le long de ces vivants haillons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tout cela descendait, montait comme une vague&lt;br /&gt;Ou s'élançait en pétillant;&lt;br /&gt;On eût dit que le corps, enflé d'un souffle vague,&lt;br /&gt;Vivait en se multipliant.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Et ce monde rendait une étrange musique,&lt;br /&gt;Comme l'eau courante et le vent,&lt;br /&gt;Ou le grain qu'un vanneur d'un mouvement rythmique&lt;br /&gt;Agite et tourne dans son van.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Les formes s'effaçaient et n'étaient plus qu'un rêve,&lt;br /&gt;Une ébauche lente à venir&lt;br /&gt;Sur la toile oubliée, et que l'artiste achève&lt;br /&gt;Seulement par le souvenir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Derrière les rochers une chienne inquiète&lt;br /&gt;Nous regardait d'un oeil fâché,&lt;br /&gt;Epiant le moment de reprendre au squelette&lt;br /&gt;Le morceau qu'elle avait lâché.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,&lt;br /&gt;À cette horrible infection,&lt;br /&gt;Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,&lt;br /&gt;Vous, mon ange et ma passion!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oui! telle vous serez, ô la reine des grâces,&lt;br /&gt;Après les derniers sacrements,&lt;br /&gt;Quand vous irez, sous l'herbe et les floraisons grasses,&lt;br /&gt;Moisir parmi les ossements.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alors, ô ma beauté! dites à la vermine&lt;br /&gt;Qui vous mangera de baisers,&lt;br /&gt;Que j'ai gardé la forme et l'essence divine&lt;br /&gt;De mes amours décomposés!&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1089267970196230663?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1089267970196230663/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1089267970196230663' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1089267970196230663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1089267970196230663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/11/uma-carnica.html' title='Uma carniça'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-2AWCAj1lD_I/TrHB3ZvcFlI/AAAAAAAABlA/ZX4YrMCJzIA/s72-c/les.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4854324602637685532</id><published>2011-10-30T14:54:00.000-07:00</published><updated>2011-10-30T15:10:27.176-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Um sopro de vida</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-gDQo-aYEHCg/Tq3LNfBDNKI/AAAAAAAABkw/nXTNr65puZQ/s1600/Um%2Bsopro%2Bde%2Bvida.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-gDQo-aYEHCg/Tq3LNfBDNKI/AAAAAAAABkw/nXTNr65puZQ/s320/Um%2Bsopro%2Bde%2Bvida.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5669410938453963938" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Eu queria um modo de escrever delicadíssimo, esquizoide, esquivo verdadeiro que me revelasse a mim mesmo a face sem rugas da eternidade. Obcecado pelo desejo de ser feliz eu perdi minha vida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Movi-me com uma tensão de arco e flecha numa irrealidade de desejos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz um dia muito bonito. Chove uma chuva muito fina, o céu está escuro e o mar revoltado. As almas esvoaçam no cemitério, os vampiros estão soltos, os morcegos encolhidos nas cavernas. Aconchego de mistério e terror. Se de repente o sol aparecesse eu daria um grito de pasmo e um mundo desabaria e nem daria tempo de todos fugirem da claridade. Os seres que se alimentam das trevas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só me interessa escrever quando eu me surpreendo com o que escrevo. Eu prescindo da realidade porque posso ter tudo através do pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A realidade não me surpreende. Mas não é verdade; de repente tenho uma tal fome de "coisa acontecer mesmo" que mordo num grito a realidade com os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego em viver da imaginação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palavra é o dejeto do pensamento. Cintila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada livro é sangue, é pus, é excremento, é coração retalhado, é nervos fragmentados, é choque elétrico, é sangue coagulado escorrendo como lava fervendo pela montanha abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Um sopro de vida &lt;/span&gt;(1977/78). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 89, 90, 91, 95, 96.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4854324602637685532?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4854324602637685532/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4854324602637685532' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4854324602637685532'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4854324602637685532'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/um-sopro-de-vida.html' title='Um sopro de vida'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-gDQo-aYEHCg/Tq3LNfBDNKI/AAAAAAAABkw/nXTNr65puZQ/s72-c/Um%2Bsopro%2Bde%2Bvida.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5658726899001941653</id><published>2011-10-29T06:09:00.000-07:00</published><updated>2011-10-29T06:44:36.599-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Charles Bukowski'/><title type='text'>Ao Sul de Lugar Nenhum (II)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-UHuJ-HpG6zc/TqwDH2hK1zI/AAAAAAAABkk/udcx65jM0Qs/s1600/charles.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-UHuJ-HpG6zc/TqwDH2hK1zI/AAAAAAAABkk/udcx65jM0Qs/s320/charles.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5668909464381216562" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Bem, Lou não estava mentindo. Fiquei sem vê-lo por algum tempo, inclusive nos finais de semana, e, enquanto isso, eu atravessava uma espécie de inferno pessoal. Estava muito nervoso, atacado dos nervos: um barulhinho qualquer e eu saltava de susto. Eu tinha medo de ir dormir: pesadelo depois de pesadelo, cada um mais terrível do que o anterior. Ficava tudo bem se eu fosse dormir completamente bêbado, aí não acontecia nada, mas se fosse dormir meio bêbado, ou, pior ainda, sóbrio, então os sonhos começavam, sem falar que eu nunca tinha certeza se estava dormindo ou se as coisas estavam acontecendo dentro do quarto, porque, quando dormia, sonhava com o quarto inteiro, os pratos sujos, os ratos, as paredes que se enrugavam por causa da umidade, as calcinhas carimbadas que alguma puta deixou no chão, a torneira vazando, a lua como um projétil lá fora, carros cheios de pessoas sóbrias e bem-alimentadas, faróis brilhando pela janela, tudo, tudo aquilo, e eu em alguma espécie de canto escuro, suando, na escuridão e na sujeira, em meio ao fedor da realidade, o fedor de tudo: aranhas, olhos, senhorias, calçadas, bares, prédios, grama, a ausência de grama, nada daquilo pertencia a você. Os elefantes cor-de-rosa nunca apareciam, mas sim diversos homenzinhos com gestos selvagens ou então um homem enorme e aterrador, que vem estrangulá-lo ou afundar seus dentes na parte de trás do seu pescoço, você deitado de costas chafurdando em seu próprio suor, incapaz de se mover, essa coisa preta, fedorenta e cabeluda está parada ali, em cima de você, em você, em você.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Quando não era isso, era eu ficar sentado durante dias, horas de medo incomunicável, o medo se abrindo no meio do peito como um grande botão em flor, não se podia analisar o que estava acontecendo, imaginar o porquê de tudo aquilo, o que tornava as coisas ainda piores. Horas sentado em uma cadeira no meio de um quarto passam rápidas e impactantes. Cagar ou mijar são esforços tremendos, sem sentido; pentear o cabelo ou escovar os dentes: atos ridículos ou insanos. Cruzar um mar de chamas. Ou servir água em um copo para beber: parece que você não tem direito mesmo a um ato simples como esse. Decidi que estava louco, imprestável, e isso fez com que eu me sentisse sujo. Fui à biblioteca e tentei encontrar livros sobre o que fazia com que as pessoas se sentissem do jeito que eu estava me sentindo, mas os livros não estavam lá, ou, se estavam, eu não podia compreendê-los. Ir até a biblioteca não era nada fácil: todos pareciam tão confortáveis, os bibliotecários, os leitores, todos menos eu. Tive dificuldade até mesmo para usar o banheiro da biblioteca... os vagabundos lá dentro, as bichas me olhando mijar, todos pareciam mais fortes do que eu... despreocupados e seguros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A perspectiva do suicídio estava sempre presente, forte, como formigas correndo pelas veias dos pulsos. Suicídio era a única coisa positiva. Todo o resto era negativo. E havia o Lou, feliz, limpando o interior de máquinas de fazer doces para continuar vivo. Ele era mais sábio do que eu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Charles Bukowski, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ao Sul de Lugar Nenhum&lt;/span&gt;: &lt;span style="font-size:85%;"&gt;histórias da vida subterrânea&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1973). Porto Alegre, L&amp;amp;PM, 2011, p. 181-183.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5658726899001941653?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5658726899001941653/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5658726899001941653' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5658726899001941653'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5658726899001941653'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/ao-sul-de-lugar-nenhum-ii.html' title='Ao Sul de Lugar Nenhum (II)'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-UHuJ-HpG6zc/TqwDH2hK1zI/AAAAAAAABkk/udcx65jM0Qs/s72-c/charles.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1202574164013523900</id><published>2011-10-23T13:44:00.000-07:00</published><updated>2011-10-23T14:45:20.220-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Primeiro aluno da classe</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-umy1kkmPREM/TqR-KLjPxoI/AAAAAAAABkY/_CIgovKEnm8/s1600/para%2Bn%25C3%25A3o%2Besquecer.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 304px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-umy1kkmPREM/TqR-KLjPxoI/AAAAAAAABkY/_CIgovKEnm8/s320/para%2Bn%25C3%25A3o%2Besquecer.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5666792944503342722" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Seu segredo é um caracol. O cabelo é bem cortado, os olhos são delicados e atentos. Sua cortês carne de nove anos ainda é transparente. É de uma polidez inata: pega nas coisas sem quebrá-las. Empresta livros para os colegas, ensina a quem lhe pede, não se impacienta com a régua e o esquadro, quando há tanto aluno desvairado. Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante. Seu segredo é um caracol que o sustenta. Ele o cria numa caixa de sapato com gentileza e cuidado. Com gentileza diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com cuidado adia-lhe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com insônia e precisão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Para não esquecer &lt;/span&gt;(1978). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 85&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1202574164013523900?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1202574164013523900/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1202574164013523900' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1202574164013523900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1202574164013523900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/primeiro-aluno-da-classe.html' title='Primeiro aluno da classe'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-umy1kkmPREM/TqR-KLjPxoI/AAAAAAAABkY/_CIgovKEnm8/s72-c/para%2Bn%25C3%25A3o%2Besquecer.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2142173849093564281</id><published>2011-10-21T19:18:00.000-07:00</published><updated>2011-10-23T13:40:44.538-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Reconstituição de uma dama</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-L-UKPNI2_aA/TqIrc3dCfYI/AAAAAAAABkM/npvBdPdwWmY/s1600/PARA-N%25C3%2583O-ESQUECER-2010.JPG"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 150px; height: 225px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-L-UKPNI2_aA/TqIrc3dCfYI/AAAAAAAABkM/npvBdPdwWmY/s320/PARA-N%25C3%2583O-ESQUECER-2010.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5666139056107584898" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Nascida no castelo de la Possonnière, no vale do Loire. As pregas na cintura alta, os longos cabelos pouco lavados. Fiava linho. Os bosques do castelo. A lua verde como uma emboscada. Os rouxinóis e o poço. A voz cantando fina. O grande território dividia-se em regiões militares; avermelhados pelo vento os servos escovavam os cavalos. As grandes chaves de ferro. O vento soprava, e na sombra o leito branco. Os cães no pátio: quinze ladravam. O ferreiro e as forjas, fole e bigorna, as forjas martelando. Aproximava-se o galopar com poeira, apeavam. Em torno do poço, ao vento, em guirlandas, as margaridas. Cobre, prata. O tio bispo. A taça de ouro. A visita do diretor espiritual; as mãos cruzadas no regaço. Sua época foi sua vida. Extinta no ano de 1513, sepulta na capela do bosque; cem anos depois os ossos foram transladados, e depois de novo transladados. Até que dela ficou o castelo em que viveu e a bela região do Loire. E no museu &lt;span style="font-style: italic;"&gt;obra de anônimo séc. XVI&lt;/span&gt;, vaso que um dia pintara, dado ao estudo da arte decorativa de seu tempo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Para não esquecer &lt;/span&gt;(1978).&lt;span style="font-size:85%;"&gt; Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 38.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2142173849093564281?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2142173849093564281/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2142173849093564281' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2142173849093564281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2142173849093564281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/reconstituicao-de-uma-dama.html' title='Reconstituição de uma dama'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-L-UKPNI2_aA/TqIrc3dCfYI/AAAAAAAABkM/npvBdPdwWmY/s72-c/PARA-N%25C3%2583O-ESQUECER-2010.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-7945973116746268981</id><published>2011-10-21T19:04:00.001-07:00</published><updated>2011-10-21T19:50:31.655-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Charles Bukowski'/><title type='text'>Ao Sul de Lugar Nenhum</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-nVnMDGWrAPg/TqInXueNUEI/AAAAAAAABkA/oYTEO478yK8/s1600/sul.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-nVnMDGWrAPg/TqInXueNUEI/AAAAAAAABkA/oYTEO478yK8/s320/sul.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5666134569750712386" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Terminamos o café da manhã e demos um passeio pelos arredores. Todo o lugar não tinha mais de cinco ou seis quarteirões. Todo mundo tinha dezessete anos de idade. Ficavam sentados indiferentes e esperavam. Nem todos. Havia alguns turistas, velhos, determinados a aproveitar suas férias. Espiavam ferozmente as vitrines das lojas e caminhavam, batendo os pés contra o pavimento, emitindo raios que anunciavam: tenho dinheiro, temos dinheiro, temos mais dinheiro do que vocês, somos melhores do que vocês, nada nos preocupa, tudo está uma merda, mas nós estamos bem e sabemos como funcionam as coisas, olhem para nós.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com suas camisas rosas e verdes e azuis e corpos brancos e simétricos apodrecendo e calções listrados, olhos esvaziados de olhar, bocas desbocadas, caminhavam por aí, cheios de cor, como se cores pudessem ressuscitar a morte e transformá-la em vida. Eles eram uma espécie de carnaval da decadência americana, um desfile, e não faziam ideia da atrocidade que infligiam a si mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Bukowski, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ao Sul de Lugar Nenhum&lt;/span&gt;: histórias da vida subterrânea (1973). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto Alegre: L&amp;amp;PM, 2011, p. 165-6.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-7945973116746268981?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/7945973116746268981/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=7945973116746268981' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7945973116746268981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7945973116746268981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/ao-sul-de-lugar-nenhum.html' title='Ao Sul de Lugar Nenhum'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-nVnMDGWrAPg/TqInXueNUEI/AAAAAAAABkA/oYTEO478yK8/s72-c/sul.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-7293496098605235659</id><published>2011-10-18T04:31:00.000-07:00</published><updated>2011-10-18T04:41:13.310-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Felicidade</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-iAe--ANJf4I/Tp1kM8YDBhI/AAAAAAAABj0/cmwOFGwEXO8/s1600/70%2BFelicidade.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-iAe--ANJf4I/Tp1kM8YDBhI/AAAAAAAABj0/cmwOFGwEXO8/s320/70%2BFelicidade.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5664794079830148626" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ela se chama Das Dores.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Na verdade Das Dores é como as pessoas a chamam, não sei se é nome, sobrenome ou apelido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está agora debruçada na pia enxaguando os pratos e talheres do almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É noite. Não deu para lavar antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é sexta-feira. Jorge vai chegar daqui a pouco e ela está muito feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das Dores está feliz todos os dias, eu não consigo entender por quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua casa é pequena e simples. Não tem máquina de lavar, mas o Jorge disse que vai comprar uma das grandes para ela, assim que ele terminar de pagar a televisão. Ela disse a ele não precisa, Jorge, aqui é pouca roupa, eu dou conta, mas o Jorge insistiu e ela disse tudo bem, então.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;E sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das Dores sorri muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lava os pratos e talheres sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A água sai pouca da torneira, porque eles moram no alto de um morro e a pressão é fraca, não tem jeito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Das Dores é jovem, não tem nem trinta anos, mas parece que tem mais. Peitos caídos, cabelo ensebado, pele encardida, está um pouco acima do peso, mas quando ela se olha no espelho do guarda-roupa, acha-se bonita. Jorge gosta. Até elogia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Toda sexta-feira ela prepara um jantar especial para ela e o Jorge. Ele traz um vinho tinto suave, docinho, do jeito que ela gosta. Semana passada ele comprou duas taças no supermercado e fez uma surpresa para ela: encheu-as de vinho e foi até o quarto, enquanto ela se penteava, levando também, além do vinho, um prato com petiscos (salsicha, queijo e azeitona). Ela disse que loucura, Jorge, você gastou dinheiro com esses copos chiques, não precisava, mas o Jorge nem ligou. Foi logo beijando a sua boca, e os dois se jogaram na cama.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Toda sexta-feira eles fazem amor. É muito bom, ela gosta do Jorge, ele é carinhoso e fala que ela é bonita. Nunca foram a um motel, mas o Jorge disse que um dia vai levá-la, e ela fica imaginando como deve ser.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela está agora preparando a lasanha para o jantar. É o prato que o Jorge mais gosta, e ela também.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje ela decidiu colocar um pouco mais de presunto na lasanha (na verdade, não é presunto, mas algo parecido, mais barato. Só que, para ela, é tudo a mesma coisa, então ela prefere chamar de presunto, que é uma palavra mais bonita. Presuuunnnto, ela gosta de dizer baixinho, sorrindo, quando volta para casa com as compras).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O molho está ótimo, ela pensa, enquanto prepara a lasanha ouvindo “A Hora do Brasil”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Daqui a pouco o Jorge chega e os dois vão tomar banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela ensaboa o Jorge toda sexta-feira, para tirar o cheiro que fica grudado na pele dele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É que o Jorge trabalha no serviço de limpeza urbana, recolhendo os lixos das casas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Jorge também é jovem, tem trinta e um anos, mas gosta de se cuidar, por isso parece ser mais novo do que Das Dores, que é um pouco desleixada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele é musculoso de tanto levantar sacos de lixo e correr atrás do caminhão da limpeza pela cidade, mas seu cheiro não é bom, por isso ela faz questão de ensaboá-lo na sexta-feira e de passar bastante loção no seu corpo, porque é o dia deles jantarem juntos e fazerem amor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela prefere “fazer amor”, não gosta das palavras que o Jorge usa quando estão na cama, vou te comer, vamos trepar, coisas assim, de animal.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Das Dores não entende nada do que ela ouve na “Hora do Brasil”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sabe dos gastos milionários do Governo com estádios de futebol, enquanto os professores estão em greve.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Das Dores nem pensa no seu trabalho, que recomeça segunda-feira, pregando solas de sapatos, milhares de solas, nada além de solas, solas, solas e mais solas, o dia inteiro, até o crepúsculo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Ela gosta da palavra crepúsculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela leu isso em algum lugar e sua amiga Josefa lhe explicou o que era: Pôr-do-sol.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Ficou boba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois disso, ao sair da fábrica de sapatos, ela trocou seu trajeto só para passar por uma rua que lhe permitia ver o pôr-do-sol.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;E ela parava e admirava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela gosta das cores do crepúsculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela está agora olhando pela janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noite estrelada, muito calor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuta alguns tiros lá embaixo, mas nem liga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensa em nada, vive o instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Das Dores estudou na escola pública do bairro, aprendeu a ler, mas não entende quase nada do que lê, somente avisos bem simples como Cuidado: chão molhado, Caixa fechado, Seja bem-vindo à Casa do Senhor, etc. Uma vez tentou ler o resumo de uma novela, mas só entendeu algumas palavras isoladas, que ela guardou na memória: luxo, praia, motel, patife, vagabunda, aborto, drogas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Jorge estudou mais tempo que Das Dores, em uma escola pública melhor. Jorge até pega livro na Biblioteca. Das Dores fica impressionada com a inteligência do Jorge. Ele é esperto, sabe das coisas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Jorge tem até uma caixa de papelão onde guarda os livros que ele encontra no lixo, a maioria com um título que Das Dores acha muito estranho: TEX. O cheiro dos livros é que não é bom, mas Das Dores nem liga, porque ela adora ver o Jorge feliz, e quando ele pega um desses livrinhos para ler, ele parece muito feliz.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Jorge chega com o vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E a surpresa da noite é que o vinho não é de uva, mas de pêssego, fruta que Das Dores nunca experimentou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Das Dores sorri e abraça Jorge com carinho. O cheiro dele não está nada bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomam banho, fazem amor e Das Dores, com uma taça de vinho de pêssego na mão, coloca a lasanha para assar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(Na verdade não é bem um vinho, mas para Das Dores isso não importa).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Jorge liga o rádio e fica olhando as luzes do morro pela janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro tiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se assusta, vira para Das Dores e os dois começam a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você está tão bonita hoje, Das Dores, ele diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você também, Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que já entendi por que Das Dores está feliz todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-7293496098605235659?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/7293496098605235659/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=7293496098605235659' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7293496098605235659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7293496098605235659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/felicidade.html' title='Felicidade'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-iAe--ANJf4I/Tp1kM8YDBhI/AAAAAAAABj0/cmwOFGwEXO8/s72-c/70%2BFelicidade.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2180946386367197734</id><published>2011-10-07T11:35:00.001-07:00</published><updated>2011-10-07T11:53:34.433-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Onde estivestes de noite</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-5akt1vJUmP4/To9KefvHgdI/AAAAAAAABjs/gMDntPHIWro/s1600/onde2.JPG"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 150px; height: 225px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-5akt1vJUmP4/To9KefvHgdI/AAAAAAAABjs/gMDntPHIWro/s320/onde2.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5660825144403657170" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir. Em pleno dia era noite, e essa coisa que não quero ainda definir é uma luz tranquila dentro de mim, e a ela chamariam de alegria, alegria mansa. Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase paupável do que era antes um órgão banhado da escuridão da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor. Mas como é que me arrumo com essa simples e tranquila alegria. É que não estou habituada a não precisar de meu próprio consolo. A palavra consolo aconteceu sem eu sentir, e eu não notei, e quando fui procurá-la, ela já se havia transformado em carne e espírito, já não existia mais como pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou então à janela, está chovendo muito. Por hábito estou procurando na chuva o que em outro momento me serviria de consolo. Mas não tenho dor a consolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, eu sei. Estou agora procurando na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça a agudez da dor. Mas é inútil a procura. Estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir. Quanto durará esse meu estado? Percebo que, com esta pergunta, estou apalpando meu pulso para sentir onde estará o latejar dolorido de antes. E vejo que não há o latejar da dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva. E eu não estou agradecendo nada. Não tivesse eu, logo depois de nascer, tomado involuntária e forçadamente o caminho que tomei - e teria sido sempre o que realmente estou sendo: uma camponesa que está num campo onde chove. Nem sequer agradecendo ao Deus ou à natureza. A chuva também não agradece nada. Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva. Talvez seja isso ao que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo de uma alegria mansa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Onde estivestes de noite &lt;/span&gt;(1974). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 86-7.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2180946386367197734?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2180946386367197734/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2180946386367197734' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2180946386367197734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2180946386367197734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/onde-estivestes-de-noite.html' title='Onde estivestes de noite'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-5akt1vJUmP4/To9KefvHgdI/AAAAAAAABjs/gMDntPHIWro/s72-c/onde2.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4044699309357461923</id><published>2011-10-04T07:49:00.000-07:00</published><updated>2011-10-04T08:00:04.706-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A Via Crucis do corpo (II)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-1fsdq8iBJKE/TosfD3rohtI/AAAAAAAABjk/Gb9QVWQYbHA/s1600/via.jpeg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 280px; height: 280px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-1fsdq8iBJKE/TosfD3rohtI/AAAAAAAABjk/Gb9QVWQYbHA/s320/via.jpeg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5659651508068189906" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Pois a filha teve gangrena na perna e tiveram que amputá-la. Essa Jandira, de dezessete anos, fogosa que nem potro novo e de cabelos belos, estava noiva. Mal o noivo viu a figura de muletas, toda alegre, alegria que ele não percebeu que era patética, pois bem, o noivo teve coragem de simplesmente desmanchar sem remorso o noivado, que aleijada ele não queria. Todos, inclusive a mãe sofrida da moça, imploraram ao noivo que fingisse ainda amá-la, o que - diziam-lhe - não era tão penoso porque seria a curto prazo: é que a noiva tinha vida a curto prazo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;E daí a três meses - como se cumprisse promessa de não pesar nas débeis ideias do noivo - daí a três meses morreu, linda, de cabelos soltos, inconsolável, com saudade do noivo, e assustada com a morte como criança tem medo do escuro: a morte é de grande escuridão. Ou talvez não. Não sei como é, ainda não morri, e depois de morrer nem saberei. Quem sabe se não tão escura. Quem sabe se é um deslumbramento. A morte, quero dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Via Crucis do corpo&lt;/span&gt; (1974). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 57-8.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4044699309357461923?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4044699309357461923/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4044699309357461923' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4044699309357461923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4044699309357461923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/via-crucis-do-corpo-ii.html' title='A Via Crucis do corpo (II)'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-1fsdq8iBJKE/TosfD3rohtI/AAAAAAAABjk/Gb9QVWQYbHA/s72-c/via.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4898584235261688993</id><published>2011-10-03T07:22:00.000-07:00</published><updated>2011-10-03T07:32:43.830-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A Via Crucis do corpo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-UZ6zEvYoIfM/TonG8_oVxkI/AAAAAAAABjc/cwGhGgr1QeQ/s1600/A%2BVia%2BCrucis%2Bdo%2BCorpo.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-UZ6zEvYoIfM/TonG8_oVxkI/AAAAAAAABjc/cwGhGgr1QeQ/s320/A%2BVia%2BCrucis%2Bdo%2BCorpo.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5659273157942822466" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ele chorou um pouco. Era um belo homem, com barba por fazer e abatidíssimo. Via-se que havia fracassado. Como todos nós. Ele me perguntou se podia ler para mim um poema. Eu disse que queria ouvir. Ele abriu uma sacola, tirou de dentro um caderno grosso, pôs-se a rir, ao abrir as folhas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Então leu o poema. Era simplesmente uma beleza. Misturava palavrões com as maiores delicadezas. Oh Cláudio - tinha eu vontade de gritar - nós todos somos fracassados, nós todos vamos morrer um dia! Quem? mas quem pode dizer com sinceridade que se realizou na vida? O sucesso é uma mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei fumando. Meu cachorro no escuro me olhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso foi ontem, sábado. Hoje é domingo, 12 de maio, Dia das mães. Como é que posso ser mãe para este homem? pergunto-me e não há resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há resposta para nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui me deitar. Eu tinha morrido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Via Crucis do corpo&lt;/span&gt; (1974). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 38 e 40.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4898584235261688993?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4898584235261688993/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4898584235261688993' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4898584235261688993'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4898584235261688993'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/via-crucis-do-corpo.html' title='A Via Crucis do corpo'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-UZ6zEvYoIfM/TonG8_oVxkI/AAAAAAAABjc/cwGhGgr1QeQ/s72-c/A%2BVia%2BCrucis%2Bdo%2BCorpo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-586863908599454381</id><published>2011-10-01T15:59:00.000-07:00</published><updated>2011-10-01T17:39:07.578-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A cidade sitiada</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-9SP6ZqEbZUQ/ToeyXflyH1I/AAAAAAAABjU/0tVuPfdxSio/s1600/A_CIDADE_SITIADA_1231783114P.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 308px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-9SP6ZqEbZUQ/ToeyXflyH1I/AAAAAAAABjU/0tVuPfdxSio/s320/A_CIDADE_SITIADA_1231783114P.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5658687573501026130" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ah, se Ana visse como S. Geraldo progredia! Já então Lucrécia tentava gostar daquelas mudanças, com medo de perder pé na cidade e de não alcançá-la mais. Comiam em silêncio. A esposa insinuante lisonjeando-o e lisonjeando servilmente as coisas: está bom, hem? Mateus Correia respondia ofendido: naturalmente, ora! O que a emudecia, fazendo-a mesmo corar. Tentava de outro modo então:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;- Até que não gostamos de jantar fora, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso pode ser você, eu não! respondeu ele sarcástico, humilhado. Não gostar, destruiria a ordem superior? O marido dava-lhe mesmo a entender que ele indo só ao restaurante tudo era diferente, convencendo-a de tal forma que parecia a Lucrécia bastar sua presença para que as coisas se camuflassem: sofrendo, ela interrompia: olha uma estrela cadente! dizia bajulando-o, e era mentira, quem sabe por quê. De volta, na cidade escura, como era tempestuosa e quente a felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse tempo de felicidade vivia cheia de pequenas rugas se formando, acompanhando modas em figurinos franceses, misturada a essa poeirenta época que aspirava com sufocação à posteridade - enquanto se usavam formas úteis de pensamentos: "na teoria é ótimo mas na prática falha", dizia-se muito, e à luz de um poste passava o carro em disparada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, à tardinha, finalmente cessara a miúda chuva de duas semanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade próspera rutilava. Nas calçadas alguns homens ergueram caras indecisas: o céu estava claro, quase verde, quase neutro... E sob a agudez do incolor elevavam-se os modestos telhados de S. Geraldo. Por um instante raro, às derradeiras gotas iluminadas da chuva, a cidade estava unânime. Pessoas olhavam a piscar, reconhecendo a constância das coisas. Os rostos espantados como se tivessem sido avisados de que a hora chegara. De voltar as costas à cidade madura, e ir para sempre embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também se empregava muito a palavra "sociedade", naqueles tempos. "A sociedade exige tudo e não dá nada, o senhor não acha?", dizia-se muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A sociedade exige tudo e não dá nada, disse Mateus no sábado de manhã, no meio da conversa que ambos pareciam procurar há tanto tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato gostariam de enfim se defrontar. E quando por acaso começaram a falar de maridos traírem esposas, os dois agarraram-se com reconhecimento à oportunidade. Ela se acomodou com a costura no regaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é considerado nenhum crime, disse ele, assim é feita a sociedade, acrescentou com orgulho, os olhos úmidos de emoção porque ele era muito bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É sim, disse ela atenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assim é feita a sociedade, repetiu o homem com precaução. Não é crime um homem ter algum interesse pelas mulheres mas é crime a esposa se interessar por outro homem. - Como ele tinha bom senso e lógica! ambos se mantinham em torno do ponto neutro, nenhum querendo arriscar-se antes do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca desonrei o lar por mim criado, disse o marido e ambos se fitaram com receio de que ele se tivesse excedido - Mateus usara alguma palavra errada. Certo cansaço tomou-a mesmo, ela quase deslizava para uma sinceridade que tornaria insuportável a conversa superior de ambos. Fixava a toalha da mesa, alisava uma prega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca desonrei o lar criado por mim! repetiu o homem de repente muito alto, como se mudando a disposição das mesmas palavras ele próprio se ajeitasse melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que insistência, pensava a esposa. Ah, se tivesse alguém a quem contar depois, como seria verdadeira de repente e como faria mal àquele homem que ela desconhecia mas sabia como ferir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejava que o marido se interrompesse porém Mateus agora irreprimível prosseguia explicando seu caráter, seus princípios morais e qual o seu modo de tratar as mulheres - embora tudo isso não o revelasse em nenhum momento. Ela enrolava a ponta da toalha, sonhadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lucrécia, disse o marido com certa angústia, você não está ouvindo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou sim, você dizia que seria delicado com as mulheres em qualquer ocasião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, em qualquer ocasião, repetiu Mateus decepcionado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calaram-se. Ela olhava o chão sem interesse. Ele, ao contrário, excitado pela nobreza com que se descrevera, fitava avidamente as mãos, inquieto e cheio de planos para o futuro. De fato ele percebia que falar era o seu melhor modo de pensar e que era bom ser escutado por uma mulher. Procurou reatar a conversa mas Lucrécia fugia com um ar que lhe pareceu tranquilo e triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando-a Mateus teria talvez descoberto que no fundo sempre a temera. Nada havia de mais perigoso do que uma mulher fria. E Lucrécia era casta como um peixe. Pela primeira vez ele pareceu notar no rosto da esposa certo abandono sem socorro. Desviou o olhar com bondade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você, que planos tem? perguntou para agradá-la, esquecendo que os próprios ele os pensara apenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como? despertou ela, como planos? quais? que é que você está dizendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele mesmo se assustou sem saber por quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada... ora, Lucrécia, planos, programas, ora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como programas? insistia a esposa com ironia. Que é que você quer dizer com isso, você tem algum plano quanto a nós?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que planos quanto a nós?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, Mateus, você não falou em planos quanto a nós?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não era quanto a nós... quer dizer, sim, mas não sei o que você está inventando, era tudo para bem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para bem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, para bem! por que havia de ser pra mal, meu Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas quem falou em mal? estivemos então mal, falou ela estridente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não era isso... digo planos para você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ...você acha que devo ter planos separados dos seus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, por Deus, eu também tenho os meus mas você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ...separados dos meus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh, meu Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quais são os seus, Mateus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim arguido ele não saberia dizer quais eram. E olhava para a frente incomunicável, parado com teimosia no caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São os meus, disse com altivez e sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E pode-se saber por acaso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Progredir, disse afinal Mateus Correia com esforço e vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela abriu a boca e fitou-o com enorme espanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado um momento, toda a casa tomou sua posição na rua, e, vencida dentro da sala de jantar, ela disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, Mateus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não acha? animou-se ele, e, sem que ela soubesse que o marido morreria do coração, tinha receio de sua alegria. - E não pense que é coisa no ar, tenho tudo escrito na cabeça, hem? que é que você acha, hem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas do que eu disse, que diabo, Lucrécia! exclamou o lutador ferido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que eu posso saber o que você disse, murmurou cheia de cólera e desesperança...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a única vez em que se defrontaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A cidade sitiada&lt;/span&gt; (1949). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;3ª ed. Rio de janeiro: Sabiá, 1971, p. 135-139&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-586863908599454381?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/586863908599454381/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=586863908599454381' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/586863908599454381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/586863908599454381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/10/cidade-sitiada.html' title='A cidade sitiada'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-9SP6ZqEbZUQ/ToeyXflyH1I/AAAAAAAABjU/0tVuPfdxSio/s72-c/A_CIDADE_SITIADA_1231783114P.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5506171214779006200</id><published>2011-09-24T12:22:00.000-07:00</published><updated>2011-09-25T15:13:34.419-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Perto do coração selvagem (II)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-NoQN5g6_zl4/Tn44vrBOW7I/AAAAAAAABjM/9MFa3R_f8Ak/s1600/clarice02.gif"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 236px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-NoQN5g6_zl4/Tn44vrBOW7I/AAAAAAAABjM/9MFa3R_f8Ak/s320/clarice02.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5656020573676788658" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;De profundis. Deus meu eu vos espero, deus vinde a mim, deus, brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura, deus vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e deus por que não existes dentro de mim? por que me fizestes separada de ti? deus vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco e o que me resta para viver no entanto continuará intocado e inútil, por que não te apiedas de mim? que não sou nada, dai-me o que preciso, deus, dai-me o que preciso e não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamos por vós e nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por por vós...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas das profundezas como resposta, sim como resposta, avivada pelo ar que ainda penetrava no seu corpo, ergueu-se a chama queimando lúcida e pura... Das profundezas sombrias o impulso inclemente ardendo, a vida de novo se levantando informe, audaz, miserável. Um soluço seco como se a tivessem sacudindo, alegria rutilando em seu peito intensa, insuportável, oh o turbilhão, o turbilhão. Sobretudo aclarava-se aquele movimento constante no fundo do seu ser - agora crescia e vibrava. Aquele movimento de alguma coisa viva procurando libertar-se da água e respirar. Também como voar, sim como voar... andar na praia e receber o vento no rosto, os cabelos esvoaçantes, a glória sobre a montanha... Erguendo-se, erguendo-se, o corpo abrindo-se para o ar, entregando-se à palpitação cega do próprio sangue, notas cristalinas, tintilantes, faiscando na sua alma... Não havia desencanto ainda diante de seus próprios mistérios, ó Deus, Deus. Deus, vinde a mim não para me salvar, a salvação estaria em mim, mas para abafar-me com tua mão pesada, com o castigo, com a morte, porque sou impotente e medrosa em dar o pequeno golpe que transformará todo o meu corpo nesse centro que deseja respirar e que se ergue, que se ergue... o mesmo impulso da maré e da gênese, da gênese! o pequeno toque que no louco deixa viver apenas o pensamento louco, a chaga luminosa crescendo, flutuando, dominando. Oh, como se armonizava com o que pensava e como o que pensava era grandiosamente esmagadoramente fatal. Só te quero, Deus, para que me recolhas como a um cão quando tudo for de novo apenas sólido e completo, quando o movimento de emergir a cabeça das águas for apenas uma lembrança e quando dentro de mim só houver conhecimentos, que se usaram e se usam e por meio deles de novo se recebem e se dão coisas, oh Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a superfície da água, quase rompendo-a... Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existem o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Perto do coração selvagem&lt;/span&gt; (1944). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 198-202&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5506171214779006200?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5506171214779006200/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5506171214779006200' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5506171214779006200'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5506171214779006200'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/perto-do-coracao-selvagem-ii.html' title='Perto do coração selvagem (II)'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-NoQN5g6_zl4/Tn44vrBOW7I/AAAAAAAABjM/9MFa3R_f8Ak/s72-c/clarice02.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-7344382616645294695</id><published>2011-09-18T15:36:00.000-07:00</published><updated>2011-09-18T16:22:01.321-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Allen Ginsberg'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><title type='text'>Relato de um sonho</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-P2D2cUaMBPQ/TnZ18IwAoFI/AAAAAAAABjE/8pdzbPaE170/s1600/allen.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 170px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-P2D2cUaMBPQ/TnZ18IwAoFI/AAAAAAAABjE/8pdzbPaE170/s320/allen.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653836058211688530" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Uma noite bêbado na minha casa com um&lt;br /&gt;garoto, San Francisco: deitado dormindo:&lt;br /&gt;escuridão:&lt;br /&gt;                           voltei para Cidade do México&lt;br /&gt;e vi Joan Burroughs debruçada&lt;br /&gt;para a frente numa cadeira de jardim, braços&lt;br /&gt;nos joelhos. Examinou-me com&lt;br /&gt;límpidos olhos e sorriso abatido, seu&lt;br /&gt;rosto reconstituído na refinada beleza&lt;br /&gt;que a tequila e o sal haviam tornado estranha&lt;br /&gt;antes da bala em sua testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falamos sobre a vida desde então.&lt;br /&gt;Bem, o que Burroughs está fazendo agora?&lt;br /&gt;Bill na terra, ele está na África do Norte.&lt;br /&gt;Ó, e Kerouac? Jack continua por aí&lt;br /&gt;com o mesmo gênio Beat de antes,&lt;br /&gt;cadernos de anotações cheios de Buda.&lt;br /&gt;Espero que ele consiga, ela riu.&lt;br /&gt;E Hunckle, ainda está em cana? Não,&lt;br /&gt;da última vez que o vi foi em Times Square.&lt;br /&gt;E como vai Kenney? Casado, bêbado&lt;br /&gt;e cheio da grana no Leste. E você? Novos&lt;br /&gt;amores no Oeste -&lt;br /&gt;                            Então soube&lt;br /&gt;que ela era um sonho: e perguntei-lhe&lt;br /&gt;- Joan, que espécie de sabedoria têm&lt;br /&gt;os mortos? você ainda pode amar&lt;br /&gt;suas amizades mortais?&lt;br /&gt;O que você lembra de nós?&lt;br /&gt;                                                          Ela&lt;br /&gt;se apagou à minha frente - No momento seguinte&lt;br /&gt;eu vi seu túmulo encardido pela chuva&lt;br /&gt;atrás um epitáfio ilegível&lt;br /&gt;sob o ramo nodoso de uma pequena&lt;br /&gt;árvore no capim selvagem&lt;br /&gt;de um jardim abandonado no México.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allen Ginsberg (1955)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; Allen Ginsberg, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Uivo, Kaddish e outros poemas&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto Alegre: L&amp;amp;PM, 2010, p. 168-9.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-7344382616645294695?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/7344382616645294695/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=7344382616645294695' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7344382616645294695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7344382616645294695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/relato-de-um-sonho.html' title='Relato de um sonho'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-P2D2cUaMBPQ/TnZ18IwAoFI/AAAAAAAABjE/8pdzbPaE170/s72-c/allen.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-7647703173287346076</id><published>2011-09-16T07:33:00.000-07:00</published><updated>2011-09-16T08:23:08.174-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Perto do coração selvagem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-2wkA9wIUZw0/TnNpoFYUwSI/AAAAAAAABi0/r9DQM2XhLBo/s1600/perto.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 212px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-2wkA9wIUZw0/TnNpoFYUwSI/AAAAAAAABi0/r9DQM2XhLBo/s320/perto.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5652978094639989026" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Tudo o que é forma de vida procuro afastar. Tento isolar-me para encontrar a vida em si mesma. No entanto apoiei-me demais no jogo que distrai e consola e quando dele me afasto, encontro-me bruscamente sem amparo. No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante de meus olhos. Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. Se desse um grito - imagino já sem lucidez - minha voz receberia o eco igual e indiferente das paredes da terra. Sem viver coisas eu não encontrarei a vida, pois? Mas, mesmo assim, na solitude branca e ilimitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. Presa, presa. Onde está a imaginação? Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. - Sou pois um brinquedo a quem dão corda e que terminada esta não encontrará vida própria, mais profunda. Procurar tranquilamente admitir que talvez só a encontre se for buscar nas fontes pequenas. Ou senão morrerei de sede. Talvez não tenha sido feita para as águas puras e largas, mas para as pequenas e de fácil acesso. E talvez meu desejo de outra fonte, essa ânsia que me dá ao rosto um ar de quem caça para se alimentar, talvez essa ânsia seja uma ideia - e nada mais. Porém - os raros instantes que às vezes consigo de suficiência, de vida cega, de alegria tão intensa e tão serena como o canto de um órgão - esses instantes não provam que sou capaz de satisfazer minha busca e que esta é sede de todo o meu ser e não apenas uma ideia? Além do mais, a ideia é a verdade! grito-me. São raros os instantes. Quando ontem, na aula, repentinamente pensei, quase sem antecedentes, quase sem ligação com as coisas: o movimento explica a forma. A clara noção do perfeito, a liberdade súbita que senti... Naquele dia, na fazenda de titio, quando caí no rio. Antes estava fechada, opaca. Mas, quando me levantei, foi como se tivesse nascido da água. Saí molhada, a roupa colada à pele, os cabelos brilhantes, soltos. Qualquer coisa agitava-se em mim e era certamente meu corpo apenas. Mas num doce milagre tudo se torna transparente e isso certamente era minha alma também. Nesse instante eu estava verdadeiramente no meu interior e havia silêncio. Só que, meu silêncio, compreendi, era um pedaço do silêncio do campo. E eu não me sentia desamparada. O cavalo de onde eu caíra, esperava-me junto ao rio. Montei-o e voei pelas encostas que a sombra já invadia e refrescava. Freei as rédeas, passei a mão pelo pescoço latejante e quente do animal. Continuei a passo lento, escutando dentro de mim a felicidade, alta e pura como um céu de verão. Alisei meus braços, onde ainda escorria a água. Sentia o cavalo vivo perto de mim, uma continuação do meu corpo. Ambos respirávamos palpitantes e novos. Uma cor maciamente sombria deitara-se sobre as campinas mornas no último sol e a brisa leve voava devagar. É preciso que eu não esqueça, pensei, que fui feliz, que estou sendo feliz mais do que se pode ser. Mas esqueci, sempre esqueci.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Eu estava sentada na Catedral, numa espera distraída e vaga. Respirava opressa o perfume roxo e frio das imagens. E, subitamente, antes que pudesse compreender o que se passava, como um cataclisma, o órgão invisível desabrochou em sons cheios, trêmulos e puros. Sem melodia, quase sem música, quase apenas vibração. As paredes compridas e as altas abóbadas da igreja recebiam as notas e devolviam-nas sonoras, nuas, intensas. Elas traspassavam-me, entrecruzavam-se dentro de mim, enchiam meus nervos de estremecimentos, meu cérebro de sons. Eu não pensava pensamentos, porém música. Insensivelmente, sob o peso do cântico, escorreguei do banco, ajoelhei-me sem rezar, aniquilada. O órgão emudeceu com a mesma subitaneidade com que iniciara, como uma inspiração. Continuei respirando baixinho, o corpo vibrando ainda aos últimos sons que restavam no ar num zumbido quente e translúcido. E era tão perfeito o momento que eu nada temia nem agradecia e não caí na ideia de Deus. Quero morrer agora, gritava alguma coisa dentro de mim liberta, mais do que sofrendo. Qualquer instante que sucedesse àquele seria mais baixo e vazio. Queria subir e só a morte como um fim me daria o auge sem a queda. As pessoas se levantavam ao meu redor, movimentavam-se. Ergui-me, caminhei para a saída, frágil e pálida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Perto do coração selvagem&lt;/span&gt; (1944). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1998, pp. 69-72&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-7647703173287346076?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/7647703173287346076/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=7647703173287346076' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7647703173287346076'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7647703173287346076'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/perto-do-coracao-selvagem.html' title='Perto do coração selvagem'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-2wkA9wIUZw0/TnNpoFYUwSI/AAAAAAAABi0/r9DQM2XhLBo/s72-c/perto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5969581610925280960</id><published>2011-09-11T15:49:00.000-07:00</published><updated>2011-09-11T16:21:58.695-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Francês'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inglês'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Baudelaire'/><title type='text'>Le Revenant / The Ghost</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-fd0BnfbQBCA/Tm1Bs7C_TzI/AAAAAAAABis/KRsxG-vIp-M/s1600/CharlesBaudelaire.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 249px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-fd0BnfbQBCA/Tm1Bs7C_TzI/AAAAAAAABis/KRsxG-vIp-M/s320/CharlesBaudelaire.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5651245347440119602" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Le Revenant&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comme les anges à l'oeil fauve,&lt;br /&gt;Je reviendrai dans ton alcôve&lt;br /&gt;Et vers toi glisserai sans bruit&lt;br /&gt;Avec les ombres de la nuit;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Et je te donnerai, ma brune,&lt;br /&gt;Des baisers froids comme la lune&lt;br /&gt;Et des caresses de serpent&lt;br /&gt;Autour d'une fosse rampant.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quand viendra le matin livide,&lt;br /&gt;Tu trouveras ma place vide,&lt;br /&gt;Où jusqu'au soir il fera froid.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comme d'autres par la tendresse,&lt;br /&gt;Sur ta vie et sur ta jeunesse,&lt;br /&gt;Moi, je veux régner par l'effroi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Baudelaire (1821-1867), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Les Fleurs du mal&lt;/span&gt; (1857)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;The Ghost&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Like angels with wild beast's eyes&lt;br /&gt;I shall return to your bedroom&lt;br /&gt;And silently glide toward you&lt;br /&gt;With the shadows of the night;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;And, dark beauty, I shall give you&lt;br /&gt;Kisses cold as the moon&lt;br /&gt;And the caresses of a snake&lt;br /&gt;That crawls around a grave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;When the livid morning comes,&lt;br /&gt;You'll find my place empty,&lt;br /&gt;And it will be cold there till night.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I wish to hold sway over&lt;br /&gt;Your life and youth by fear,&lt;br /&gt;As others do by tenderness.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Baudelaire (1821-1867), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;The Flowers of Evil&lt;/span&gt; (1857). Trad. de William Aggeler (1954)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5969581610925280960?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5969581610925280960/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5969581610925280960' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5969581610925280960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5969581610925280960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/le-revenant-ghost.html' title='Le Revenant / The Ghost'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-fd0BnfbQBCA/Tm1Bs7C_TzI/AAAAAAAABis/KRsxG-vIp-M/s72-c/CharlesBaudelaire.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2061547976118782506</id><published>2011-09-09T20:26:00.000-07:00</published><updated>2011-09-09T20:51:39.915-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Espanhol'/><title type='text'>Las fotos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-EOWSnX4t1G8/TmreBZx6HsI/AAAAAAAABik/GDxTpWUJTfU/s1600/doce.JPG"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 208px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-EOWSnX4t1G8/TmreBZx6HsI/AAAAAAAABik/GDxTpWUJTfU/s320/doce.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5650572798171160258" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;No sólo era la primera vez que salía de Riohacha, sino una de las pocas en que salió de su casa después de que sus hijos se casaron y se fueron, y ella se quedó sola con dos indias descalzas cuidando del cuerpo sin alma de su esposo. Se le acabó la mitad de la vida en el dormitorio frente a los escombros del único hombre que había amado, y que permaneció en el letargo durante casi treinta años, tendido en la cama de sus amores juveniles sobre un colchón de cueros de chivo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;En el octubre pasado, el enfermo abrió los ojos en una ráfaga súbita de lucidez, reconoció a su gente y pidió que llamaran un fotógrafo. Llevaron al viejo del parque con el enorme aparato de fuelle y manga negra, y el platón de magnesio para las fotos domésticas. El mismo enfermo dirigió las fotos. "Una para Prudencia, por el amor y la felicidad que me dio en la vida", dijo. La tomaron con el primer fogonazo de magnesio. "Ahora otras dos para mis hijas adoradas, Prudencia y Natalia", dijo. Las tomaron. "Otras dos para mis hijos varones, ejemplos de la familia por su cariño y su buen juicio", dijo. Y así hasta que se acabó el papel y el fotógrafo tuvo que ir a su casa a reabastecerse. A las cuatro de la tarde, cuando ya no se podía respirar en el dormitorio por la humarada de magnesio y el tumulto de parientes, amigos y conocidos que acudieron a recibir sus copias del retrato, el inválido empezó a desvanecerse en la cama, y se fue despidiendo de todos con adioses de la mano, como borrándose del mundo en la baranda de un barco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Su muerte no fue para la viuda el alivio que todos esperaban. Al contrario, quedó tan afligida, que sus hijos se reunieron para preguntarle cómo podrían consolarla, y ella les contestó que no quería nada más que ir a Roma a conocer al Papa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me voy sola y con el hábito de San Francisco - les advirtió - Es una manda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Gabriel García Márquez, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Doce cuentos peregrinos&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;18ª ed., Buenos Aires: Debolsillo, 2011, p. 149-150.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2061547976118782506?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2061547976118782506/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2061547976118782506' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2061547976118782506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2061547976118782506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/las-fotos.html' title='Las fotos'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-EOWSnX4t1G8/TmreBZx6HsI/AAAAAAAABik/GDxTpWUJTfU/s72-c/doce.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-348801143233135293</id><published>2011-09-06T20:00:00.000-07:00</published><updated>2011-09-18T15:53:18.057-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Allen Ginsberg'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><title type='text'>Mescalina</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-C6C7ckYlqJQ/TmblZEp4UgI/AAAAAAAABic/0DFfi2XbJb4/s1600/ginsberg.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 223px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-C6C7ckYlqJQ/TmblZEp4UgI/AAAAAAAABic/0DFfi2XbJb4/s320/ginsberg.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5649455001491755522" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ginsberg apodrecendo, eu o olhei hoje nu no espelho&lt;br /&gt;reparei no velho crânio, estou ficando calvo&lt;br /&gt;minha cabeça brilha na luz da cozinha sob o cabelo fino&lt;br /&gt;como o crânio de algum monge nas velhas catacumbas iluminadas por um guarda com a lanterna&lt;br /&gt;seguido por um bando de turistas&lt;br /&gt;assim a morte existe&lt;br /&gt;meu gato mia e olha para dentro do armário&lt;br /&gt;Boito canta esta noite na vitrola sua antiga canção de anjos&lt;br /&gt;o busto de Antinoo na fotografia marrom ainda olhando a partir da minha parede&lt;br /&gt;uma luz jorrada das delicadas mãos de Deus manda uma pomba de madeira para a calma virgem&lt;br /&gt;o universo de Beato Angelico&lt;br /&gt;o gato ficou louco e mia arranhando o chão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que acontecerá quando o gongo da morte golpear a cabeça de ginsberg apodrecendo&lt;br /&gt;em que universo entrarei&lt;br /&gt;morte morte morte morte morte o gato sossegou&lt;br /&gt;estaremos algum dia livres - de Ginsberg apodrecendo&lt;br /&gt;Então deixa apodrecer, graças a Deus que eu sei&lt;br /&gt;graças a quem&lt;br /&gt;Graças a Ti, Ó senhor além do meu olho&lt;br /&gt;o caminho deve levar a algum lugar&lt;br /&gt;o caminho&lt;br /&gt;o caminho&lt;br /&gt;pelo cemitério dos navios que apodrecem, pelas orgias de Angelico&lt;br /&gt;Bip, emite um vagido de bebê e já se foi&lt;br /&gt;talvez seja essa a resposta, não saberia a não ser tendo um filho&lt;br /&gt;Sei lá, nunca tive um filho, nunca terei do jeito como estou indo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu deveria ser bom, deveria casar&lt;br /&gt;saber como é&lt;br /&gt;mas não aguento essas mulheres em volta de mim&lt;br /&gt;cheiro de Naomi&lt;br /&gt;bah, estou travado neste familiar ginsberg apodrecendo&lt;br /&gt;nem aguento mais os garotos&lt;br /&gt;não aguento&lt;br /&gt;não aguento&lt;br /&gt;e quem, na verdade, está a fim de tomar no cu&lt;br /&gt;Mares imensos passam sobre&lt;br /&gt;o fluir do tempo&lt;br /&gt;e quem está a fim de ser famoso e dar autógrafos como&lt;br /&gt;um astro de cinema?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero saber&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;eu quero eu quero &lt;/span&gt;ridículo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;saber&lt;/span&gt; O QUE ginsberg apodrecendo&lt;br /&gt;eu quero saber o que vai acontecer depois que eu apodrecer&lt;br /&gt;pois já estou apodrecendo&lt;br /&gt;meu cabelo está caindo eu estou barrigudo eu estou cheio de sexo&lt;br /&gt;meu cu se arrasta pelo universo eu sei demais&lt;br /&gt;e não sei o suficiente&lt;br /&gt;quero saber o que acontece depois que eu morrer&lt;br /&gt;logo descobriremos&lt;br /&gt;preciso mesmo saber agora?&lt;br /&gt;adianta alguma coisa adianta adianta&lt;br /&gt;morte morte morte morte morte&lt;br /&gt;deus deus deus deus deus deus deus o Cavaleiro Solitário&lt;br /&gt;o ritmo da máquina de escrever&lt;br /&gt;O que posso fazer Céus socando a máquina de escrever&lt;br /&gt;estou travado trocar o disco Gregory ah ótimo ele está fazendo justamente isso&lt;br /&gt;e eu estou consciente de um milhão de ouvidos&lt;br /&gt;neste momento orelhas miseráveis, fazendo qualquer negócio&lt;br /&gt;fotografias demais nos jornais&lt;br /&gt;amarelados apagados recortes de jornais&lt;br /&gt;estou saindo do poema para uma bosta contemplativa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lixo da mente&lt;br /&gt;lixo do mundo&lt;br /&gt;o homem é meio lixo&lt;br /&gt;todo o lixo do túmulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que poderá Williams estar pensando em Paterson, a morte tão nele&lt;br /&gt;tão já tão já&lt;br /&gt;Williams, o que é a morte?&lt;br /&gt;Você agora se defronta com a grande questão a cada momento&lt;br /&gt;ou você esquece no café da manhã olhando para cara do seu velho e feio amor&lt;br /&gt;estará você preparado para renascer&lt;br /&gt;para livrar-se deste mundo e entrar no céu&lt;br /&gt;ou livrar-se, livrar-se e tudo acabado - e ver uma vida -&lt;br /&gt;toda a eternidade - passada&lt;br /&gt;para o nada, um enigma proposto pela lua para a terra sem resposta&lt;br /&gt;Nenhuma Glória para o homem! Nenhuma Glória para o homem! Nenhuma glória para mim! Não para mim!&lt;br /&gt;Não adianta escrever quando o espírito não conduz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allen Ginsberg (Nova York, 1959)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allen Ginsberg, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Uivo, Kaddish e outros poemas&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto Alegre: L&amp;amp;PM, 2010, p. 133-136.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-348801143233135293?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/348801143233135293/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=348801143233135293' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/348801143233135293'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/348801143233135293'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/mescalina.html' title='Mescalina'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-C6C7ckYlqJQ/TmblZEp4UgI/AAAAAAAABic/0DFfi2XbJb4/s72-c/ginsberg.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-896695439544465900</id><published>2011-09-04T11:25:00.000-07:00</published><updated>2011-09-04T11:39:49.511-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gustavo Corção'/><title type='text'>Natal</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-nw9S5DWHwew/TmPExCJ6eFI/AAAAAAAABiU/k0FWE7zCFlU/s1600/1311257175_230703181_1-Fotos-de--LIVRO-Licoes-de-Abismo-Gustavo-Corcao.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 220px; height: 317px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-nw9S5DWHwew/TmPExCJ6eFI/AAAAAAAABiU/k0FWE7zCFlU/s320/1311257175_230703181_1-Fotos-de--LIVRO-Licoes-de-Abismo-Gustavo-Corcao.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5648574704323819602" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Chamou-me a atenção o diálogo travado à porta de uma casa de brinquedos.  A dama de azul, majestosa e autoritária, discutia com o vendedor  obsequioso, que já dava mostras de impaciência.  Passando de um para  outro, ora nas mãos profissionais do vendedor, ora nas mãos finas e  cheias de anéis da abastada freguesa, uma bonequinha preta de olho  arregalado, e com uma cestinha de bananas na cabeça, parecia alheia à  discussão:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;- É muito cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi remarcada, madame. A senhora não encontrará uma boneca destas por  menos de cem cruzeiros...  Mas se a senhora quiser temos outras bonecas  mais baratas.  Qual é o seu orçamento, madame?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dama de azul franziu ligeiramente os sobrolhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É para uma menina pobre. A filha da empregada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não podia, evidentemente, marcar em cem cruzeiros o limite de "seu  orçamento" como queria o desajeitado vendedor; assim, dizendo que era  para uma menina pobre, explicava-se melhor. Não era para ela; para filha  dela, para sobrinha dela, para alguma criança de sua espécie, dela; de  sua qualidade, de sua classe, de sua condição: era para a filha da  criada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vendedor compreendeu logo que o problema se deslocava para um novo  sistema de micro-unidades. Ninguém, evidentemente, mede em quilômetros o  diâmetro de um glóbulo de sangue, nem mede em milímetros a distância de  Sírius.  Há o mícron para o glóbulo e o ano-luz para os astros.  Tudo  tem suas dimensões, suas escalas adequadas, neste harmonioso universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o novo sistema de unidades se estabelecia entre o vendedor e a  majestosa senhora, eu olhava na vitrina um urso de astracã que comigo  jogava o sério com seus olhos parados de contas azuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Urso, amigo urso, diga-me, por favor, onde é que esconderam o menino Jesus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino Jesus estava na esquina de Assembléia com Quitanda, no colo de  uma mendiga. Ninguém desconfiava. As pessoas que passavam (Merry, merry  Christmas) não viam o menino Jesus instalado no seu nicho de miséria. E  tinham razão.  O menino Jesus escondia-se no pobre.  Amarelado,  encardido, manchado, dir-se-ia que a mendiga o tirara de uma lata de  despejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu passei, ele tentava pegar a chupeta caída nos trapos sujos da  mãe. Levava-a à boca, sem jeito, metendo os dedinhos nos lábios, de onde  corria uma saliva clara e inocente. A mãe, de braço estendido, pedia  uma esmola pelo amor de Deus. Seria mãe de verdade?  Dizem que se alugam  crianças para mendigar. A mendiga é falsa. A criança é falsa. A mãe é  falsa. E dessa falsidade todo o mundo desconfia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chupeta caía de novo e perdia-se no seio miserável.  Nesse momento,  quando eu já me afastava, o menino olhou para mim. Seus olhos pousaram  em meus olhos. Sim, lá dos abismos de sua inocência seus olhos subiram. E  o menino sorriu. Para mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo Corção, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lições de Abismo&lt;/span&gt;.&lt;span style="font-size:85%;"&gt;  Rio de Janeiro: Agir, 1958, p. 183.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-896695439544465900?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/896695439544465900/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=896695439544465900' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/896695439544465900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/896695439544465900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/natal.html' title='Natal'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-nw9S5DWHwew/TmPExCJ6eFI/AAAAAAAABiU/k0FWE7zCFlU/s72-c/1311257175_230703181_1-Fotos-de--LIVRO-Licoes-de-Abismo-Gustavo-Corcao.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2624579902400834183</id><published>2011-09-03T08:10:00.000-07:00</published><updated>2011-09-18T15:53:18.059-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Allen Ginsberg'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><title type='text'>Para tia Rose</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-BQR1VcUMsnw/TmJM4XjtBdI/AAAAAAAABiE/QrBfOm15Y8E/s1600/uivo.jpeg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 179px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-BQR1VcUMsnw/TmJM4XjtBdI/AAAAAAAABiE/QrBfOm15Y8E/s320/uivo.jpeg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5648161413956175314" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Tia Rose - agora - se eu a pudesse ver&lt;br /&gt;com seu rosto afilado e sorriso de longos dentes&lt;br /&gt;e dor&lt;br /&gt;de reumatismo - e um comprido e pesado sapato preto&lt;br /&gt;para sua ossuda perna esquerda&lt;br /&gt;coxeando pelo carpete do longo saguão de Newark&lt;br /&gt;passando pelo grande piano negro&lt;br /&gt;até a sala de visitas&lt;br /&gt;onde faziam reuniões&lt;br /&gt;e eu cantava canções legalistas espanholas&lt;br /&gt;com uma voz aguda esganiçada&lt;br /&gt;(histérico) o comitê ouvindo&lt;br /&gt;enquanto você mancava pela sala&lt;br /&gt;recolhendo o dinheiro&lt;br /&gt;Tia Honey, Tio Sam, um estranho com um braço de manga de casaco&lt;br /&gt;enfiado no bolso&lt;br /&gt;o enorme moço calvo&lt;br /&gt;da brigada Abraham Lincoln&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- sua comprida cara triste&lt;br /&gt;suas lágrimas de insatisfação sexual&lt;br /&gt;(que soluços sufocados e ancas ossudas sob os travesseiros de Osborne Terrace)&lt;br /&gt;- a vez em que fiquei sentado nu na privada&lt;br /&gt;enquanto você empoava minhas coxas com Calomine&lt;br /&gt;contra a queimadura da urtiga - meus tenros e envergonhados primeiros negros pêlos crespos&lt;br /&gt;o que você pensaria secretamente&lt;br /&gt;sabendo que eu já era homem -&lt;br /&gt;e eu a menina ignorante do silêncio familiar no delgado pedestal&lt;br /&gt;das minhas pernas no banheiro - Museu de Newark&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tia Rose&lt;br /&gt;Hitler está morto, Hitler está na Eternidade; Hitler está junto com Tamerlão e Emily Brontë&lt;br /&gt;Porém eu ainda a vejo caminhar, um fantasma em Osborne Terrace&lt;br /&gt;ao longo do saguão escuro até a porta da frente&lt;br /&gt;mancando um pouco com um sorriso cansado&lt;br /&gt;naquilo&lt;br /&gt;que deve ter sido um florido vestido de seda&lt;br /&gt;recebendo meu pai, o Poeta, na sua visita a Newark&lt;br /&gt;- vejo-a chegar à sala de visitas&lt;br /&gt;dançando em sua perna aleijada&lt;br /&gt;e batendo palmas seu livro&lt;br /&gt;havia sido aceito por Liveright&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hitler morreu e Liveright encerrou as atividades&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Sótão do Passado e Duradouro Minuto&lt;/span&gt; estão esgotados&lt;br /&gt;Tio Harry vendeu sua última meia de seda&lt;br /&gt;Claire largou a escola de dança interpretativa&lt;br /&gt;Buba está largada um monumento encarquilhado&lt;br /&gt;na Casa&lt;br /&gt;de Repouso para Senhoras Idosas piscando para bebês&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a última vez que a vi você estava no hospital&lt;br /&gt;pálido crânio emergindo da pele cinérea&lt;br /&gt;menina inconsciente com veias azuis&lt;br /&gt;numa tenda de oxigênio&lt;br /&gt;a guerra da Espanha já acabou há muito tempo&lt;br /&gt;Tia Rose&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allen Ginsberg (Paris, 1958).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allen Ginsberg (1926-1997), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Uivo&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;e outros poemas&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto Alegre: L&amp;amp;PM, 2010. p. 114-116.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2624579902400834183?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2624579902400834183/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2624579902400834183' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2624579902400834183'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2624579902400834183'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/para-tia-rose.html' title='Para tia Rose'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-BQR1VcUMsnw/TmJM4XjtBdI/AAAAAAAABiE/QrBfOm15Y8E/s72-c/uivo.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4512118110423458858</id><published>2011-09-02T12:03:00.001-07:00</published><updated>2011-09-02T13:11:50.451-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Espiritismo'/><title type='text'>Em serviço desencarnatório</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-_7If04RHirU/TmE4IHZNgTI/AAAAAAAABh8/6Q6QMnjc2qw/s1600/Luiz.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 133px; height: 150px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-_7If04RHirU/TmE4IHZNgTI/AAAAAAAABh8/6Q6QMnjc2qw/s320/Luiz.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5647857119774212402" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Andei muito ocupado, cuidando de assunto novo para mim. Estive ajudando o desencarne de uma pessoa que conheci e que ainda estava passando por uma prova. Acompanhei todo o trabalho dos irmãos mais experientes e vi muita coisa que jamais iria compreender, se estivesse encarnado. Gostaria de dar uma explicação, contar o que vi e como entendi o processo do desencarne.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doença que vitimava o irmão prendia-se a motivos cármicos e constituía uma sagrada oportunidade de resgate. O sofrimento que essa doença acarreta depura o espírito e deixa perceber a extensão de certos vícios sedimentados em suas diversas fases evolutivas, bem como os sentimentos de ira, de vingança e outras inclinações más que ainda possuímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pessoa de quem eu falo precisou ficar no corpo até que "chegasse a hora", como dizem. Há uma forte razão para assim acontecer. Nenhum irmão que o assistia pretendeu aliviar seu sofrimento antecipando sua saída do corpo. Auscultavam, davam passes, tomavam medidas de auxílio para fortalecê-lo espiritualmente. Notei que observavam atentamente o paciente. Havia sempre um irmão perto dele como se fosse enfermeiro. Cuidavam muito de seu equilíbrio mental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um dia em que não consegui conter a curiosidade e fiz a clássica pergunta que, segundo me informaram depois, todo Espírito em minhas condições costuma fazer. Quis saber por que não retiravam logo o irmão, já que não seria mais possível reconstituir-lhe o físico. O médico, pacientemente, explicou que nada deve ser feito antes do momento próprio. Se o Espírito for retirado sem o devido preparo, pode acontecer que leve grande carga doentia, o que iria dificultar sua convalescença no espaço; que seria bem melhor para ele sofrer um pouco mais no corpo, para gozar melhor e mais brevemente a libertação. Quando acontece, naturalmente por inexperiência, ser a pessoa retirada antes do momento propício, ela vai sofrer mais tempo como desencarnada. Não há vantagem, portanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Espíritos que se dedicam à assistência aos desencarnantes têm grande prática e sabem ver o momento exato do desprendimento. É o que se dá ao colhermos um fruto; sabemos quando ele está maduro. Assim acontece. Quando se aproxima a hora de ser retirado, o Espírito é avisado de que em breve deixará de sofrer. Ministram-lhe passes que lhe transmitem forças e muitos conseguem até apresentar melhoras, enganando os familiares que os rodeiam, fazendo decrescer a tensão emocional entre eles. É a coragem de que reforça o Espírito para o desligamento final. Esse desligamento é interessante de ser observado. Como ainda sou aluno e quase nada aprendi, não sei explicar de maneira mais clara ou científica como se dá o fenômeno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso que estou relatando, foi feito ao Espírito um chamamento, de modo a fazer com que se voltasse para o plano espiritual, e se manteve com ele uma conversa telepática. Não sei o que lhe disseram. Não captei. O irmão já estava cansado de sofrer e depois que entendeu a mensagem mostrou interesse em verificar quem estava presente. Conheceu um de nós e enviou pensamentos de afetividade, o que fez com que os irmãos que o observavam esboçassem um gesto de aquiescência e continuassem o trabalho. Com grande calma e aparentando saber o que faziam, continuaram apresentando imagens belas ao irmão, de acordo com suas possibilidades de apreensão e entendimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, viu-se uma luz radiosa que envolveu a todos e sons maravilhosos que vinham não sei de onde. Até perfume espalhou-se em volta. O alvo de todo esse aparato era o irmão desencarnante. Logo, formas vaporosas tornaram-se visíveis para nós, mas o irmão não as percebeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito vagarosamente, foi sendo chamado o Espírito para fora do corpo. Aos poucos foi desprendendo-se, como sai um inseto de sua casca, porém não havia abertura na casca (corpo). Saía por todos os poros, segundo parecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desligamento final aconteceu mais rápido. De repente, após um de nós ter-lhe estendido as mãos, ele se sentiu atraído e "largou" o corpo, que tombou. Não se deu conta do momento exato e final de seu desencarne, pois riu de satisfação ao nos abraçar e logo caiu na sonolência, que dizem ser natural. Foi levado para as câmaras de repouso para ser cuidado até se recuperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é bom para os espíritos recém-desencarnados ficarem largados por aí, sem alguém que deles cuide nessa fase inicial. Há perigos aos quais estão expostos e podem ser até muito maltratados. Imaginem se podíamos pensar nisso se não tivéssemos visto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O interessante é que ninguém se apercebe do que acontece e que seria possível, mesmo ao encarnado, acompanhar a fase do desencarne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada pessoa enfrenta a "morte" de maneira diferente. Porém, as fases são quase as mesmas para todos. Segundo nosso mentor, há os que são apressados, impacientes, que querem livrar-se logo do sofrimento físico e acabam carregando consigo muita mácula para expurgar depois. Há os que são mais agarrados ao plano físico e tentam ludibriar os encarregados da operação, para permanecerem mais algum tempo no corpo; estes têm sofrimento mais longo e também saem desiludidos, sem esperança e realmente cansados. Como se retiram com revolta, porque desejam ficar, então sofrem duplamente. Há os que são expelidos do corpo porque este, de repente, deixou de ter condições de servi-los, como aconteceu comigo, que não me apercebi, naquele momento, que havia desencarnado. Ainda não estudei bem o meu caso. Não quiseram tocar no assunto, porque são unânimes em achar que não há necessidade de o fazer agora. Há os que destroem o corpo e voltam em condições precaríssimas. É tão triste a situação desses Espíritos que nem tenho desejo de contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os desencarnes seguem todas as fases predeterminadas pelas leis cósmicas. Elas se aplicam independentemente da vontade de quem quer que seja, o que não impede que possam ser violadas. Como o corretivo é inerente ao engano cometido, ele se aplica em decorrência da própria violação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos nós nos enganamos muito quando estamos encarnados, sempre que vamos julgar a vida de nossos semelhantes. Lembro-me de ter ouvido falar de determinadas pessoas que eram tão boas e que, no entanto, tiveram de passar por grandes provações. Isso sempre me intrigou e eu não conseguia atinar com a sua razão. Agora, já com a visão mais ampla de nossa vida, compreendo tudo isso. De nada adianta querermos fugir da Lei, porque ela está gravada em nós. Ela se manifesta como princípio de nosso estado. Sem ela não "seríamos". Ouvimos dizer que Deus tarda, mas não falta. Deus é o Criador, portanto, é a Lei. Ele está dentro de nós, portanto, a Lei também reside em nosso interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a evolução se processa através do aperfeiçoamento da criatura em conformidade com os moldes desejados pelo Criador, as leis que regem essa evolução são simplesmente êmulos que levam o indivíduo, através do aprendizado, à conquista de graus cada vez maiores de compreensão que lhe permitam atingir os degraus evolutivos, cada vez mais elevados ou inlevados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inlevado é um termo novo que estou usando. Quando falamos "elevados" vem-nos naturalmente a idéia de altura, tal como costumamos admiti-la. Pensamos num alto prédio, nas nuvens, na lua e vamos até às estrelas."Inlevado" é por elevação interior que não exprime altura, e sim condição. As criaturas não se colocam mais "alto" no sentido de distância do chão por estarem evoluindo. Adquirem condições, de modo a poderem viver em sintonias especiais, mesmo entre criaturas menos evoluídas. Ouvem, pensam, sentem, transmitem de uma maneira diferente. Sentem de forma mais sutil, menos impulsiva, não se desgastam inutilmente em esforços desnecessários, porque têm condições de operar com mais aptidão sem muita perda de energia. Vivem entre nós todos, encarnados e desencarnados, e muitas vezes passam despercebidos, porque não provocam impactos, não se evidenciam de forma contundente para os demais. Esses são inlevados. Esse termo eu sei que não é conhecido, mas quis empregá-lo, porque desejo que vocês o conheçam também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de terminar, desejo referir-me ainda ao irmão que desencarnou. Ele está muito bem e em franca recuperação, porém não poderá dar notícias suas tão cedo e é aconselhável que não pensem nisso. Deixem-no descansar num justo repouso, depois de tantas lutas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço afetuoso a todos os que me conheceram e que ainda se lembram de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Papai, mamãe, Cezinha e todos, todos os familiares estão incluídos no meu circuito de vibrações. De ninguém eu me esqueço. Creiam-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiz Sérgio (1949-1973). Mensagem de 11 de setembro de 1974.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alayde de Assunção e Silva, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Mundo que eu encontrei &lt;/span&gt;(pelo Espírito Luiz Sérgio). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;1976. 21ª ed. Brasília: Livraria e Editora Recanto, 1995. p. 89-95&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4512118110423458858?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4512118110423458858/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4512118110423458858' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4512118110423458858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4512118110423458858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/em-servico-desencarnatorio.html' title='Em serviço desencarnatório'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-_7If04RHirU/TmE4IHZNgTI/AAAAAAAABh8/6Q6QMnjc2qw/s72-c/Luiz.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1981761545011470704</id><published>2011-09-01T19:27:00.000-07:00</published><updated>2011-09-24T13:18:54.411-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>O Lustre (III)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-xiRh3ohOpcU/TmBFbb61MNI/AAAAAAAABh0/sW73o08G3sQ/s1600/lustre.jpeg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 280px; height: 280px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-xiRh3ohOpcU/TmBFbb61MNI/AAAAAAAABh0/sW73o08G3sQ/s320/lustre.jpeg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5647590270375899346" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;[A morte de Virgínia]:&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Num esforço em que o peito parecia suportar um viscoso peso, com um mal-estar inexcedível, atravessou pálida a rua e o carro dobrou a esquina, ela recuou um passo, o carro hesitou, ela avançou e o carro veio em luz, ela o percebeu com um choque de calor sobre o corpo e uma queda sem dor enquanto o coração olhava surpreso para nenhum lugar e um grito de homem vinha de alguma direção - era velozmente o mesmo dia há três anos quando estacara para a frente impedindo-se por um triz de pisar num gatinho rígido e morto e o coração retrocedera enquanto, com os olhos por um instante profundamente cerrados de asco, todo o seu corpo dizia para dentro de si mesmo num escuro e cavo momento, bem no oco sonoro de uma igreja silenciosa: arrh! em funda náusea vivificadora, o coração retrocedendo branco e sólido numa queda seca, arrh! E como pensasse escura em Vicente viu Adriano, Vicente, Miguel, Daniel - Daniel, Daniel! numa corrida clara e vertiginosa pelas ruas da cidade como um vento de cabelos soltos, entrou um instante na Granja, balançou-se rápido, rápido na cadeira e com absoluta estranheza olhou-se branca e de olhos escuros num espelho - longos corredores formavam-se no seu interior, longos corredores cansados, difíceis e escuros, portas sucessivas cerravam-se sem ruído com espanto e cuidado enquanto um momento de cólera de Daniel era pensado por ela e os instantes claramente se sucediam - ela e Daniel mastigaram o fim da fruta que escorria pelo queixo e olhavam-se de olhos brilhantes e inteligentes, quase um gostando do que o outro comia, fazia frio, o nariz vermelho e penoso no pátio da Granja; ela dirigiu um estremecimento a Daniel. Ela que nunca perdera tempo - confuso, surdo, rápido, claro, dissonante, o ruído que vem da orquestra afinando-se e se afinando para o concerto e um movimento de bem-estar procurando conforto, o coração insólito. O que sucedia era tão simples que ela não sabia donde entender. Na gelada penumbra corredores negros, estreitos, vazios e úmidos, uma substância dormente e silenciosa: e de súbito! de súbito! de súbito! a borboleta branca volitando nos corredores sombrios, perdendo-se no fim da escuridão. Ela desejava obscuramente interromper-se, ela desejava obscuramente interromper-se. A rua fumegava fria e sonolenta, seu próprio coração surpreendia-se, a cabeça pesada de graça atordoante - enquanto as ruas de Brejo Alto se encaminhavam velozes e vacilantes no seu cheiro de maçã, serragem, importação e exportação, aquela falta do mar. E de súbito arrebatada pelo próprio espírito. Era um momento extremamente íntimo e estranho - ela reconhecia tudo isto, quantas vezes, quantas vezes o ensaiara sem saber; e agora, extraordinariamente quieta, purificada das próprias fontes de energia, entregando mesmo as possibilidades futuras - ah, não ter então reconhecido aquela espécie de gesto, quase uma posição do pensamento, a cabeça inclinada para um lado, assim, assim... não lhe ter dado importância então... como se assustaria se o tivesse compreendido - mas agora não estava assustada, o impulso era inferior à qualidade mais secreta do ser, na gelada penumbra nascendo uma nova exatidão; não! não! não era uma sensação decadente! mas desejando obscuramente, obscuramente interromper-se, a dificuldade, a dificuldade que vinha do céu, que vinha. O primeiro acontecimento real, o único fato que serviria de começo à sua vida, livre como jogar um cálice de cristal pela janela, o movimento irresistível que não se poderia mais conter. Também procurara ensaiar quando buscava perceber o cheiro nas construções, ensaiara o cheiro na meia penumbra, cal, madeira, ferro frio, poeira assentada espreitando --- como pudera esquecer: sim ---, --- O campo vazio de ervas ao vento sem ela, inteiramente sem ela, sem nenhuma sensação, só o vento, a irrealidade se aproximando em cores iridescentes, em velocidade alta, leve, penetrante. Névoas se esgarçando e descobrindo formas firmes, um som mudo rebentando da intimidade adivinhada das coisas, o silêncio comprimindo partículas de terra em escuridão e negras formigas lentas e altas caminhando sobre grossos grãos de terra, o vento correndo alto adiante, um cubo límpido pairando no ar e a luz correndo paralela a todos os pontos, era presente, assim fora, assim seria, e o vento, o vento, ela que fora tão constante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Lustre&lt;/span&gt; (1946). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;9ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p.319-321.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;[Os gênios não conquistaram seu avanço sobre os demais somente na encarnação em que se evidenciaram. Foi trabalho de muito tempo]. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1981761545011470704?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1981761545011470704/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1981761545011470704' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1981761545011470704'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1981761545011470704'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/09/o-lustre-iii.html' title='O Lustre (III)'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-xiRh3ohOpcU/TmBFbb61MNI/AAAAAAAABh0/sW73o08G3sQ/s72-c/lustre.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4284723482897532276</id><published>2011-08-26T19:37:00.000-07:00</published><updated>2011-09-24T13:19:38.546-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Café'/><title type='text'>O Lustre (II)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-Y2x0YAhYAoY/TlhdSV-8ZfI/AAAAAAAABhs/AvGQlMn_RzE/s1600/clarice-lispector3.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 190px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-Y2x0YAhYAoY/TlhdSV-8ZfI/AAAAAAAABhs/AvGQlMn_RzE/s320/clarice-lispector3.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5645364702629094898" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O pensamento de fazer café sacudiu-a de novo com mais vigor, Deus meu, isso seria renascer, tomar café límpido, negro, quente, perfumado café - mundo, mundo, dizia seu corpo sorrindo mudamente de dor. Com certa timidez observava como estava sozinha. Poderia chorar de alegria, sim, porque tomando café teria forças para tudo. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 200-201)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrava-se constantemente da viagem, lembrava-se da avó, surpreendida de pensar tanto nela. Confusamente, porque a morte lhe parecia um ato de vida, a morte na velhice era um fresco fruto extemporâneo e um súbito revivescimento. Para ela quase só agora a avó começava a existir. Revia seus olhos fixos e úmidos, suas pálpebras piscando numa indecência impotente, aquela pele castanha de fazenda amarrotada, tão maior que seu corpo duro, cego, infantil. Imaginou-a sabida e fúnebre dizer: enquanto existi comi bastante. Como era velha, pesada e morta aquela avó magra que se lembrava subitamente de morrer. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 220-221).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Lustre&lt;/span&gt; (1946). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;9ª ed., Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4284723482897532276?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4284723482897532276/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4284723482897532276' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4284723482897532276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4284723482897532276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/08/o-lustre-ii.html' title='O Lustre (II)'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-Y2x0YAhYAoY/TlhdSV-8ZfI/AAAAAAAABhs/AvGQlMn_RzE/s72-c/clarice-lispector3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2310812829634994314</id><published>2011-08-24T18:49:00.000-07:00</published><updated>2011-08-24T18:57:30.620-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pessoa'/><title type='text'>Abram-me outra realidade</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-lUN5qbbxaJE/TlWrwiz70mI/AAAAAAAABhc/CVyq-N0PJX4/s1600/Pessoa.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 226px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-lUN5qbbxaJE/TlWrwiz70mI/AAAAAAAABhc/CVyq-N0PJX4/s320/Pessoa.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5644606558445490786" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ah, abram-me outra realidade!&lt;br /&gt;Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos&lt;br /&gt;E ter visões por almoço.&lt;br /&gt;Quero encontrar as fadas na rua!&lt;br /&gt;Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,&lt;br /&gt;Desta civilização feita com pregos.&lt;br /&gt;Quero viver, como uma bandeira à brisa,&lt;br /&gt;Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!&lt;br /&gt;Depois encerrem-me onde queiram.&lt;br /&gt;Meu coração verdadeiro continuará velando&lt;br /&gt;Pano brasonado a esfinges,&lt;br /&gt;No alto do mastro das visões&lt;br /&gt;Aos quatro ventos do Mistério.&lt;br /&gt;O Norte — o que todos querem&lt;br /&gt;O Sul — o que todos desejam&lt;br /&gt;O Este — de onde tudo vem&lt;br /&gt;O Oeste — aonde tudo finda&lt;br /&gt;—Os quatro ventos do místico ar da civilização&lt;br /&gt;—Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando Pessoa [Álvaro de Campos], 1924&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2310812829634994314?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2310812829634994314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2310812829634994314' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2310812829634994314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2310812829634994314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/08/abram-me-outra-realidade.html' title='Abram-me outra realidade'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-lUN5qbbxaJE/TlWrwiz70mI/AAAAAAAABhc/CVyq-N0PJX4/s72-c/Pessoa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-8919391279324528172</id><published>2011-08-20T17:24:00.000-07:00</published><updated>2011-09-24T13:20:17.602-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>O Lustre</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-Ejjym_55-fM/TlBYsknJhmI/AAAAAAAABhU/PtgVMuHk9vw/s1600/O_LUSTRE_1231783349P.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 304px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-Ejjym_55-fM/TlBYsknJhmI/AAAAAAAABhU/PtgVMuHk9vw/s320/O_LUSTRE_1231783349P.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643107855860598370" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;- Virgínia, todos os dias você vendo café com leite gosta de café com leite. Vendo pai você respeita pai. Arranhando a perna você sente dor na perna, já compreendeu o que eu quero dizer? Você é vulgar e estúpida. - Sim, por Deus que ela o era - Pois a Sociedade das Sombras deve aperfeiçoar seus membros e manda que você vire tudo ao contrário. A Sociedade das Sombras sabe que você é vulgar porque você não pensa, como se diz, com profundeza, porque você só sabe seguir o que lhe ensinaram, está entendendo? A Sociedade das Sombras manda que amanhã você entre no porão, sente-se e pense muito, muito para saber o que é de você mesma e o que é que lhe ensinaram. Amanhã você não deve se preocupar com a família nem com o mundo! A Sociedade das Sombras falou. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 67)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Ela secretamente exultava: ao contrário do que Daniel imaginara, ela amava o porão e nunca o temera. Calou-se no entanto porque se o confessasse o local para &lt;span style="font-style: italic;"&gt;pensar profundamente&lt;/span&gt; seria transferido. Tremia à idéia de que Daniel pudesse mandá-la pensar no meio do mato ao anoitecer. Não ter uma tarefa difícil para o dia seguinte era como receber férias. Daniel perscrutou-a um pouco surpreendido nessa noite, vendo-a alegre conversar quase sozinha na mesa do jantar e receber sem tristeza uma bofetada do pai. Fora da clareira porém eles não podiam falar sobre a Sociedade das Sombras e ela assim estava livre, observando quase maliciosa e feliz a inquietação de Daniel. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 68)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, como não devia preocupar-se com a família, fez com que a família não se preocupasse com ela. Assim não evitou o hábito de tomar café com todos e de responder às perguntas. Obediente a Daniel, no entanto, ela cerrava o coração sem raiva e sem glória, como num trabalho sincero, escondendo-o intacto em zona escura e quieta. Era preciso não se misturar, nada mover ao seu redor com o pensamento para não ser imperceptivelmente movida. Distraída adivinhava: pensando profundamente ia saber o que era dela com água misturada à água do rio e o que não era, como pedras misturadas à água do rio. Ah, compreendia tanto. Suspirava de alegria e de certa incompreensão. Um dia talvez não comparecesse junto ao respeito dos pais, junto ao prazer de passear, ao gosto do café, ao pensamento de gostar de azul, à dor de ferir a perna. Embora isso jamais a tivesse preocupado. Caminhou para o porão lentamente, empurrou sua grade e mergulhou no cheiro frio de penumbra onde timidamente viviam bacias, poeiras e móveis velhos. Sentou-se perto das roupas negras de um luto antigo. O bafo dos baús arquejava, um cheiro de cemitério subia das lajes do chão. Sentou-se e esperou. Apertava a intervalos o grosso vestido contra o peito. Os pássaros lá fora cantavam mas isso era o silêncio. Para pensar profundamente alguém devia não se lembrar de nada em particular. Purificou-se de lembranças, quedou-se atenta. Como para ela era sempre fácil nada desejar, manteve-se parada sem mesmo sentir as sombras negras do porão. Foi-se distanciando como numa viagem. Aos poucos ia conseguindo um pensamento sem palavras, um céu cinzento e vasto, sem volume nem consistência, sem superfície, profundidade ou altura. Às vezes, como ligeiras nuvens soltas do fundo, o céu era atravessado pela vaga consciência da experiência e do mundo fora de si mesmo. O temor de desobedecer a Daniel - um temor que não era pensamento nem o perturbava - assaltava-a e também uma curiosidade de prosseguir sem interrupções, que a fazia mover-se acima de seus próprios conhecimentos. Sem esforço, sem alegria - como para não se deter em nenhum sentimento definido - ela afastava a percepção e ficava novamente puro o céu. Estaria pensando profundamente? indagava ela uma consciência à parte. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 68-69)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora tornava-se claro: era verdadeiro! tudo existia tão livre que ela poderia mesmo inverter a ordem de seus sentimentos, não ter medo da morte, temer a vida, desejar a fome, odiar as coisas felizes, rir-se da tranquilidade... Sim, bastaria um pequeno toque e numa coragem leve e fácil galgaria a inércia e reinventaria a vida instante por instante. Instante por instante! tremiam nela pensamentos de vidro e sol. Eu posso renovar tudo com um gesto, sentia bravamente, úmida como uma coisa nascendo, mas confusamente sabia que esse pensamento era mais alto que a sua realização e nada fazia, perplexa e serena, nenhum gesto. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 72-73)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Lustre &lt;/span&gt;(1946). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;9ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-8919391279324528172?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/8919391279324528172/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=8919391279324528172' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8919391279324528172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8919391279324528172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/08/o-lustre.html' title='O Lustre'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-Ejjym_55-fM/TlBYsknJhmI/AAAAAAAABhU/PtgVMuHk9vw/s72-c/O_LUSTRE_1231783349P.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4187865149478565743</id><published>2011-08-19T11:55:00.000-07:00</published><updated>2011-08-20T18:02:28.966-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Felicidade clandestina</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-vlnABagOyZA/Tk61nRLoBQI/AAAAAAAABhM/icfWAV11YDU/s1600/livro-felicidade-clandestina.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 214px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-vlnABagOyZA/Tk61nRLoBQI/AAAAAAAABhM/icfWAV11YDU/s320/livro-felicidade-clandestina.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5642647069373498626" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 88)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mocinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nome, nome mesmo, é Margarida. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p.29)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Felicidade clandestina &lt;/span&gt;(1971). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 1998.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4187865149478565743?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4187865149478565743/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4187865149478565743' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4187865149478565743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4187865149478565743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/08/felicidade-clandestina.html' title='Felicidade clandestina'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-vlnABagOyZA/Tk61nRLoBQI/AAAAAAAABhM/icfWAV11YDU/s72-c/livro-felicidade-clandestina.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4327096125137318602</id><published>2011-08-14T14:38:00.000-07:00</published><updated>2011-08-14T15:15:11.654-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Espiritismo'/><title type='text'>Muitos são os chamados</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-eQ-XtsWICm4/TkhIfpR18sI/AAAAAAAABhE/YjBc-F_ueWc/s1600/Muitos%2Bs%25C3%25A3o%2Bos%2Bchamados.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 215px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-eQ-XtsWICm4/TkhIfpR18sI/AAAAAAAABhE/YjBc-F_ueWc/s320/Muitos%2Bs%25C3%25A3o%2Bos%2Bchamados.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5640838241775383234" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Marcos não só viu desencarnados doentes, como também maus e vingativos, mas todos eram socorridos, orientados e encaminhados para assistência no plano espiritual.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;- Luís - Marcos comentou -, quando aqui estive, passei por este trabalho, e estavam comigo dois desencarnados que queriam se vingar e disseram ter agido inclusive instigados pela vontade de dois encarnados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alguns desencarnados vingativos aguardam os encarnados, a quem querem prejudicar, caírem na vibração infeliz para poderem agir. Certamente, conseguiram prejudicá-lo, em virtude de você ter ofendido a outros, e eles, revidando, desejaram-lhe o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que será deles? Por que estavam comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se receberam orientação aqui e foram encaminhados, estão bem. O porquê, o motivo de eles quererem se vingar, pode estar no passado distante. Se um dia recordar suas outras existências, poderá saber o motivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Devo tê-los ofendido, gostaria de pedir-lhes perdão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Numa rixa, há culpa de ambos os lados. Ofendidos devem perdoar e não guardar rancores, e ofensores devem arrepender-se e reparar a falta. Se eles se encaminharam, perdoaram-no e, se um dia houver necessidade, a vida os aproximará. O que importa, Marcos, é que você também foi prejudicado por eles e os perdoou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Luís, lembro-me, agora, das propostas que fiz e que não cumpri. Mas a culpa também foi de Mara, que me impediu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Marcos, meu companheiro, não jogue a culpa de seus atos em outros. Se quisesse, se tivesse realmente vontade, teria feito. Deixou-se dominar por ela, porque no fundo era isto o que desejava. Mara é realmente voluntariosa e, para você, foi mais cômodo atendê-la. Do mesmo modo, muitos aqui no plano espiritual dizem: "Não trabalhei espiritualmente, quando encarnado, não atendi a conselhos e apelos de amigos, porque minha esposa, ou meu esposo, filhos etc. impediram-me". Outros desculpam-se dizendo que eram pobres, não tinham nada para dar, eram necessitados. São desculpas que dão a si mesmos. Esquecem que pobre materialmente pode dar de si fluidos, bondade, horas de trabalho, orações. Necessitados? Há tantos modos de se passar de necessitados a colaboradores, e todos têm essa obrigação, só não se transformam os acomodados e os que realmente não querem. Nem a doença física é empecilho para quem quer ser útil. O cego pode usar a palavra; o mudo, as mãos, etc. Exemplos não faltam: desencarnou há pouco Jerônimo Ribeiro Mendonça, um tetraplégico e cego, que com seus livros e palestras chamou muitos irmãos ao caminho do bem e, com seus exemplos, incentivou muitos a se resignarem, a serem como ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os necessitados espiritualmente - Luís continuou, após ligeira pausa - podem mudar de hábitos e atitudes, evangelizando-se e seguindo o caminho do bem, porque assim as dificuldades serão ultrapassadas. É sempre mais fácil colocar a culpa de nossas falhas e fracassos nos outros, como se eles fossem donos do nosso livre-arbítrio. Quando queremos, sempre damos um jeito, embora reconhecendo que, em muitas ocasiões, os empecilhos são fortes e que se necessita de muita coragam para vencê-los. Mas este não foi o caso que mencionamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos abaixou a cabeça, mas foi abraçado amorosamente pelo instrutor, pois entendeu que não recebera uma censura, porém preciosa lição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade, Luís, não foi o meu caso. A "porta larga" me foi mais cômoda, mais fácil. Tentava isentar-me, culpando Mara. Aqui, neste local, prometi dedicar-me aos pobres, às crianças doentes, carentes de médicos e remédios. Adiei, deixei para amanhã o que poderia ter feito e... não tive amanhã! Penso mesmo que adiaria sempre e sempre esse "amanhã".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quando podemos fazer, é nosso dever realizar. Adiar, ou não fazer, é tarefa não cumprida, é lição não aprendida. Sofremos muito quando podemos e não fazemos o bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será, Luís, que um dia serei digno de trabalhar em nome de Jesus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Poucos de nós são dignos de trabalhar em nome de Jesus, mas como a Sua misericórdia é grande, todos os de boa vontade poderão fazê-lo. Basta querer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando todos foram atendidos, reuniram-se os médiuns na frente da figura de Jesus e oraram a prece de Cáritas: uma chuva de fluidos salutares, coloridos, caiu sobre todos, terminando o trabalho da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho (pelo espírito Antônio Carlos), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Muitos são os chamados.&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:85%;"&gt;São Paulo: Petit, 1992, p. 129-131.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4327096125137318602?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4327096125137318602/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4327096125137318602' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4327096125137318602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4327096125137318602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/08/muitos-sao-os-chamados.html' title='Muitos são os chamados'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-eQ-XtsWICm4/TkhIfpR18sI/AAAAAAAABhE/YjBc-F_ueWc/s72-c/Muitos%2Bs%25C3%25A3o%2Bos%2Bchamados.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-3976249903644570200</id><published>2011-08-12T11:22:00.000-07:00</published><updated>2011-08-12T11:42:40.720-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Laços de Família</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-LAzcEculAkM/TkVz5rlhpYI/AAAAAAAABg8/1LwUZIMcNHk/s1600/la%25C3%25A7os.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-LAzcEculAkM/TkVz5rlhpYI/AAAAAAAABg8/1LwUZIMcNHk/s320/la%25C3%25A7os.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5640041543141270914" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Havia certas cousas boas porque eram quase nauseantes: o ruído como de elevador no sangue, enquanto o homem roncava ao lado, os filhos gorditos empilhados no outro quarto a dormirem, os desgraçadinhos. Ai que coisa que se me dá! pensou desesperada. Teria comido demais? ai que coisa que se me dá, minha santa mãe!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Era a tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dedos do pé a brincarem com a chinela. O chão lá não muito limpo. Que relaxada e preguiçosa se me saíste. Amanhã não, porque não estaria lá muito bem das pernas. Mas depois de amanhã aquela sua casa havia de ver: dar-lhe-ia um esfregaço com água e sabão que se lhe arrancariam as sujidades todas! a casa havia de ver! ameaçou ela colérica. Ai que se sentia tão bem, tão áspera, como se ainda estivesse a ter leite nas mamas, tão forte. Quando o amigo do marido a viu tão bonita e gorda ficou logo com respeito por ela. E quando ela ficava a se envergonhar não sabia onde havia de fitar os olhos. Ai que tristeza. Que é que se há de fazer. Sentada no bordo da cama, a pestanejar resignada. Que bem que se via a lua nessas noites de verão. Inclinou-se um pouquinho, desinteressada, resignada. A lua. Que bem que se via. A lua alta e amarela a deslizar pelo céu, a coitadinha. A deslizar, a deslizar... Alta, alta. A lua. Então a grosseria explodiu-lhe em súbito amor; cadela, disse a rir. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p.27-28)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 40)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Laços de Família&lt;/span&gt; (1960).&lt;/span&gt; 28ª ed. Rio de janeiro: Francisco Alves, 1995.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-3976249903644570200?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/3976249903644570200/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=3976249903644570200' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3976249903644570200'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3976249903644570200'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/08/lacos-de-familia.html' title='Laços de Família'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-LAzcEculAkM/TkVz5rlhpYI/AAAAAAAABg8/1LwUZIMcNHk/s72-c/la%25C3%25A7os.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2144846147516519622</id><published>2011-08-06T16:15:00.000-07:00</published><updated>2011-08-10T08:10:56.397-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escrever'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A Hora da Estrela</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-Kjri3VksubY/Tj3MxdxoehI/AAAAAAAABg0/YBB2Nx77tuQ/s1600/a_hora_da_estrela.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 299px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-Kjri3VksubY/Tj3MxdxoehI/AAAAAAAABg0/YBB2Nx77tuQ/s320/a_hora_da_estrela.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5637887458716187154" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um dia Deus vier à terra haverá silêncio grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio é tal que nem o pensamento pensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O final foi bastante grandiloquente para a vossa necessidade? Morrendo ela virou ar. Ar enérgico? Não sei. Morreu em um instante. O instante é aquele átimo de tempo em que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca mais e depois toca de novo. Etc., etc., etc. No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vos pergunto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual é o peso da luz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Hora da Estrela&lt;/span&gt; (1977). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;6ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981, p. 29/p.103-4&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2144846147516519622?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2144846147516519622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2144846147516519622' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2144846147516519622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2144846147516519622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/08/hora-da-estrela.html' title='A Hora da Estrela'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-Kjri3VksubY/Tj3MxdxoehI/AAAAAAAABg0/YBB2Nx77tuQ/s72-c/a_hora_da_estrela.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1517248905868779627</id><published>2011-08-02T07:18:00.000-07:00</published><updated>2011-08-02T07:41:58.833-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Água Viva</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/--bzsJUaOLU0/TjgLdzqgywI/AAAAAAAABgs/hsynm0OrLhg/s1600/%25C3%25A1gua.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 304px;" src="http://2.bp.blogspot.com/--bzsJUaOLU0/TjgLdzqgywI/AAAAAAAABgs/hsynm0OrLhg/s320/%25C3%25A1gua.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5636267540366805762" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para captar o próprio segredo. Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca o seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p.63)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-me então como se eu fosse um tigre com flecha mortal cravada na carne e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem teria coragem de aproximar-se e tirar-lhe a dor. E então há a pessoa que sabe que tigre ferido é apenas tão perigoso como criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, arranca a flecha fincada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o tigre? Não se pode agradecer. Então eu dou umas voltas vagarosas em frente à pessoa e hesito. Lambo uma das patas e depois, como não é a palavra que tem então importância, afasto-me silenciosamente. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p.91)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que sou neste instante? Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as teclas secas na úmida e escura madrugada. Há muito já não sou gente. Quiseram que eu fosse um objeto. Sou um objeto. Que cria outros objetos e a máquina cria a nós todos. Ela exige. O mecanicismo exige e exige a minha vida. Mas eu não obedeço totalmente: se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita. Há uma coisa dentro de mim que dói. Ah como dói e como grita pedindo socorro. Mas faltam lágrimas na máquina que sou. Sou um objeto sem destino. Sou um objeto nas mãos de quem? tal é o meu destino humano. O que me salva é grito. Eu protesto em nome do que está dentro do objeto atrás do atrás do pensamento-sentimento. Sou um objeto urgente. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p.91-2)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára, viver parece ter sono e não poder dormir - viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito.&lt;span style="font-size:85%;"&gt; (p.100)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Água Viva&lt;/span&gt; (1973). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;11ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1517248905868779627?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1517248905868779627/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1517248905868779627' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1517248905868779627'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1517248905868779627'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/08/agua-viva.html' title='Água Viva'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/--bzsJUaOLU0/TjgLdzqgywI/AAAAAAAABgs/hsynm0OrLhg/s72-c/%25C3%25A1gua.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2530709519435296856</id><published>2011-07-29T13:26:00.000-07:00</published><updated>2011-08-01T19:45:44.060-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inglês'/><title type='text'>The severed garden</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-lLb6TbR0LKc/TjdkwyEt9kI/AAAAAAAABgc/WTj2ICr9hMM/s1600/VincentVanGogh_StarryNight.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 246px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-lLb6TbR0LKc/TjdkwyEt9kI/AAAAAAAABgc/WTj2ICr9hMM/s320/VincentVanGogh_StarryNight.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5636084247915525698" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Wow, I’m sick of doubt&lt;br /&gt;Live in the light of certain&lt;br /&gt;South&lt;br /&gt;Cruel bindings.&lt;br /&gt;The servants have the power&lt;br /&gt;Dog-men and their mean women&lt;br /&gt;Pulling poor blankets over&lt;br /&gt;Our sailors&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I’m sick of dour faces&lt;br /&gt;Staring at me from the tv&lt;br /&gt;Tower, I want roses in&lt;br /&gt;My garden bower; dig?&lt;br /&gt;Royal babies, rubies&lt;br /&gt;Must now replace aborted&lt;br /&gt;Strangers in the mud&lt;br /&gt;These mutants, blood-meal&lt;br /&gt;For the plant that’s plowed.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;They are waiting to take us into&lt;br /&gt;The severed garden&lt;br /&gt;Do you know how pale and wanton thrillful&lt;br /&gt;Comes death on a strange hour&lt;br /&gt;Unannounced, unplanned for&lt;br /&gt;Like a scaring over-friendly guest you’ve&lt;br /&gt;Brought to bed&lt;br /&gt;Death makes angels of us all&lt;br /&gt;And gives us wings&lt;br /&gt;Where we had shoulders&lt;br /&gt;Smooth as raven’s&lt;br /&gt;Claws&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No more money, no more fancy dress&lt;br /&gt;This other kingdom seems by far the best&lt;br /&gt;Until it’s other jaw reveals incest&lt;br /&gt;And loose obedience to a vegetable law.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I will not go&lt;br /&gt;Prefer a feast of friends&lt;br /&gt;To the giant family.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jim Morrison (1943-1971)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2530709519435296856?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2530709519435296856/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2530709519435296856' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2530709519435296856'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2530709519435296856'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/severed-garden.html' title='The severed garden'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-lLb6TbR0LKc/TjdkwyEt9kI/AAAAAAAABgc/WTj2ICr9hMM/s72-c/VincentVanGogh_StarryNight.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-8231289773736573887</id><published>2011-07-29T12:49:00.000-07:00</published><updated>2011-07-29T12:59:36.011-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pessoa'/><title type='text'>Se te queres matar</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-3-Y3nFSsXnw/TjMPbHdihcI/AAAAAAAABgE/fETwwNmWPvU/s1600/Se%2Bte.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-3-Y3nFSsXnw/TjMPbHdihcI/AAAAAAAABgE/fETwwNmWPvU/s320/Se%2Bte.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5634864517304452546" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Se te queres matar, porque não te queres matar?&lt;br /&gt;Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,&lt;br /&gt;Se ousasse matar-me, também me mataria...&lt;br /&gt;Ah, se ousares, ousa!&lt;br /&gt;De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas&lt;br /&gt;A que chamamos o mundo?&lt;br /&gt;A cinematografia das horas representadas&lt;br /&gt;Por actores de convenções e poses determinadas,&lt;br /&gt;O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?&lt;br /&gt;De que te serve o teu mundo interior que desconheces?&lt;br /&gt;Talvez, matando-te, o conheças finalmente...&lt;br /&gt;Talvez, acabando, comeces...&lt;br /&gt;E, de qualquer forma, se te cansa seres,&lt;br /&gt;Ah, cansa-te nobremente,&lt;br /&gt;E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,&lt;br /&gt;Não saúdes como eu a morte em literatura!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!&lt;br /&gt;Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...&lt;br /&gt;Sem ti correrá tudo sem ti.&lt;br /&gt;Talvez seja pior para outros existires que matares-te...&lt;br /&gt;Talvez peses mais durando, que deixando de durar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado&lt;br /&gt;De que te chorem?&lt;br /&gt;Descansa: pouco te chorarão...&lt;br /&gt;O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,&lt;br /&gt;Quando não são de coisas nossas,&lt;br /&gt;Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,&lt;br /&gt;Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda&lt;br /&gt;Do mistério e da falta da tua vida falada...&lt;br /&gt;Depois o horror do caixão visível e material,&lt;br /&gt;E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.&lt;br /&gt;Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,&lt;br /&gt;Lamentando a pena de teres morrido,&lt;br /&gt;E tu mera causa ocasional daquela carpidação,&lt;br /&gt;Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...&lt;br /&gt;Muito mais morto aqui que calculas,&lt;br /&gt;Mesmo que estejas muito mais vivo além...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,&lt;br /&gt;E depois o princípio da morte da tua memória.&lt;br /&gt;Há primeiro em todos um alívio&lt;br /&gt;Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...&lt;br /&gt;Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,&lt;br /&gt;E a vida de todos os dias retoma o seu dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, lentamente esqueceste.&lt;br /&gt;Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:&lt;br /&gt;Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.&lt;br /&gt;Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.&lt;br /&gt;Duas vezes no ano pensam em ti.&lt;br /&gt;Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,&lt;br /&gt;E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...&lt;br /&gt;Se queres matar-te, mata-te...&lt;br /&gt;Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...&lt;br /&gt;Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?&lt;br /&gt;Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera&lt;br /&gt;As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?&lt;br /&gt;Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.&lt;br /&gt;Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És importante para ti, porque é a ti que te sentes.&lt;br /&gt;És tudo para ti, porque para ti és o universo,&lt;br /&gt;E o próprio universo e os outros&lt;br /&gt;Satélites da tua subjectividade objectiva.&lt;br /&gt;És importante para ti porque só tu és importante para ti.&lt;br /&gt;E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?&lt;br /&gt;Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,&lt;br /&gt;Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?&lt;br /&gt;Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,&lt;br /&gt;Torna-te parte carnal da terra e das coisas!&lt;br /&gt;Dispersa-te, sistema físico-químico&lt;br /&gt;De células nocturnamente conscientes&lt;br /&gt;Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,&lt;br /&gt;Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,&lt;br /&gt;Pela relva e a erva da proliferação dos seres,&lt;br /&gt;Pela névoa atómica das coisas,&lt;br /&gt;Pelas paredes turbilhonantes&lt;br /&gt;Do vácuo dinâmico do mundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando Pessoa [Álvaro de Campos] (1926)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-8231289773736573887?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/8231289773736573887/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=8231289773736573887' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8231289773736573887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8231289773736573887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/se-te-queres-matar.html' title='Se te queres matar'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-3-Y3nFSsXnw/TjMPbHdihcI/AAAAAAAABgE/fETwwNmWPvU/s72-c/Se%2Bte.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-6975499536844912842</id><published>2011-07-26T07:39:00.000-07:00</published><updated>2011-07-26T07:53:06.830-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>Uma Aprendizagem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-crkNTd_Ev8Q/Ti7Ul2Rek5I/AAAAAAAABf8/BZ1XNiSWCZM/s1600/Uma%2BAprendizagem.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 214px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-crkNTd_Ev8Q/Ti7Ul2Rek5I/AAAAAAAABf8/BZ1XNiSWCZM/s320/Uma%2BAprendizagem.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5633673930576139154" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Lóri, pela primeira vez na sua vida, sentiu uma força que mais parecia uma ameaça contra o que ela fora até então. Ela então falou sua alma para Ulisses:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou para Ulisses com a humildade que de repente sentia e viu com surpresa a surpresa dele. Só então ela se surpreendeu consigo própria. Os dois se olharam em silêncio. Ela parecia pedir socorro contra o que de algum modo involuntariamente dissera. E ele com os olhos miúdos quis que ela não fugisse e falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Repita o que você disse, Lóri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu sei, eu vou saber sempre. Você literalmente disse: um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me trascende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres&lt;/span&gt; (1969). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;18ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991, p. 84-86.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-6975499536844912842?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/6975499536844912842/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=6975499536844912842' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/6975499536844912842'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/6975499536844912842'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/uma-aprendizagem.html' title='Uma Aprendizagem'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-crkNTd_Ev8Q/Ti7Ul2Rek5I/AAAAAAAABf8/BZ1XNiSWCZM/s72-c/Uma%2BAprendizagem.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-8885953495233986981</id><published>2011-07-20T12:09:00.000-07:00</published><updated>2011-07-20T12:55:21.480-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mulheres extraordinárias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A paixão segundo G.H. (II)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-zfTEcsPbS8I/TicyYAZ1tTI/AAAAAAAABf0/6f1lBKxwvDI/s1600/clarice-lispector13.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-zfTEcsPbS8I/TicyYAZ1tTI/AAAAAAAABf0/6f1lBKxwvDI/s320/clarice-lispector13.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5631525247056721202" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Mas sei que ao mesmo tempo quero e não quero mais me conter. É como na agonia da morte: alguma coisa na morte quer se libertar e tem ao mesmo tempo medo de largar a segurança do corpo. Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve - está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. E isso me dá o direito maior: o de errar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Escuta sem susto e sem sofrimento: o neutro do Deus é tão grande e vital que eu, não aguentando a célula do Deus, eu a tinha humanizado. Sei que é  horrivelmente perigoso descobrir agora que o Deus tem a força do impessoal - porque sei, oh eu sei! que é como se isso significasse a destruição do pedido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é como se o futuro parasse de vir a existir. E nós não podemos, nós somos carentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. Somos nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje do Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus. É com os olhos abertos mesmo que vemos Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte - é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque - porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só aguento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que eu estava sabendo que a promessa divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Anteriormente, só de vez em quando, eu era lembrada, numa visão instantânea e logo afastada, de que a promessa não é somente para o futuro, é ontem e é permanentemente hoje: mas isso me era chocante. Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de já ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível - minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome maior. O leite a gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A paixão segundo G.H.&lt;/span&gt; (1964). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 147-150.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-8885953495233986981?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/8885953495233986981/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=8885953495233986981' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8885953495233986981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8885953495233986981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/paixao-segundo-gh-ii.html' title='A paixão segundo G.H. (II)'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-zfTEcsPbS8I/TicyYAZ1tTI/AAAAAAAABf0/6f1lBKxwvDI/s72-c/clarice-lispector13.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-8677150269138028704</id><published>2011-07-19T11:25:00.000-07:00</published><updated>2011-07-20T12:55:21.481-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mulheres extraordinárias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Clarice Lispector'/><title type='text'>A paixão segundo G.H.</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-HbxSr4Vdrk8/TiXQQk3bnsI/AAAAAAAABfs/_NnTOqezYZI/s1600/A_PAIXAO_SEGUNDO_GH_1230875521P.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 302px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-HbxSr4Vdrk8/TiXQQk3bnsI/AAAAAAAABfs/_NnTOqezYZI/s320/A_PAIXAO_SEGUNDO_GH_1230875521P.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5631135892289330882" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;E não me esquecer, ao começar o trabalho, de me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava ou sentia - é que se fazia enfim uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem, já teria entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo de delírio e erro. Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a "verdade" fosse aquilo que posso entender - terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;A verdade tem que estar exatamente no que não poderei jamais compreender. E, mais tarde, seria capaz de posteriormente me entender? Não sei. O homem do futuro nos entenderá como somos hoje? Ele distraidamente, com alguma ternura distraída, afagará nossa cabeça como nós fazemos com o cão que se aproxima de nós e nos olha de dentro de sua escuridão, com olhos mudos e aflitos. Ele, o homem futuro, nos afagaria, remotamente nos compreendendo, como eu remotamente ia depois me entender, sob a memória da memória da memória já perdida de um tempo de dor, mas sabendo que nosso tempo de dor ia passar assim como a criança não é uma criança estática, é um ser crescente. (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A paixão segundo G.H.&lt;/span&gt; (1964). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 110.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-8677150269138028704?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/8677150269138028704/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=8677150269138028704' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8677150269138028704'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8677150269138028704'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/paixao-segundo-gh.html' title='A paixão segundo G.H.'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-HbxSr4Vdrk8/TiXQQk3bnsI/AAAAAAAABfs/_NnTOqezYZI/s72-c/A_PAIXAO_SEGUNDO_GH_1230875521P.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2091853276964899507</id><published>2011-07-14T18:07:00.000-07:00</published><updated>2011-07-26T07:53:30.295-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Baudelaire'/><title type='text'>O Morto Prazenteiro</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-6VvTaYI6Mvk/Th-Tl7iMlCI/AAAAAAAABfk/RoUfTTB12dw/s1600/Les%2Bfleurs.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 244px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-6VvTaYI6Mvk/Th-Tl7iMlCI/AAAAAAAABfk/RoUfTTB12dw/s320/Les%2Bfleurs.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5629380339081974818" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Onde haja caracóis, n'um fecundo torrão,&lt;br /&gt;Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,&lt;br /&gt;Onde repouse em paz, onde possa dormir,&lt;br /&gt;Como dorme no oceano o livre tubarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detesto os mausoléus, odeio os monumentos,&lt;br /&gt;E, a ter de suplicar as lágrimas do mundo,&lt;br /&gt;Prefiro oferecer o meu carcaz imundo,&lt;br /&gt;Qual precioso manjar, aos corvos agoirentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verme, larva brutal, tenebroso mineiro,&lt;br /&gt;Vai entregar-se a vós um morto prazenteiro,&lt;br /&gt;Que livremente busca a treva, a podridão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem piedade, minai a minha carne impura,&lt;br /&gt;E dizei-me depois se existe uma tortura&lt;br /&gt;Que não tenha sofrido este meu coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Baudelaire (1821-1867). In: "As Flores do Mal"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2091853276964899507?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2091853276964899507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2091853276964899507' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2091853276964899507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2091853276964899507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/o-morto-prazenteiro.html' title='O Morto Prazenteiro'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-6VvTaYI6Mvk/Th-Tl7iMlCI/AAAAAAAABfk/RoUfTTB12dw/s72-c/Les%2Bfleurs.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2608448164284233328</id><published>2011-07-14T17:59:00.000-07:00</published><updated>2011-07-14T18:04:49.896-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Baudelaire'/><title type='text'>Spleen</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-EnxCvrodcDY/Th-Ryf8X74I/AAAAAAAABfc/1sIAFgS3N1I/s1600/Fleurs.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 214px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-EnxCvrodcDY/Th-Ryf8X74I/AAAAAAAABfc/1sIAFgS3N1I/s320/Fleurs.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5629378355990622082" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Quando o cinzento céu, como pesada tampa,&lt;br /&gt;Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,&lt;br /&gt;E a sua fria cor sobre a terra se estampa,&lt;br /&gt;O dia transformado em noite pardacenta;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se muda a terra em húmida enxovia&lt;br /&gt;D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,&lt;br /&gt;Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,&lt;br /&gt;Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a chuva, caindo a cântaros, parece&lt;br /&gt;D'uma prisão enorme os sinistros varões,&lt;br /&gt;E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece,&lt;br /&gt;Com paciente labor, fantásticas visões,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,&lt;br /&gt;Lançando para os céus um brado furibundo,&lt;br /&gt;Como os doridos ais de espíritos errantes&lt;br /&gt;Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soturnos funerais deslizam tristemente&lt;br /&gt;Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,&lt;br /&gt;Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,&lt;br /&gt;Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Baudelaire (1821-1867). In: "As Flores do Mal"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2608448164284233328?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2608448164284233328/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2608448164284233328' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2608448164284233328'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2608448164284233328'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/spleen.html' title='Spleen'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-EnxCvrodcDY/Th-Ryf8X74I/AAAAAAAABfc/1sIAFgS3N1I/s72-c/Fleurs.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-85572716248990295</id><published>2011-07-14T17:51:00.000-07:00</published><updated>2011-07-26T07:53:30.296-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Baudelaire'/><title type='text'>Sepultura d'un poeta maudito</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-nFkYKWDG7iw/Th-Pl738CxI/AAAAAAAABfU/aivtrAVOHOs/s1600/baudelaire_nadar.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 295px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-nFkYKWDG7iw/Th-Pl738CxI/AAAAAAAABfU/aivtrAVOHOs/s320/baudelaire_nadar.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5629375941126654738" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Se, em noite horrorosa, escura,&lt;br /&gt;Um cristão, por piedade,&lt;br /&gt;te conceder sepultura&lt;br /&gt;Nas ruínas d'alguma herdade,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As aranhas hão-de armar&lt;br /&gt;No teu coval suas teias,&lt;br /&gt;E nele irão procriar&lt;br /&gt;Víboras e centopeias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sobre a tua cabeça,&lt;br /&gt;A impedi-la que adormeça.&lt;br /&gt;- Em constantes comoções,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hás-de ouvir lobos uivar,&lt;br /&gt;Das bruxas o praguejar,&lt;br /&gt;E os conluios dos ladrões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Baudelaire (1821-1867). In: "As Flores do Mal"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-85572716248990295?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/85572716248990295/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=85572716248990295' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/85572716248990295'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/85572716248990295'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/sepultura-dun-poeta-maudito.html' title='Sepultura d&apos;un poeta maudito'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-nFkYKWDG7iw/Th-Pl738CxI/AAAAAAAABfU/aivtrAVOHOs/s72-c/baudelaire_nadar.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5401328824828576512</id><published>2011-07-14T16:54:00.000-07:00</published><updated>2011-07-14T17:33:04.807-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Baudelaire'/><title type='text'>Baudelaire</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-PD8zwVI69W4/Th-Kh-6OnlI/AAAAAAAABfM/17MQXVNskko/s1600/Baudelaire_crop.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-PD8zwVI69W4/Th-Kh-6OnlI/AAAAAAAABfM/17MQXVNskko/s320/Baudelaire_crop.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5629370375663951442" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Sua admiração por Baudelaire não conhecia limites. A seu ver, em literatura, os escritores tinham se limitado até então a explorar as superfícies da alma ou a penetrar-lhe os subterrâneos acessíveis e iluminados, assinalando, aqui e ali, as jazidas dos pecados capitais, estudando os seus filões, estudando o seu crescimento, anotando, como o fizera Balzac por exemplo, as estratificações da alma possuída da monomania de uma paixão, da ambição, da avareza, da estupidez paterna, do amor senil.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Tratava-se, de resto, da excelente saúde das virtudes e dos vícios, da tranquila atuação de cérebros de conformação vulgar, da realidade prática das ideias correntes, sem ideal de depravação malsã, sem nenhum além; em suma, as descobertas dos analistas se detinham nas especulações más ou boas, classificadas pela Igreja; era a investigação simples, a vigilância rotineira de um botânico que acompanha de perto o desenvolvimento previsto das florações normais plantadas em terra natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baudelaire havia ido mais longe; descera até as profundezas da mina inesgotável, enfiara-se por galerias abandonadas ou desconhecidas, alcançara aqueles distritos da alma onde se ramificam as vegetações monstruosas do pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá, perto desses confins onde habitam as aberrações e as doenças, os tétanos místicos, a ardente febre da luxúria, os tifos e os vômitos do crime, descobrira ele, incubando sob a morna redoma do tédio, o pavoroso retorno da idade dos sentimentos e das ideias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia ele revelado a psicologia mórbida do espírito que atingiu o outubro das suas sensações; narrado os sintomas das almas solicitadas pela dor, privilegiadas pelo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;spleen;&lt;/span&gt; mostrado a cárie crescente das impressões, quando os entusiasmos, as crenças da juventude já se calaram, quando não resta mais que a árida recordação das misérias suportadas, das intolerâncias sofridas, das contusões padecidas por inteligências a quem oprime um destino absurdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhara ele todas as fases desse lamentável outono, observando a criatura humana dócil em irritar-se, hábil em defraudar-se, obrigando seus pensamentos a trapacear entre si, para melhor sofrer, estragando de antemão, graças à análise e à observação, toda a alegria possível. (...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em páginas magníficas, ele tinha exposto os amores híbridos, exasperados pela impotência em que estão de satisfazer-se, as perigosas mentiras dos estupefacientes e dos tóxicos cujo auxílio é requerido para entorpecer a dor e enganar o tédio. Numa época em que a literatura atribuía quase exclusivamente a dor de viver à má sorte de um amor desprezado ou aos ciúmes do adultério, havia ele negligenciado tais moléstias infantis e sondado as chagas mais incuráveis, mais duradouras, mais profundas que são cavadas pela saciedade, pela desilusão, pelo desprezo, nas almas em ruínas a quem o presente tortura, o passado repugna, e o porvir atemoriza e desespera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quanto mais Des Esseintes relia Baudelaire, mais reconhecia um indizível encanto nesse escritor que, num tempo em que o verso servia apenas para pintar o aspecto exterior dos seres e das coisas, alcançara exprimir o inexprimível, graças a uma linguagem musculosa e carnuda que, mais do que qualquer outra, possuía o maravilhoso poder de fixar, com uma estranha saúde de expressão, os estados mórbidos mais fugazes, mais tremidos, dos espíritos esgotados e das almas tristes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de Baudelaire, era assaz restrito o número de livros franceses alinhados nas suas estantes. Des Esseintes mostrava-se seguramente insensível às obras ante as quais é de bom gosto a pessoa pasmar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joris-Karl Huysmans, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Às avessas&lt;/span&gt; (1884). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;São Paulo: Penguin, 2011, pp. 208-210.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5401328824828576512?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5401328824828576512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5401328824828576512' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5401328824828576512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5401328824828576512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/baudelaire.html' title='Baudelaire'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-PD8zwVI69W4/Th-Kh-6OnlI/AAAAAAAABfM/17MQXVNskko/s72-c/Baudelaire_crop.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2278471577829837085</id><published>2011-07-13T14:33:00.000-07:00</published><updated>2011-07-13T14:43:42.453-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mulheres extraordinárias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Músicas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inglês'/><title type='text'>I hold no grudge</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-1_U64XAZovM/Th4Q3QpITEI/AAAAAAAABfE/4qh7vBhvMWg/s1600/nina-simone.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 249px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-1_U64XAZovM/Th4Q3QpITEI/AAAAAAAABfE/4qh7vBhvMWg/s320/nina-simone.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5628955125806025794" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;I hold no grudge&lt;br /&gt;There's no resentment und'neath&lt;br /&gt;I'll extend the laurel wreath and we'll be friends&lt;br /&gt;But right there is where it ends&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I hold no grudge&lt;br /&gt;And I'll forgive you your mistake&lt;br /&gt;But forgive me if I take it all to heart&lt;br /&gt;And make sure that it doesn't start again&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yes I'm the kind of people&lt;br /&gt;You can step on for a little while&lt;br /&gt;But when I call it quits&lt;br /&gt;Baby that's it&lt;br /&gt;I'm the kind of people&lt;br /&gt;You can hurt once in a while&lt;br /&gt;But crawling just ain't my style&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I hold no grudge&lt;br /&gt;Deep inside me there's no regrets&lt;br /&gt;But a gal who's been forgotten may forgive&lt;br /&gt;But never once forget&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=od0jO5_ltPM"&gt;Ouça aqui &lt;/a&gt;essa bela canção de Angelo Badalamenti e John Clifford na inesquecível voz de Nina Simone (1933-2003)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2278471577829837085?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2278471577829837085/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2278471577829837085' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2278471577829837085'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2278471577829837085'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/i-hold-no-grudge.html' title='I hold no grudge'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-1_U64XAZovM/Th4Q3QpITEI/AAAAAAAABfE/4qh7vBhvMWg/s72-c/nina-simone.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5748203053821117333</id><published>2011-07-13T06:04:00.000-07:00</published><updated>2011-07-13T14:27:36.989-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Psicologia etc'/><title type='text'>O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-mnnkhADb5p4/Th2ZFTz9AlI/AAAAAAAABe8/CItva2uTpkw/s1600/Mario.jpeg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 258px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-mnnkhADb5p4/Th2ZFTz9AlI/AAAAAAAABe8/CItva2uTpkw/s320/Mario.jpeg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5628823425779565138" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E para mim, basta o essencial!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mário Coelho Pinto de Andrade (1928/1990), poeta, ensaísta e escritor angolano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Fonte&lt;/span&gt;: &lt;a href="http://paraensedeminas.blog.terra.com.br/2011/07/13/uma-pausa-para-meditacao/"&gt;paraensedeminas&lt;/a&gt; (Blog do Luiz David)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5748203053821117333?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5748203053821117333/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5748203053821117333' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5748203053821117333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5748203053821117333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/o-valioso-tempo-dos-maduros.html' title='O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-mnnkhADb5p4/Th2ZFTz9AlI/AAAAAAAABe8/CItva2uTpkw/s72-c/Mario.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-6386938204921178109</id><published>2011-07-12T16:36:00.000-07:00</published><updated>2011-07-13T14:27:50.131-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><title type='text'>Francisco de Goya</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-id5OYPDvJUY/Thze-SflFMI/AAAAAAAABe0/EhBkG0F2zNg/s1600/Goya_-_Caprichos_%252870%2529.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 218px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-id5OYPDvJUY/Thze-SflFMI/AAAAAAAABe0/EhBkG0F2zNg/s320/Goya_-_Caprichos_%252870%2529.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5628618796003824834" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Para distrair-se e matar as horas intérminas, recorreu às pastas de estampas e arrumou os seus Goyas; os primeiros estados de certas pranchas dos &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Caprichos&lt;/span&gt;, provas reconhecíveis pelo seu tom avermelhado, outrora adquiridas a peso de ouro, alegraram-no e ele se abismou nelas, acompanhando as fantasias do pintor, enamorado de suas cenas vertiginosas, de suas feiticeiras cavalgando gatos, de suas mulheres forcejando por arrancar os dentes de um enforcado, de seus bandidos, de seus súcubos, de seus demônios e anões.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Depois, percorreu-lhe todas as outras séries de águas-fortes e aquatintas, os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Provérbios&lt;/span&gt; de um horror tão macabro, os temas de guerra de uma ira tão feroz, a prancha do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Garrote &lt;/span&gt;finalmente, de que acarinhava uma maravilhosa prova de ensaio, impressa em papel espesso, sem cola, com linhas claras visíveis atravessando a pasta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A selvagem inspiração, o talento áspero, desvairado de Goya, o prendiam; todavia, a universal admiração conquistada por suas obras afastavam-no um tanto delas, e ele havia renunciado, fazia anos, a enquadrá-las, receoso de, pondo-as em evidência, o primeiro imbecil que o viesse visitar se julgasse obrigado a proferir asnices e a extasiar-se, por cortesia, diante delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joris-Karl Huysmans, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Às avessas&lt;/span&gt; (1884), &lt;span style="font-size:85%;"&gt;São Paulo: Penguin, 2011, p. 166.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Imagem&lt;/span&gt;: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Caprichos&lt;/span&gt; (70), de Francisco de Goya (1746-1828)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-6386938204921178109?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/6386938204921178109/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=6386938204921178109' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/6386938204921178109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/6386938204921178109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/goya.html' title='Francisco de Goya'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-id5OYPDvJUY/Thze-SflFMI/AAAAAAAABe0/EhBkG0F2zNg/s72-c/Goya_-_Caprichos_%252870%2529.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-8546194681039422441</id><published>2011-07-11T15:23:00.000-07:00</published><updated>2011-07-13T14:28:01.513-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Pedro, meu filho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-PKuu39CPEL8/Tht5HWiSdsI/AAAAAAAABes/5h6qCWeGMIQ/s1600/pedro.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 255px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-PKuu39CPEL8/Tht5HWiSdsI/AAAAAAAABes/5h6qCWeGMIQ/s320/pedro.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5628225326545008322" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Acordei pela manhã com uma estranha sensação de leveza, como se em poucas horas eu tivesse emagrecido vários quilos. Lembrava-me de ter ido para a cama por volta de onze da noite, entorpecido pelo vinho e sentindo a refeição pesar no estômago, enquanto o coração bombeava com dificuldade o sangue necessário para uma digestão que, ao que tudo indicava, transformaria meu sono em uma travessia angustiosa pelas longas horas da madrugada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Minha mulher roncava quando eu coloquei a cabeça no travesseiro, tateando o lençol à procura do controle remoto da televisão e pensando, com tristeza, em como seria minha noite depois de tanta comida e bebida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, dormi maravilhosamente bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não acordei apenas com uma sensação de leveza no corpo, como se em cinco ou seis horas eu tivesse passado por uma dieta de desintoxicação e emagrecimento que normalmente só traria resultados depois de cinco ou seis meses de sacrifícios terríveis. Não. Acordei também com o espírito mais leve, como se o peso de sentimentos negativos, que até à minha entrada pacífica no misterioso território do sono eu carregava dentro de mim, tivesse desaparecido junto com o peso corporal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me da cama e me dirigi à sacada do quarto, cuja porta de vidro se abria para uma bela vista do bairro, sem sentir o inchaço e as dores nas juntas que me atacavam todas as manhãs; com o corpo leve, a respiração fácil, o coração sereno e calmo, e, ao mesmo tempo, sem as preocupações e angústias que, de costume, não me davam trégua desde as primeiras luzes do dia até altas horas da noite: sobretudo aquela vontade de poder, que vinha sempre acompanhada de um desejo incontrolável de acumular riquezas e me apresentar ao mundo com todos os artificialismos que exigiam minhas ambições e sonhos de grandeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei sentindo-me livre dessas vontades – ou pelo menos não as senti consumindo minha alma com suas línguas de fogo, obrigando meu corpo a reagir contra tudo que se colocasse como obstáculo às estratégias e planos por mim traçados para alcançar o que, na minha visão, era o sucesso. Aquele dia não foi assim; embora eu sentisse os demônios do poder e da ambição me espreitando pelos cantos do quarto, dispostos a reconquistar o meu ser, ainda não completamente livre das forças sombrias que cercam muitas de nossas vontades mundanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, naquela manhã, nenhum peso me pareceu tão ausente de mim quanto a culpa que eu carregava há vários anos por ter sido o responsável pela desgraça que se abateu sobre o meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre fui muito exigente com ele. Na escola, tirar o segundo lugar, para mim, era inaceitável. Ele tinha que ser sempre o primeiro, o melhor, o mais inteligente, o mais perspicaz, o mais invejado pelos colegas. Sempre cultivei nele o que eu acreditava ser a fórmula perfeita para o sucesso: ambição, orgulho, coragem, determinação e força, atributos que, com a dose certa de inteligência, sagacidade, dissimulação e estratégia, poderiam levá-lo aos cumes mais altos do sucesso profissional, da glória, da riqueza e do poder. E, para ajudá-lo nessa empreitada em direção aos picos do insuperável, haveria sempre o enorme patrimônio da família, acrescido cada vez mais com novas fazendas, casas, apartamentos e aluguéis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante disso, certamente não deverá surpreender ao leitor a minha decepção amarga quando percebi que meu filho gostava mais de poesia e filosofia do que de matemática, química e biologia. Eu queria que ele fosse médico, um renomado cirurgião, respeitado no país inteiro e até mesmo no exterior, mas o que ele demonstrava aos quinze anos, contrariando todas as minhas expectativas, era uma paixão avassaladora pelo teatro, que ele praticava às escondidas depois das aulas, interpretando figuras grotescas, cantando e dançando como uma mocinha. E, como eu soube depois, ele gostava também de escrever poemas, que lia em recitais aos sábados, nos quais muitas vezes vestia-se de mulher, usando quase sempre uma peruca escura e uma enorme bata branca cheia de detalhes dourados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo dilacerava minha alma, mas consegui conter minha indignação nos limites de um aconselhamento pacífico e de poucas palavras, até o dia em que, aos dezessete anos, ele entrou em meu escritório para me dizer que havia decidido prestar vestibular para Filosofia. Tentei fazê-lo mudar de idéia, dizendo que tal decisão era um completo desatino. “Você vai viver de quê, meu filho? O que faz um filósofo? Ele trabalha com o quê? Quanto ganha alguém para filosofar?”. Não adiantou. Ele me olhou nos olhos e disse que sua decisão estava tomada, e que se eu quisesse aproveitar aquela chance para agir como um pai de verdade (pelo menos uma vez na vida), que eu o apoiasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não o apoiei. Eu o ameacei de todas as maneiras que pude: corte de mesada, expulsão de casa e outras bobagens do gênero, entremeadas com frases não menos estúpidas como: “O que os outros vão pensar?”. Ao que ele me respondeu, perguntando: “Por que você se preocupa tanto com os outros? Quem são esses outros? Por que eles precisam achar que nós somos felizes, que você se casou com a minha mãe por amor, que eu sou o melhor aluno da escola, que o meu futuro está garantido graças ao meu talento e ao patrimônio de merda que você herdou, construiu e fez crescer com a cobiça e a ambição que traz dentro de sua alma desde a infância?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquelas perguntas foram lançadas com uma fúria que eu jamais tinha visto naquele garoto meigo, que raramente se dirigia a mim, e que, quando o fazia, era só para trocar uma e outra palavra sobre uma bobagem qualquer, com o único propósito de quebrar, por um momento, o gelo glacial que cercava a nossa relação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente fui tomado por um ódio terrível e avancei em sua direção disposto a matá-lo se fosse preciso. Ele tentou correr, mas puxei-o pelos cabelos e joguei-o com toda a força contra a parede. Peguei-o pelo braço e levei-o até o banheiro do corredor, onde enfiei sua cabeça no vaso umas dez vezes, enquanto gritava: “É na merda que você quer viver, sua bicha? Então experimenta esta merda aqui e veja se você gosta”. E ele se debatia, tentava chamar a mãe – que já devia estar dormindo, dopada com seus remédios para depressão –, e lutava para respirar, com o rosto todo molhado com a urina que eu tinha despejado ali alguns minutos antes. Quando ele conseguiu escapar de minhas mãos, pegou a chave do carro e saiu em disparada pela avenida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como eu dizia, ao acordar naquela manhã, não senti mais a culpa me corroendo o espírito; somente uma lembrança distante a me apertar de leve o peito e a maravilhosa sensação de que o futuro se encontrava aberto para o perdão e a consolação sem dor, sem medo e angústia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando o céu que brilhava com as primeiras luzes da manhã, senti a presença do meu filho ao meu lado na sacada, e o vi, com seu olhar perdido no horizonte, vestindo a mesma roupa que ele usava quando saiu de carro naquela fatídica noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pedro, meu filho...”, eu disse, sorrindo, e estendi a mão para tocá-lo. Em seu rosto jovial e alegre percebi, aliviado, que ele tinha me perdoado, e uma felicidade muito maior que a soma de todas as alegrias que eu tinha vivido em toda a minha vida me invadiu naquele exato momento, tornando meu corpo e meu espírito ainda mais leves, como se eu fosse capaz de saltar e alcançar, sem o menor esforço, a plenitude dos céus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pedro, meu filho... Como é possível... você... aqui?”, perguntei, com lágrimas nos olhos, mas ele não respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O acidente. Aquele terrível acidente do qual, sem dúvida, eu tinha sido o único culpado... Cheguei no local às duas da madrugada. O carro estava completamente destruído, abraçado a um poste na avenida deserta. Preso às ferragens, sem vida, estava o corpo do meu filho. Tentei abrir com as mãos a carcaça confusa de ferros retorcidos, dizendo para ele, desesperado: “Vou tirar você daí, meu filho. Não se preocupe. Vou tirar você daí e vamos começar uma vida nova. Você vai fazer o que gosta e eu vou te apoiar, não se preocupe...”. Mas já não havia mais o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pedro, meu filho... Como é possível?”, perguntei de novo, enquanto a manhã ganhava vida sobre os telhados marrons das casas do bairro. Ele se virou novamente para mim e apontou para a minha cama, dizendo: “Veja”. Ao me virar, levei um susto. Ao lado de minha esposa adormecida estava o que parecia ser eu, deitado de barriga pra cima, com o rosto contorcido e as mãos crispadas: um corpo pálido e sem vida. Pedro respondeu ao meu espanto com um novo sorriso e disse: “Aquilo ali nada mais é do que o envoltório carnal que você abandonou durante a noite. Chegou o momento, para você, de se dirigir a outros planos de aperfeiçoamento espiritual e, talvez, conforme os desígnios de Deus, um dia voltar à crosta terrestre para uma nova etapa de vida junto aos homens. Recebi autorização de meus guias espirituais para vir buscá-lo e auxiliá-lo na sua nova jornada de aperfeiçoamento. Informo-lhe, ademais, que a sensação de leveza que você sente agora se intensificará ainda mais, na medida em que for deixando para trás aquilo que lhe servira de motor no plano físico e que, para nós, no plano espiritual, são pesos inúteis: o orgulho, a ambição, o egoísmo, o desejo de poder e riqueza, a prepotência, a dissimulação, a cupidez, a mentira, o ódio, a vingança...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não conseguia dizer nada. Só o olhava, assustado, sem entender aquilo tudo, sem acreditar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Venha comigo, meu pai...”, disse ele, e me estendeu a mão. Agarrei-a com força, puxei meu filho para junto de mim e abracei-o, chorando e repetindo, com lágrimas nos olhos: “Pedro... meu filho... Pedro... meu filho...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-8546194681039422441?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/8546194681039422441/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=8546194681039422441' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8546194681039422441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8546194681039422441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/pedro-meu-filho.html' title='Pedro, meu filho'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-PKuu39CPEL8/Tht5HWiSdsI/AAAAAAAABes/5h6qCWeGMIQ/s72-c/pedro.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-375381157219352605</id><published>2011-07-10T14:12:00.001-07:00</published><updated>2011-07-10T14:22:50.855-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gustavo Corção'/><title type='text'>Misericórdia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-IAlURKEpW34/ThoX7O2W00I/AAAAAAAABek/xcf92upDMcM/s1600/abismo.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 300px; height: 225px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-IAlURKEpW34/ThoX7O2W00I/AAAAAAAABek/xcf92upDMcM/s320/abismo.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5627836990718661442" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Saio do café; e descubro logo como é fácil apiedar-se dos outros. A gente chega, dá corda aos bons sentimentos, e depois vai-se embora. É assim que se visitam os doentes. Cumpre-se o dever, tem-se pena, e vai-se embora. O doente fica. O doente vê o mundo numa perspectiva diferente do visitante. Ele vê um mundo que chega, que se debruça com fácil misericórdia de dez minutos, e que depois se despede. O doente fica. É, por definição, alguém que fica. Da cama ele vê o visitante voltar-se ainda uma vez, na porta, com votos de melhora; depois vê o visitante de costas, lampeiro, ágil; ouve seus passos na escada, alguma frase de último conforto jovial para a pessoa da família, que agradece; por fim, range o portão, bate a porta do automóvel, arranca o motor... e foi-se embora a misericórdia!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Gustavo Corção, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lições de abismo&lt;/span&gt; (1950), &lt;span style="font-size:85%;"&gt;15ª edição, Rio de janeiro: Agir, 2004, p. 143-4.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-375381157219352605?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/375381157219352605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=375381157219352605' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/375381157219352605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/375381157219352605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/07/misericordia.html' title='Misericórdia'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-IAlURKEpW34/ThoX7O2W00I/AAAAAAAABek/xcf92upDMcM/s72-c/abismo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5225607286320159589</id><published>2011-06-24T13:40:00.000-07:00</published><updated>2011-06-24T14:13:27.500-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escrever'/><title type='text'>Carta ao Zézim</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-ciKVaY5uTts/TgT9S41NIWI/AAAAAAAABec/7d65Ayrqgnc/s1600/caio.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 222px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-ciKVaY5uTts/TgT9S41NIWI/AAAAAAAABec/7d65Ayrqgnc/s320/caio.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621896735800238434" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Porto Alegre, 22 de dezembro de 1979&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Zézim,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tua carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portanto, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai, anda”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz "Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentemente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida". Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pausa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Morangos mofados&lt;/span&gt;, vai levar uma epígrafe de Lennon &amp;amp; McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada como estava, na &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nova&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A faca no coração&lt;/span&gt;, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado "Mulher em chamas". Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O verdadeiro filho da puta&lt;/span&gt;, mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado "O recomeço do sonho". Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção - porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava puta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus(?). Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Povos outros, nem vi. Soube que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A comunidade&lt;/span&gt; está em cartaz ainda e tenho grana pra receber. Amanhã acho que vou lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ocê viu a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nova&lt;/span&gt;? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de "não me comprometam, não tenho nada a ver com isso". Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo no outro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que "desse certo", caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Morangos mofados&lt;/span&gt;, escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada". É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Let me take you down&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;cause I’m going to strawberry fields&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;nothing is real, and nothing to get hung about&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;strawberry fields forever &lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;strawberry fields forever &lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;strawberry fields forever&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Let me take you: I’m going to strawberry fields.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me conta da Adélia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Arantes, pra terminar: "Eu quero te ver com saúde / sempre de bom humor / e de boa vontade".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um beijo do&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS — Abraço pro Nello. Pra Ana Matos, e Nino também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Caio Fernando Loureiro de Abreu&lt;/span&gt; nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago (RS). Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pop&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nova&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Veja&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Manchete&lt;/span&gt;, foi editor de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Leia Livros&lt;/span&gt; e colaborou nos jornais &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Correio do Povo&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Zero Hora&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Estado de São Paulo&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Folha de São Paulo&lt;/span&gt;. No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas (SP). Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais. Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ovelhas Negras&lt;/span&gt; — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Bien Loin de Marienbad&lt;/span&gt;. Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde faleceu no dia 25 de fevereiro de 1996.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Bibliografia:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Inventário do Irremediável&lt;/span&gt;, contos. Prêmio Fernando Chinaglia da UBE (União Brasileira de Escritores); Rio Grande do Sul: Movimento, 1970; 2ª ed. Sulina, 1995 (com o título alterado para &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Inventário do Ir-remediável&lt;/span&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Limite Branco&lt;/span&gt;, romance. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971; 2ª ed. Salamandra, 1984; São Paulo: 3ª ed., Siciliano, 1992.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Ovo Apunhalado&lt;/span&gt;, contos. Rio Grande do Sul: Globo, 1975; Rio de Janeiro: 2ª edição, Salamandra, 1984; São Paulo: 3ª edição, Siciliano, 1992.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pedras de Calcutá&lt;/span&gt;, contos. São Paulo: Alfa-Omega, 1977; 2 ed., Cia. das Letras, 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Morangos Mofados&lt;/span&gt;, contos. São Paulo: Brasiliense, 1982; 9 ed. Cia. das Letras, 1995. Reeditado pela Agir - Rio, 2005.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Triângulo das Águas&lt;/span&gt;, novelas. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro para melhor livro de contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983; São Paulo: 2 edição Siciliano, 1993.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;As Frangas&lt;/span&gt;, novela infanto-juvenil. Medalha Altamente Recomendável Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. Rio de Janeiro: Globo, 1988.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Os Dragões não Conhecem o Paraíso&lt;/span&gt;, contos. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro para melhor livro de contos. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Maldição do Vale Negro&lt;/span&gt;, peça teatral. Prêmio Molière de Air France para dramaturgia nacional. Rio Grande do Sul: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro), 1988.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Onde Andará Dulce Veiga?&lt;/span&gt;, romance. Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) para romance. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Bien Loin de Marienbad&lt;/span&gt;, novela. Paris, França Arcane 17, 1994.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ovelhas Negras&lt;/span&gt;, contos. Rio Grande do Sul: 2 ed. Sulina, 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mel &amp;amp; Girassóis&lt;/span&gt; (Antologia)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&lt;span style="font-style: italic;"&gt; Estranhos Estrangeiros&lt;/span&gt;, contos. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Teatro Completo&lt;/span&gt;, 1997&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teatro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Homem e a Mancha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Zona Contaminada&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tradução:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Arte da Guerra&lt;/span&gt;, de Sun Tzu, 1995 (com Miriam Paglia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A carta acima foi enviada pelo autor a seu grande amigo, o jornalista José Márcio Penido, e nela relata a criação do livro "Morangos mofados", fala de sua admiração por Clarice Lispector e Dalton Trevisan e estimula  o amigo a escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Extraído do livro citado, Editora Agir - Rio de Janeiro, 2005, pág. 152.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5225607286320159589?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5225607286320159589/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5225607286320159589' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5225607286320159589'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5225607286320159589'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/06/carta-ao-zezim.html' title='Carta ao Zézim'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-ciKVaY5uTts/TgT9S41NIWI/AAAAAAAABec/7d65Ayrqgnc/s72-c/caio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-8307749909869532088</id><published>2011-06-20T19:30:00.000-07:00</published><updated>2011-06-20T20:41:31.508-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Francês'/><title type='text'>La médiocrité dans L'Idiot, de Dostoïevski</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-9u_HACFp588/TgAQRjmLaWI/AAAAAAAABeU/sh8d0EvRSHg/s1600/Idiot.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 196px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-9u_HACFp588/TgAQRjmLaWI/AAAAAAAABeU/sh8d0EvRSHg/s320/Idiot.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5620510228757571938" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Il n'y a rien de plus vexant que d'être, par exemple, riche, de bonne famille, d'extérieur avenant, passablement instruit, pas sot, même bon, et de n'avoir néanmoins aucun talent, aucun trait personnel, voire aucune singularité, de ne rien penser en propre; enfin, d'être positivement "comme tout le monde". On est riche, mais pas autant que Rothschild; on a un nom honorable, mais sans lustre; on se présente bien, mais sans produire aucune impression; on a reçu une éducation convenable, mais qui ne trouve pas son emploi; on n'est pas dénué d'intelligence, mais on n'a pas d'idées à soi; on a du coeur, mais aucune grandeur d'âme; et ainsi de suite sous tous les rapports. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 561)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Il y a, de par le monde, une foule de gens de cet acabit, plus même qu'on ne le saurait croire. Ils se divisent, comme tous les hommes, en deux catégories principales: ceux qui sont bornés et ceux qui sont "plus intelligents". Ce sont les premiers les plus heureux. Un homme "ordinaire" d'esprit borné peut fort aisément se croire extraordinaire et original, et se complaire sans retenue dans cette pensée. Il a suffi à certaines de nos demoiselles de se couper les cheveux, de porter des lunettes bleues et de se dire nihilistes pour se persuader aussitôt que ces lunettes leur conféraient des "convictions" personnelles. Il a suffi à tel homme de découvrir dans son coeur un atome de sentiment humanitaire et de bonté pour s'assurer incontinent que personne n'éprouve un sentiment pareil et qu'il est un pionnier du progrès social. Il a suffi à un autre de s'assimiler une pensée qu'il a entendu formuler ou lue dans un livre sans commencement ni fin, pour s'imaginer que cette pensée lui est propre et qu'elle a germé dans son cerveau. C'est un cas étonnant d'impudence dans la naïveté, s'il est permis de s'exprimer ainsi; pour invraisemblable qu'il paraisse, on le rencontre constamment. (...). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 561)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gavrila Ardalionovitch Ivolguine, qui est un des héros de notre roman, appartenait à la seconde catégorie, celle des médiocres "plus intelligents", encore que, de la tête aux pieds, il fût travaillé du désir d'être original. Nous avons observé plus haut que cette seconde catégorie est beaucoup plus malheureuse que la première. Cela tient à ce qu'un homme "ordinaire" mais &lt;span style="font-style: italic;"&gt;intelligent&lt;/span&gt;, même s'il se croit à l'occasion (voire pendant toute sa vie) doué de génie et d'originalité, n'en garde pas moins dans son coeur le ver du doute qui le ronge au point de finir parfois par le jeter dans un complet désespoir. (...). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 562)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voici un des ces malheureux qui est un homme honnête et même bon, qui est la providence de sa famille, qui entretient et fait vivre avec son travail non seulement les siens, mais encore des étrangers. Que lui advient-il? Il n'a pas de tranquillité pendant toute sa vie! La conscience d'avoir si bien rempli ses devoirs d'homme n'arrive pas à le rasséréner; au contraire, cette pensée l'irrite: "Voilà, dit-il, à quoi j'ai gâché mon existence; voilá ce qui m'a lié bras et jambes; voilà ce qui m'a empêché d'inventer la poudre! Sans ces obligations, j'aurais peut-être découvert la poudre ou l'Ámerique; je ne sais pas au juste quoi, mais j'aurais sûrement découvert quelque chose!" &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 563)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Le plus caractéristique chez ces gens-là, c'est qu'ils passent en effet leur vie sans parvenir à savoir exactement ce qu'ils doivent découvrir et qu'ils sont toujours à la veille de découvrir: la poudre ou l'Ámerique? &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 563)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Je vous hais, Gavrila Ardalionovitch, et - ceci vous surprendra peut-être - &lt;span style="font-style: italic;"&gt;uniquement&lt;/span&gt; parce que vou êtes le type, l'incarnation, la personnification et la très parfaite expression de la médiocrité la plus impudente, la plus infatuée, la plus plate et la plus repoussante! Vou êtes la médiocrité gonflée, celle qui ne doute de rien et se drape dans une sérénité olympienne; vous êtes la routine des routines! Jamais l'ombre d'une idée personnelle ne germera dans votre esprit ou dans votre coeur. Mais votre envie ne connaît point de bornes; vous êtes fermement convaincu que vous êtes un génie de premier ordre. Toutefois, le doute vous hante dans vos moments de mélancolie et vous éprouvez alors des accès de colère et d'envie". &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p. 583)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fédor Dostoïevski, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;L'Idiot&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Éditions Gallimard, 1994.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-8307749909869532088?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/8307749909869532088/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=8307749909869532088' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8307749909869532088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8307749909869532088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/06/la-mediocrite-dans-lidiot-de.html' title='La médiocrité dans L&apos;Idiot, de Dostoïevski'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-9u_HACFp588/TgAQRjmLaWI/AAAAAAAABeU/sh8d0EvRSHg/s72-c/Idiot.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1680436160996145537</id><published>2011-05-31T17:58:00.000-07:00</published><updated>2011-05-31T18:10:46.879-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Psicologia etc'/><title type='text'>Solidão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-oNvN_oxjBSc/TeWQ6oMwsdI/AAAAAAAABeI/i7V_p1bcJHs/s1600/solid%25C3%25A3o.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 244px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-oNvN_oxjBSc/TeWQ6oMwsdI/AAAAAAAABeI/i7V_p1bcJHs/s320/solid%25C3%25A3o.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5613051847484944850" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;A solidão é uma tragada&lt;/span&gt; (crônica de Rogério Pereira):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto da solidão. Não bebo. Não fumo. Agora, por azar, descubro que estou muito perto da morte. Parei de fumar e beber por motivos distintos. O cigarro consumia-me as últimas golfadas de ar ao arriscar risíveis dribles nos campinhos de pelada. A bebida cozinhava-me as vísceras e sapecava-me o pouco juízo. Não fumo há 15 anos. Não bebo há 115 meses e 14 dias. No entanto, a abstinência etílica e de tragadas longas e saborosas não me possibilitará algumas horas a mais de vida. Estou com os dias contados. Maldição. Há uma saída, mas reluto em tomar um caminho que me parece assustador. Talvez a companhia da escuridão, a exalar o adocicado aroma dos crisântemos, seja uma alternativa mais honrosa e menos traumática.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Tenho poucos, pouquíssimos amigos. Minha vida social está envolta de poucas palavras, nenhuma festa e demonstrações tímidas de carinho. Alguns dizem que sou misantropo. Longe disso. Apenas abomino a aglomeração de afetos e manifestações exasperantes de amor coletivo. Não sirvo para sindicalista, piqueteiro ou swinger. Agora, se eu quiser viver mais alguns segundos do que o previsto (quanto?), terei de rever toda a minha vida. Pelo menos é isso que me alerta um dos poucos amigos. Abro o e-mail e leio a matéria enviada, cujo título causa-me certo incômodo: “Não ter amigos é tão perigoso quanto fumar ou beber em excesso”. Penso de imediato: não é comigo. Tenho amigos. Poucos, é verdade. Muito poucos. Pouquíssimos. Caramba! Logo abaixo do título, uma informação infiltra-se pelo meu abdome, aloja-se em alguma parte do corpo, uma parte desconhecida, e espeta-me as costelas: “Estudos revelam que pessoas com menos relações sociais morrem até 50% antes das que convivem mais”. A frase, confusa e mal escrita, tenta me alertar para a necessidade de aumentar minhas relações sociais. O que isso significa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A reportagem começa de maneira amedrontadora: “Não ter amigos pode ser tão perigoso para a saúde como fumar ou consumir álcool em excesso, diz um estudo de cientistas americanos publicado no site da revista PLoS Medicine”. A coisa parece séria. Especialistas da Universidade Brigham Young, em Utah, e do Departamento de Epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, analisaram como o isolamento excessivo pode afetar a saúde. E provam em números. A morte é um número. Os pesquisadores recorreram a 148 estudos prévios com dados sobre a mortalidade de indivíduos em função de suas relações sociais, diz o texto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, com certeza, revestido de uma carcaça falsamente normal, devo me encaixar em algum exemplo analisado. Ao todo, foram acompanhadas quase 309 mil pessoas por cerca de 7 anos e meio. Convenhamos: pesquisador americano tem tempo à beça. Aí, chegaram à fatídica (pelos menos para mim) conclusão de que “as pessoas com mais relações sociais têm 50% mais chances de sobrevivência do que quem se relaciona menos com outros”. Mas quem seriam estes outros? Humanos? Vale animal? Pônei, cachorro, cobra ou minhoca? As relações homem-animal são válidas para a longevidade? Pouco importa. Nunca tive animal de estimação. Tampouco minha iniciação sexual ocorreu com as galinhas que ciscavam no terreiro da vizinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada me traz esperança. O estudo mostra que “a importância de ter uma boa rede de amigos e boas relações familiares é comparável a deixar de fumar e supera muitos fatores de risco como a obesidade e a inatividade física”. Mas o que é uma boa rede de amigos? Quantidade? Não serve uma rede de três ou quatro? Com quantos amigos se faz uma rede? De relações familiares, melhor não falar. Há um abismo entre as convenções assustadoras, alimentadas por ruidosos almoços aos domingos, regados a sorrisos, abraços e lágrimas, e aquilo que considero uma família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas do que morrem os solitários, os misantropos, os reclusos, os tímidos, os estranhos? Infarto, câncer, tédio ou suicídio? O estudo, ao que parece, não indica as principais causas. Isso não importa. O que importa é que você, sujeito recluso, de poucos amigos, vai pra cova com mais rapidez. Não adianta largar o cigarro e a bebida. Não adianta corridinhas no parque, pedaladas na esteira. Abdominais diários não te salvarão. Não se matricule na melhor academia. A não ser que tenha o objetivo de fazer amigos. Não contrate um personal trainer. Não. Contrate um personal stylist. Ou contrate ambos. E se matricule na melhor academia. Melhore sua aparência. Compre roupas bacanas. Borrife um perfume importado nas ancas do pescoço, no peito, na virilha, sei lá. E vá à luta. Busque amigos. Seja simpático. Faça um clareamento dentário. Deixe os molares, os incisivos brilhando. Corte o cabelo. Faça as unhas. Decore boas frases de efeito. Leia um livro do Augusto Cury e outro do Machado de Assis. Pareça inteligente. E descolado. Tente impressionar muitas pessoas. Seja querido. Seja querida. Seja bacana. Não faça cara feia. Não fique deprimido, nem nostálgico, nem melancólico. Um botox aqui, um silicone ali. Alegria, sempre. Afinal, é a sua vida, a sua longa vida, que está em jogo. Entre no Facebook, no Twitter, no Orkut, em tudo. Aumente a sua rede. Pesque peixes gigantes. Grandes amigos. Amigos para sempre. Amigos instantâneos feito miojo. Faça as pazes com mãe, pai, irmãos, cunhados, tios, tias, cachorro, papagaio. Muita maionese e coca-cola no domingo. Só não vale aquele arrotinho camuflado na coxa do frango assado. Em paz com a família toda. Vamos lá. Bola pra frente. Xô, caixão. Pra lá, crisântemos. A vida é bela. Eu mereço uma vida longa. Você também. Uma vida feliz, com muitos e muitos anos de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não esqueça: não exagere na bebida, abandone o cigarro, pratique esportes, faça check-up periódico (coração, seios e próstata, principalmente), não abuse dos doces, do sal, das drogas, do glúten, não engorde, não se estresse, não tenha um trabalho deprimente, faça yoga (se possível), pilates (se possível), respire ar puro, evite o excesso de café, coma só produtos orgânicos, beije na boca (parece que ativa dezenas de músculos), brinque com os filhos, não discuta com o vizinho, sorria bastante, faça sexo com muita frequência, tome vitaminas, hidrate o corpo, proteja a pele do sol, evite se afogar no mar, olhe para os dois lados da rua ao atravessá-la, pegue avião somente quando inevitável, não fale com estranhos, proteja-se de bala perdida, não dê mole para sequestradores, evite os pedófilos, tenha momentos de lazer, reze para que um piano não caia na sua cabeça, reze para Deus e similares, não coma pastel de rodoviária, não tome café em aeroportos, torça para não se deparar com um cão raivoso, evite encontrar torcedores adversários na saída do estádio… Acredite na sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, se possível, tenha alguns minutos de solidão.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Fonte: &lt;a href="http://www.vidabreve.com/uncategorized/a-solidao-e-uma-tragada"&gt;A solidão é uma tragada&lt;/a&gt;, de Rogério Pereira (crônica publicada no site &lt;a href="http://www.vidabreve.com/"&gt;vidabreve.com,&lt;/a&gt; reproduzida aqui na íntegra)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1680436160996145537?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1680436160996145537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1680436160996145537' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1680436160996145537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1680436160996145537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/05/solidao.html' title='Solidão'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-oNvN_oxjBSc/TeWQ6oMwsdI/AAAAAAAABeI/i7V_p1bcJHs/s72-c/solid%25C3%25A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4419209207141768893</id><published>2011-05-29T15:02:00.000-07:00</published><updated>2011-05-29T15:19:27.357-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gustavo Corção'/><title type='text'>Lições de abismo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-oh1mUQmPaZk/TeLFVq7iMEI/AAAAAAAABeA/I14ttVOC2a8/s1600/Abismo.jpeg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 280px; height: 280px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-oh1mUQmPaZk/TeLFVq7iMEI/AAAAAAAABeA/I14ttVOC2a8/s320/Abismo.jpeg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5612265061748977730" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Deixara para trás, pendurados em invisíveis cabides, os meus títulos exteriores. Que me importava a mim, nessa expedição decisiva, ser professor da Faculdade de Filosofia, padrão O? Que me importava toda a série de pequenas conquistas e de grandes malogros que fazem a fisionomia exterior de minha vida? Sou brasileiro, eleitor, vacinado, autor de um trabalho sobre as integrais de Bessel, membro do clube de Engenharia, proprietário, meio poeta, e agora canceroso. Todos esses predicados juntos não dão um sujeito. Cercam-no, penduram-se nele, ou melhor, realizam-se nele. Mas o sujeito oculto, o sujeito que se procura, e que às vezes inventaria suas exterioridades com um olhar melancólico de velho fidalgo meio desmemoriado, que percorresse de uma sacada do solar os seus domínios invadidos pela erva e desfigurados pelo abandono - onde está ele, esse sujeito? Machuquei ontem o meu dedo. Mas o meu dedo, com todas as suas ligações vivas, parece-me distante, exterior, como um pau-de-cerca derrubado, que o triste dono deste solar arruinado calcula como e quando consertará.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Recuando, descendo cada vez mais fundo, abrindo caminho entre as disparatadas coisas exteriores, pergunto em voz alta: "Onde está a sala do trono no castelo encantado de mim mesmo?". De escuridão em escuridão, de silêncio em silêncio, atravesso com medo os meus recessos. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(p.212-213).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Gustavo Corção, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lições de abismo&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;15ª ed., Rio de Janeiro: Agir, 2004. (1ª ed.: 1950).&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4419209207141768893?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4419209207141768893/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4419209207141768893' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4419209207141768893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4419209207141768893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/05/licoes-de-abismo.html' title='Lições de abismo'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-oh1mUQmPaZk/TeLFVq7iMEI/AAAAAAAABeA/I14ttVOC2a8/s72-c/Abismo.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4395470470170501771</id><published>2011-05-20T12:00:00.000-07:00</published><updated>2011-05-29T15:19:27.358-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gustavo Corção'/><title type='text'>Sobre a bajulação</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-Dp2HtOSLPiw/TdbHRmFK4NI/AAAAAAAABd4/tTz_USqxXi0/s1600/Li%25C3%25A7%25C3%25B5es.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 230px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-Dp2HtOSLPiw/TdbHRmFK4NI/AAAAAAAABd4/tTz_USqxXi0/s320/Li%25C3%25A7%25C3%25B5es.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5608889491030466770" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;É dia de festa em casa do general. Explicou Jandira, a cozinheira, que sua excelência faz anos; e concluo eu que os mimos e as flores que incessantemente chegam ao portão do general-ministro vêm dos empreiteiros em dificuldades e dos fornecedores esperançosos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Logo pela manhã, vi chegar o primeiro portador com uma vistosa cesta de flores. Havia para mais de cinquenta rosas. Depois, no correr do dia, chegaram dálias, gladíolas, estrelícias, gérberas e agapantos. Ao anoitecer, chegou ainda uma comionete carregada de rosas. (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O general, quando chegar, dirá com prazer: "Bonita cesta"; mas não verá as rosas, não saberá que têm nomes, (...) e muito menos saberá que elas dançam, lentissimamente, dentro da noite. Sua excelência, vendo o cesto, o conjunto, o aglomerado, não vê as rosas; como também não vê os rostos, não adivinha os nomes, não suspeita as aflições, os segredos, quando vê a praça apinhada de gente, nos dias de vibração cívica, do alto do palanque presidencial. A praça cheia de gente é também uma cesta, um mimo para seus olhos de ministro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, na intimidade, o general é um demagogo de rosas. Recebe-as aos montes, em comissões, em manifestações coletivas. E a impudicícia das flores ainda me parece mais chocante do que a dos míseros papalvos que se apinham em torno do palanque. Vejam aquelas estrelícias, complicadas e pedantes, como se alçam, como se torcem, para agradar ao homem de Estado! Vejam os agapantos: parece que empurram um deles, magricela, espevitado e melancólico, para saudar o homem de prestígio. É o orador da turma. "Nós, os agapantos desta cidade maravilhosa..." E as dálias? Oferecidas, inchadas, pavoneiam-se nas cestas para que a mão gorda do ministro vá buscar, no colo delas, o cartão do galante empreiteiro. E as próprias rosas, as pérfidas! Enchem o ar de perfume. Qual é a relação que pode existir entre a lisonja de um fornecedor e o perfume das rosas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse eu que o general, não vendo as rosas, via a cesta? Disse mal. Ele não vê a cesta, como não vê as rosas. O próprio conjunto arrumado na cesta não tem existência própria, significação própria. É um sinal. Pertence à categoria dos telegramas, dos distintivos e das condecorações. É um mero sinal. Poderiam os áulicos enviar o recibo estampilhado com o preço das flores, e o efeito seria o mesmo. Porque não é a flor, nem o monte, nem o arranjo, nem a combinação de cores nem o capricho das pétalas que o general apreende quando lhe trazem o presente. Não. O que ele vê, na transparência do sinal, é a subserviência. Atrás da rosa estão as espinhas encurvadas, os sorrisos subalternos. No perfume das flores, o incenso da lisonja interesseira e abjeta. É isso que o ministro vê naquele luxo de pétalas e de cores. É a esperteza, a hipocrisia, a elementar astúcia do bajulador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se assim é, como se explica a satisfação do homem de Estado diante de tão feio espetáculo? Ele sabe, evidentemente, e até por experiência própria, que a bajulação é uma coisa feia, uma coisa abjeta. Melhor do que ninguém o homem de Estado conhece o exato valor da lisonja. Como se pode então compreender seu gordo sorriso satisfeito diante de tão repugnante significação que as rosas escondem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que poderei explicar o fenômeno com mais uma retificação. Disse há pouco que o ministro vê atrás das flores os sorrisos da subserviência. Corrijo agora. Não. Ainda não é aí, nas figuras dos empreiteiros e fornecedores que se detém o olhar satisfeito do aniversariante poderoso. A bajulação é também um sinal. Sinal em segunda instância, ainda não é aí que descansa o olhar do general. Não. O que ele vê nesse jogo de espelhos, rosas aqui, fornecedores acolá, é a sua própria importância, a sua própria face, a grande, a única realidade, em torno da qual o mundo inteiro é uma enorme moldura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo Corção, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lições de abismo&lt;/span&gt;. Rio de Janeiro, Agir, 2004, p. 85-86. (1ª ed.: 1950).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4395470470170501771?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4395470470170501771/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4395470470170501771' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4395470470170501771'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4395470470170501771'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/05/sobre-bajulacao.html' title='Sobre a bajulação'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-Dp2HtOSLPiw/TdbHRmFK4NI/AAAAAAAABd4/tTz_USqxXi0/s72-c/Li%25C3%25A7%25C3%25B5es.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-3627824309732367650</id><published>2011-05-01T16:34:00.000-07:00</published><updated>2011-05-01T17:16:46.223-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jack Kerouac'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escrever'/><title type='text'>Kerouac</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/-RGTXMkOOCEA/Tb324ubpjRI/AAAAAAAABdw/bIngg5aoWlQ/s1600/kerouaccor460.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 192px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-RGTXMkOOCEA/Tb324ubpjRI/AAAAAAAABdw/bIngg5aoWlQ/s320/kerouaccor460.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5601904965915872530" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Sobre o livro &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Big Sur&lt;/span&gt; e seu autor, Jack Kerouac (1922-1969):&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Fiel a seu modo de escrita paroxístico, chegará ao final do relato de seu apocalipse em Big Sur em dez dias, em Orlando, em outubro de 1961. Em nenhum momento se permitirá fazer papel bonito. Restituirá sem artifícios aqueles dias sem alegria exaltados por bebidas ordinárias, pelo abuso de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;tokay&lt;/span&gt;, um vinho açucarado, a bebida assassina dos pobres, naqueles dias anunciadores da separação dos "irmãos de sangue": Neal e ele, nos dias de miséria sexual e esterelidade. É o livro da coragem e da autenticidade (de uma rara autenticidade) de Kerouac, o não-herói. O fato de não sair engrandecido o faz grande, justamente. Ele descreve sua sordidez, seus embates medíocres, sua dependência. A descrição do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;delirium &lt;/span&gt;é de uma exatidão clínica notável, sob um fundo de memória que sabemos ser fenomenal e de um lirismo contido. Não se esqueceu de nada, não faltou sequer um detalhe. Precisou de um ano de decantação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando sai o livro, em setembro de 1962, a crítica é, paradoxalmente, como sublinha Gerald Nicosia, menos rude, talvez porque diga sem rodeios, tanto a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Saturday Review&lt;/span&gt; quanto o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;New York Times&lt;/span&gt;, que o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;beatnik&lt;/span&gt; Kerouac, como era de se esperar, terminou enlouquecendo. (p. 209).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Big Sur &lt;/span&gt;terminado no outono de 1961, Kerouac pensa nessa ocasião ter concluído sua obra. Aproxima-se dos quarenta anos e não terá mais do que dois livros em preparação - a última parte de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Desolation Angels&lt;/span&gt; foi escrita no verão precedente na Cidade do México -, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vanity of Duluoz&lt;/span&gt;, que acabamos de citar, e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Pic&lt;/span&gt;, que ele completará pouco antes de morrer. Por hora, ele entra numa longa fase de esterelidade e de relativa sobrevida de aproximadamente dez anos. Será para ele como o percurso em uma terra de desolação, com todos os estigmas de retirada do mundo doloroso, marcado de invectivas, de mal-entendidos, de encolhimento do espaço social e da comunicação. Kerouac estará cada vez mais sozinho, acentuando o vazio à sua volta e o desgosto do isolamento, tentando desajeitadamente remediá-los. Todos os traços de sua personalidade, que ele chama de paranóica, e de seu "comportamento esquizo", segundo sua expressão, que o tornam insuportável agravam-se somados ao alcoolismo inveterado e debilitante. Então ele vitupera, acusa, se insurge, interpela ou tenta infelizes e lacrimosas efusões. Progressivamente, vai se desligando de todos os elos históricos e passa a gravitar em uma solidão total na qual é um injustiçado, uma vítima eletiva. Está imerso na incompreensão de um mundo que o elouquece. (p. 234-235)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Kerouac&lt;/span&gt;, de Yves Buin. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto Alegre: L&amp;amp;PM, 2007.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-3627824309732367650?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/3627824309732367650/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=3627824309732367650' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3627824309732367650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3627824309732367650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/05/kerouac.html' title='Kerouac'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-RGTXMkOOCEA/Tb324ubpjRI/AAAAAAAABdw/bIngg5aoWlQ/s72-c/kerouaccor460.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-3482286148586620603</id><published>2011-03-16T20:50:00.000-07:00</published><updated>2011-03-16T20:57:08.931-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pessoa'/><title type='text'>O que há</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/-xAND233cEfA/TYGFwoX2vJI/AAAAAAAABdo/k3Qv265fLiY/s1600/fernando%2Bpessoa.JPG"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 290px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-xAND233cEfA/TYGFwoX2vJI/AAAAAAAABdo/k3Qv265fLiY/s320/fernando%2Bpessoa.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5584892083433815186" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O que há em mim é sobretudo cansaço —&lt;br /&gt;   Não disto nem daquilo,&lt;br /&gt;   Nem sequer de tudo ou de nada:&lt;br /&gt;   Cansaço assim mesmo, ele mesmo,&lt;br /&gt;   Cansaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A sutileza das sensações inúteis,&lt;br /&gt;   As paixões violentas por coisa nenhuma,&lt;br /&gt;   Os amores intensos por o suposto em alguém,&lt;br /&gt;   Essas coisas todas —&lt;br /&gt;   Essas e o que falta nelas eternamente —;&lt;br /&gt;   Tudo isso faz um cansaço,&lt;br /&gt;   Este cansaço,&lt;br /&gt;   Cansaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Há sem dúvida quem ame o infinito,&lt;br /&gt;   Há sem dúvida quem deseje o impossível,&lt;br /&gt;   Há sem dúvida quem não queira nada —&lt;br /&gt;   Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:&lt;br /&gt;   Porque eu amo infinitamente o finito,&lt;br /&gt;   Porque eu desejo impossivelmente o possível,&lt;br /&gt;   Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,&lt;br /&gt;   Ou até se não puder ser...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   E o resultado?&lt;br /&gt;   Para eles a vida vivida ou sonhada,&lt;br /&gt;   Para eles o sonho sonhado ou vivido,&lt;br /&gt;   Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...&lt;br /&gt;   Para mim só um grande, um profundo,&lt;br /&gt;   E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,&lt;br /&gt;   Um supremíssimo cansaço,&lt;br /&gt;   Íssimno, íssimo, íssimo,&lt;br /&gt;   Cansaço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonte: &lt;a href="http://www.jornaldepoesia.jor.br/"&gt;Jornal de Poesia&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-3482286148586620603?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/3482286148586620603/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=3482286148586620603' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3482286148586620603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3482286148586620603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/03/o-que-ha.html' title='O que há'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-xAND233cEfA/TYGFwoX2vJI/AAAAAAAABdo/k3Qv265fLiY/s72-c/fernando%2Bpessoa.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-1701546680626229612</id><published>2011-03-08T13:54:00.000-08:00</published><updated>2011-03-08T14:10:59.842-08:00</updated><title type='text'>A Pomba</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-QW4AQh71pIY/TXapWewM6LI/AAAAAAAABdg/B7m9la7j024/s1600/A%2BPomba.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 205px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-QW4AQh71pIY/TXapWewM6LI/AAAAAAAABdg/B7m9la7j024/s320/A%2BPomba.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5581834991849760946" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;E depois, uma vez, em meados dos anos sessenta, no outono, quando jonathan foi à agência dos correios na Rue Dupin e quase tropeçou numa garrafa de vinho na entrada, colocada em cima do pedacinho de papelão, entre uma bolsa de plástico e a boina bem conhecida com algumas moedas dentro, e quando procurou, sem querer, o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;clochard&lt;/span&gt; [mendigo] durante alguns momentos, não porque estivesse sentindo sua falta como pessoa, mas sim porque faltava o ponto central da natureza-morta composta de garrafa, bolsa e papelão..., então Jonathan o viu agachado entre dois carros estacionados do outro lado da rua e viu como ele fazia suas necessidades: o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;clochard &lt;/span&gt;agachara-se ao lado do meio-fio, com as calças arriadas até os joelhos, o traseiro virado na direção de Jonathan, as nádegas totalmente desnudas, os transeuntes passavam, todos podiam vê-lo: um traseiro branco-farinha, com manchas azuis e lugares com crostas avermelhadas, de aparência tão esfolada como as nádegas de um ancião mantido num leito - em contrapartida, o homem não era mais velho do que Jonathan nessa época, tinha talvez trinta, no máximo trinta e cinco anos de idade. E desse traseiro esfolado saiu então um jorro de líquido marrom, caindo no calçamento com tremenda violência e em grande quantidade, formando um charco, um mar que circundou os sapatos, e os salpicos lançados para cima e para os lados mancharam meias, coxas, calças, camisa, tudo...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Patrick Süskind, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Pomba&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Rio de Janeiro: Record, 1987, p. 59-60.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-1701546680626229612?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/1701546680626229612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=1701546680626229612' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1701546680626229612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/1701546680626229612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/03/pomba.html' title='A Pomba'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-QW4AQh71pIY/TXapWewM6LI/AAAAAAAABdg/B7m9la7j024/s72-c/A%2BPomba.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-3869228769379976076</id><published>2011-02-20T17:09:00.001-08:00</published><updated>2011-08-14T15:15:11.655-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Psicologia etc'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Espiritismo'/><title type='text'>E a vida continua...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-TLTml9NVRLg/TWQJF7jobEI/AAAAAAAABdY/A7lp2-GQ-u4/s1600/E%2Ba%2Bvida%2Bcontinua.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 223px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-TLTml9NVRLg/TWQJF7jobEI/AAAAAAAABdY/A7lp2-GQ-u4/s320/E%2Ba%2Bvida%2Bcontinua.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5576592236082654274" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Irmãos da Terra, em meio às vicissitudes da experiência humana, aprendei a tolerar e perdoar!... Por mais se vos fira ou calunie, injurie ou amaldiçoe, olvidai o mal, fazendo o bem!... Vós que tivestes a confiança traída ou o espírito dilacerado nas armadilhas da sombra, acendei a luz do amor onde estiverdes!... Companheiros que fostes vilipendiados ou insultados em vossas intenções mais sublimes, apagai as ofensas recebidas e bendizei os ultrajes que vos burilam o coração para a Vida Maior!... Irmãs que padecestes indescritíveis agravos na própria carne, desprezadas pelos carrascos risonhos que vos enlouqueceram de angústia, depois de vos acenarem com mentirosas promessas, abençoai aqueles que vos destruíram os sonhos!... Mães solteiras que fostes banidas do lar e batidas até a queda na prostituição, por haverdes tido suficiente coragem de não assassinar no próprio ventre os filhos de vossa desventura, com a insânia do aborto provocado, mães agoniadas às quais tantas vezes se nega até mesmo o direito de defesa, conferido aos nossos irmãos criminosos nas cadeias públicas, perdoai os vossos algozes!... Pais que trazeis nos ombros escalavrados de sofrimento a carga dolorosa dos filhos ingratos, filhos que aguentais na carne e na alma o despotismo e a brutalidade de pais insensíveis e cônjuges flechados entre as paredes domésticas pelos estiletes da incompreensão e da crueldade, absolvei-vos uns aos outros!... Obsidiados de todos os climas, tecei véus de piedade e esperança sobre os seres infelizes, encarnados ou desencarnados, que vos torturam as horas! Criaturas prejudicadas ou perseguidas de todos os recantos do mundo, perdoai a quantos se fizeram instrumentos de vossas aflições e de vossas lágrimas!... Quando sentirdes a tentação de revidar, lembrai-vos daquele que nos concitou a "amar os inimigos" e a "orar pelos que nos perseguem e caluniam"! Recordai o Cristo de Deus, preferindo ser condenado, a condenar, porque, em verdade, quantos praticam o mal não sabem o que fazem!... Convencei-vos de que as leis da morte não excetuam ninguém e não vos esqueçais de que, no dia do vosso grande adeus aos que ficarem na estância das provas, somente pela benção da paz e do amor na consciência tranquila é que podereis alcançar a suspirada libertação!...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Francisco Cândido Xavier (pelo espírito André Luiz), E a vida continua. Federação Espírita Brasileira, 1968, p. 206-207.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-3869228769379976076?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/3869228769379976076/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=3869228769379976076' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3869228769379976076'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/3869228769379976076'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/02/e-vida-continua.html' title='E a vida continua...'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-TLTml9NVRLg/TWQJF7jobEI/AAAAAAAABdY/A7lp2-GQ-u4/s72-c/E%2Ba%2Bvida%2Bcontinua.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-612298561204814603</id><published>2011-01-30T13:30:00.000-08:00</published><updated>2011-01-30T13:57:50.712-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Stephen Crane'/><title type='text'>O emblema vermelho da coragem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TUXdIuYHMeI/AAAAAAAABdE/t_lLFj2XOx0/s1600/crane.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 208px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TUXdIuYHMeI/AAAAAAAABdE/t_lLFj2XOx0/s320/crane.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5568099656271344098" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O jovem deu-se conta de uma notável mudança no comportamento de seu companheiro desde os tempos do acampamento à beira do rio. Ele já não parecia estar a todo momento medindo sua bravura. Não mais se enfurecia com pequenas palavras que lhe espetassem a autoestima. Já não era um jovem praça gritalhão. Envolto numa perfeita segurança, demonstrava agora uma fé serena em seus propósitos e habilidades. Essa firmeza interior lhe permitia, naturalmente, ficar indiferente às pequenas alfinetadas que os outros lhe dirigiam.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;O jovem refletia. Estava acostumado a pensar no companheiro como em um meninote espalhafatoso, dono de uma audácia advinda da inexperiência, impulsivo, teimoso, ciumento e cheio de uma coragem de latão. Um bebê cambaleante acostumado a marchar com autoridade em seu próprio jardim. O jovem se perguntava de onde teria surgido esse novo olhar, em que momento o colega fizera a grande descoberta de que muita gente se recusaria a se submeter a ele. Agora, aparentemente, o outro tinha chegado ao pico da sabedoria, onde se via como algo muito pequeno. E o jovem percebeu que dali em diante, e para sempre, seria mais fácil viver pelas cercanias do amigo. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;[p.142-3]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se do modo como alguns tinham corrido da batalha. Recordando suas expressões contorcidas de terror, sentiu desprezo. Era evidente que se tinham portado de modo muito mais espaventado e frenético do que o absolutamente necessário. Eram frágeis mortais. Quanto a ele, soubera fugir com dignidade e discrição. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;[p.148]&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após esse incidente, passando em revista as cenas de batalha que presenciara, sentia-se perfeitamente apto a voltar para casa e aquecer corações com suas histórias de guerra. Via-se numa sala em tons cálidos, contando casos para uma plateia atenta. Teria lauréis para mostrar. Eram insignificantes, talvez, mas num lugarejo em que as glórias eram raridade, era bem possível que brilhassem. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;[p.149]&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Stephen Crane, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O emblema vermelho da coragem&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-612298561204814603?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/612298561204814603/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=612298561204814603' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/612298561204814603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/612298561204814603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/01/o-emblema-vermelho-da-coragem.html' title='O emblema vermelho da coragem'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TUXdIuYHMeI/AAAAAAAABdE/t_lLFj2XOx0/s72-c/crane.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-6122192859802287218</id><published>2011-01-26T14:52:00.000-08:00</published><updated>2011-01-26T15:10:13.624-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Stephen Crane'/><title type='text'>Stephen Crane</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TUCoWJw9xtI/AAAAAAAABc8/zVlOVgLLY9k/s1600/Crane.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 222px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TUCoWJw9xtI/AAAAAAAABc8/zVlOVgLLY9k/s320/Crane.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5566634237961815762" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Stephen Crane (1871-1900) foi uma supernova no firmamento literário americano da década de 1890, irrompendo no cenário e brilhando com energia intensa durante vários anos até a morte prematura. No entanto, foi tão prolífico durante sua breve carreira, que a edição standard de sua obra completa contém nada menos que dez grossos volumes de ficção, poesia e jornalismo. Como outros autores de contos realistas, Crane foi treinado no jornalismo. Mas, em seus melhores escritos, transpôs o realismo para chegar à ironia, à paródia e ao impressionismo. Era tanto aprendiz quanto pioneiro, aprendendo seu ofício ao mesmo tempo que alterava o curso da história da literatura americana. Quem sabe quanto ainda teria realizado se não fosse colhido pela morte?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Fragmento da Introdução de Gary Scharnhorst ao livro &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O emblema vermelho da coragem &lt;/span&gt;(&lt;span style="font-style: italic;"&gt;The red badge of courage&lt;/span&gt;), de Stephen Crane, publicado em 1895. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010, p. 15. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-6122192859802287218?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/6122192859802287218/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=6122192859802287218' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/6122192859802287218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/6122192859802287218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/01/stephen-crane.html' title='Stephen Crane'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TUCoWJw9xtI/AAAAAAAABc8/zVlOVgLLY9k/s72-c/Crane.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-9163556615902008628</id><published>2011-01-25T16:21:00.000-08:00</published><updated>2011-01-25T16:29:04.153-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Nelson Rodrigues'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escrever'/><title type='text'>A vida como ela é</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TT9p61wmY7I/AAAAAAAABc0/t0ffpfSaIZc/s1600/bravo-revista.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 264px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TT9p61wmY7I/AAAAAAAABc0/t0ffpfSaIZc/s320/bravo-revista.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5566284124037473202" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Durante dez anos, de 1951 a 1961, Nel­son Rodrigues escreveu sua coluna &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A vida como ela é&lt;/span&gt;… para o jornal &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Última Hora&lt;/span&gt;, de Samuel Wainer. Seis dias por sema­na, chovesse ou fizesse sol. A chuva podia ser como “a do quinto ato do Rigoletto” e o sol, daqueles “de derreter catedrais”, se­gundo ele. Todo dia, com uma paciência chinesa e uma imaginação demoníaca, Nelson escrevia uma história diferente. E quase sempre sobre o mesmo assunto: adultério. Desse tema tão simples e tão eterno, ele extraiu quase 2 mil histórias. Os ficcionistas que fingem se levar a sé­rio precisam de toda uma aura de misté­rio para criar. Nelson dispensava esse mis­tério. Chegava cedinho à redação, acendia um cigarro e, na frente dos colegas, entre miríades de cafezinhos, escrevia &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A vida como ela é&lt;/span&gt;… As histórias saíam de casos que lhe contavam, da sua própria obser­vação dos subúrbios cariocas ou das cabe­ludas paixões de que ele ouvira falar em criança. Mas principalmente da sua me­ditação sobre o casamento, o amor e o desejo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Fonte: &lt;a href="http://ebooksgratis.com.br/"&gt;Blog E-books grátis&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-9163556615902008628?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/9163556615902008628/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=9163556615902008628' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/9163556615902008628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/9163556615902008628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/01/vida-como-ela-e.html' title='A vida como ela é'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TT9p61wmY7I/AAAAAAAABc0/t0ffpfSaIZc/s72-c/bravo-revista.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-482945744955033751</id><published>2011-01-24T15:48:00.000-08:00</published><updated>2011-03-08T14:11:45.127-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><title type='text'>As Aventuras da Virtude</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TT4T7HvdRbI/AAAAAAAABcs/PeBah8aqKI4/s1600/virtude.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 214px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TT4T7HvdRbI/AAAAAAAABcs/PeBah8aqKI4/s320/virtude.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5565908095887820210" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;(...) a república nascida da derrota dos jacobinos era, do ponto de vista político, um regime anêmico e dividido. Na ausência dos grandes homens que haviam criado o extraordinário movimento de ideias do século XVIII e que tinham contribuído para a convergência dos ideais ilumistas da filosofia de Rousseau, das lições da Revolução Americana e das energias liberadas pela Revolução na França, sobrou um país dividido, com um Exército poderoso e uma classe política incapaz. A república do ano III já nasceu condenada ao fracasso. Em que pesem a generosidade e a lucidez de Madame de Staël, e até mesmo de Benjamin Constant, faltavam ao regime republicano a força dos ideais e a determinação das instituições. A forma sonhada por muitos estava lá, mas vazia dos conteúdos que haviam sido atribuídos a ela nos sonhos e projetos de tantos homens e mulheres ao longo das décadas anteriores. Naquelas circunstâncias, era uma república impossível, fadada a perecer sob o peso da história que havia presidido seu nascimento. Mas o fracasso republicano, o fechamento do longo e frutuoso período de constituição do republicanismo francês, foi também o momento inaugural de uma herança que até hoje é um dos pilares da cultura democrática e republicana da modernidade. Pouco importa se o século XIX será uma longa luta pela consolidação de muitos dos ideais formulados ao longo do século XVIII. O nascimento de uma matriz republicana francesa foi a criação de uma nova forma de ver e fazer  política, a qual será decisiva para os caminhos e aventuras que marcaram as nações que, a partir de então, se confrontaram com o sonho e as dificuldades de se construir um regime baseado na liberdade, na igualdade e na fraternidade.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Newton Bignotto, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;As Aventuras da Virtude&lt;/span&gt;: As ideias republicanas na França do século XVIII. &lt;span style="font-size:85%;"&gt;São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 366-7.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-482945744955033751?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/482945744955033751/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=482945744955033751' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/482945744955033751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/482945744955033751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/01/as-aventuras-da-virtude.html' title='As Aventuras da Virtude'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TT4T7HvdRbI/AAAAAAAABcs/PeBah8aqKI4/s72-c/virtude.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-7849782235996259330</id><published>2011-01-13T15:01:00.000-08:00</published><updated>2011-01-15T06:54:50.326-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Francês'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escrever'/><title type='text'>Littérature: pourquoi écrit-on?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TTG1LLVk48I/AAAAAAAABck/ToEe4fmXZ_c/s1600/writer2.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 233px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TTG1LLVk48I/AAAAAAAABck/ToEe4fmXZ_c/s320/writer2.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5562426218405749698" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;On écrit, en général, parce qu'on a beaucoup lu. Et cela peut devenir une raison de vivre. "Écrire a tourné à l'habitude, pour ne pas dire à la manie", avoue Roger Grenier. "Une manie dans laquelle je m'enfonce chaque jour davantage, de sorte qu'à présent, je suis incapable de goûter aucune autre activité, aucune autre distraction." Ce démon-là a été exprimé avant lui par plus d'un auteur, mais avec des inflexions différentes. Écrire pour combattre la solitude (Montaigne), pour se défendre des offenses de la vie (Pavese) ou apaiser une angoisse (Nerval). Écrire pour être aimé (Barthes) ou pour revivre par la plume des plaisirs désormais interdits (Casanova). Écrire parce qu'on "n'est bon qu'à ça" (Beckett) et d'ailleurs "que faire d'autre ?" (Sartre). Écrire pour laisser une trace, "mériter une petite immortalité" (Scott Fitzgerald). Albertine Sarrazin déclarait même que sa principale motivation était que des gens, à l'avenir, lisent ses livres. Mais "qui ouvre aujourd'hui la porte d'une librairie pour acheter &lt;span style="font-style: italic;"&gt;La Cavale&lt;/span&gt; ou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;L'Astragale&lt;/span&gt;?" demande, sans méchanceté, Roger Grenier. A l'inverse, il cite ce cri étrange de Flaubert, dans ses dernières heures: "Je vais mourir et cette pute de Bovary va vivre!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Robert Solé, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Le Monde&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-7849782235996259330?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/7849782235996259330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=7849782235996259330' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7849782235996259330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/7849782235996259330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2011/01/litterature-pourquoi-ecrit-on.html' title='Littérature: pourquoi écrit-on?'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TTG1LLVk48I/AAAAAAAABck/ToEe4fmXZ_c/s72-c/writer2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5729053048378548461</id><published>2010-12-29T16:06:00.000-08:00</published><updated>2010-12-29T16:21:02.759-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vinicius de Moraes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><title type='text'>A morte do poeta</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRvQE7JxYvI/AAAAAAAABcU/O4YLodyZemo/s1600/vinicius-de-moraes.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 294px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRvQE7JxYvI/AAAAAAAABcU/O4YLodyZemo/s320/vinicius-de-moraes.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5556263348308370162" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;O poeta jamais aceitou que a vida possa ser um script pronto, a ser recitado na ponta da língua. Ao contrário: apostou sempre na própria capacidade de se superar, de se surpreender consigo mesmo, de driblar os próprios medos e preconceitos - de se ultrapassar. &lt;/span&gt;  &lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viver intensamente tem seu preço e Vinicius agora o paga. É no mínimo perigoso, porém, encarar esse momento (como fazem muitos amigos mais contidos e escrupulosos) como a "decadência" do poeta. Vinicius, provavelmente, nunca se elevou tanto. É um homem para quem a vida deve ser usada, sorvida - com requinte e avidez - até a última gota: para quem a vida existe para queimar. Cumpriu essa crença à risca. Se agora parece esgotado, se agora paga o preço de sua determinação em não deixar a vida escapar, deve ser visto não como um homem decadente, falido, mas como um homem coerente e saciado. A morte - a "última musa" que ele persegue desde a juventude - se aproxima. Nem o medo da morte, porém, o leva a qualquer sentimento parecido com o remorso, a culpa ou o arrependimento. A proximidade da morte é, simplesmente, o sinal de que um destino se cumpriu. O poeta está em paz consigo mesmo. O dr. Younis, com sua formação profissional requintada e suas boas intenções, de fato, tem muito pouco a fazer. O generoso Vinicius, provavelmente, se apieda dele. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;José Castello, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão&lt;/span&gt;. Uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 416.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5729053048378548461?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5729053048378548461/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5729053048378548461' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5729053048378548461'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5729053048378548461'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/12/morte-do-poeta.html' title='A morte do poeta'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRvQE7JxYvI/AAAAAAAABcU/O4YLodyZemo/s72-c/vinicius-de-moraes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-12088003299270334</id><published>2010-12-28T15:33:00.000-08:00</published><updated>2010-12-28T15:46:46.089-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vinicius de Moraes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><title type='text'>Desespero da Piedade</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRp2h5SMqwI/AAAAAAAABcM/8JCtbJlPyyE/s1600/vinicius%2Bde%2Bmoraes.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 300px; height: 303px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRp2h5SMqwI/AAAAAAAABcM/8JCtbJlPyyE/s320/vinicius%2Bde%2Bmoraes.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5555883414999837442" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde&lt;br /&gt;E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...&lt;br /&gt;Mas tende piedade também dos que andam de automóvel&lt;br /&gt;Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade das pequenas famílias suburbanas&lt;br /&gt;E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos&lt;br /&gt;Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam&lt;br /&gt;E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta&lt;br /&gt;Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina&lt;br /&gt;Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte&lt;br /&gt;E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá&lt;br /&gt;Que são virtuoses da própria tristeza e solidão&lt;br /&gt;Mas tende piedade também dos que buscam silêncio&lt;br /&gt;E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram&lt;br /&gt;E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução&lt;br /&gt;Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram&lt;br /&gt;E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos&lt;br /&gt;Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão&lt;br /&gt;E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão&lt;br /&gt;Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros&lt;br /&gt;Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias&lt;br /&gt;Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:&lt;br /&gt;Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria&lt;br /&gt;Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos&lt;br /&gt;Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo&lt;br /&gt;Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade dos homens úteis como os dentistas&lt;br /&gt;Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer&lt;br /&gt;Mas tende mais piedade ainda dos veterinários e práticos de farmácia&lt;br /&gt;Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos&lt;br /&gt;Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão&lt;br /&gt;Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes&lt;br /&gt;Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende píedade das mulheres&lt;br /&gt;Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres&lt;br /&gt;Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres&lt;br /&gt;Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade da moça feia que serve na vida&lt;br /&gt;De casa, comida e roupa lavada da moça bonita&lt;br /&gt;Mas tende mais piedade ainda da moça bonita&lt;br /&gt;Que o homem molesta – que o homem não presta, não presta, meu Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais&lt;br /&gt;Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação&lt;br /&gt;E sonham exaltadas nos quartos humildes&lt;br /&gt;Os olhos perdidos e o seio na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade da mulher no primeiro coito&lt;br /&gt;Onde se cria a primeira alegria da Criação&lt;br /&gt;E onde se consuma a tragédia dos anjos&lt;br /&gt;E onde a morte encontra a vida em desintegração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade da mulher no instante do parto&lt;br /&gt;Onde ela é como a água explodindo em convulsão&lt;br /&gt;Onde ela é como a terra vomitando cólera&lt;br /&gt;Onde ela é como a lua parindo desilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas&lt;br /&gt;Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade&lt;br /&gt;Mas tende piedade também das mulheres casadas&lt;br /&gt;Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas&lt;br /&gt;Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas&lt;br /&gt;Mas que vendem barato muito instante de esquecimento&lt;br /&gt;E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas&lt;br /&gt;De corpo hermético e coração patético&lt;br /&gt;Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas&lt;br /&gt;Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres&lt;br /&gt;Que ninguém mais merece tanto amor e amizade&lt;br /&gt;Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade&lt;br /&gt;Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras&lt;br /&gt;Que são crianças e são trágicas e são belas&lt;br /&gt;Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam&lt;br /&gt;E que têm a única emoção da vida nelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse&lt;br /&gt;Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade&lt;br /&gt;E outra, à simples emoção do amor piedoso&lt;br /&gt;Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas&lt;br /&gt;A vida fere mais fundo e mais fecundo&lt;br /&gt;E o sexo está nelas, e o mundo está nelas&lt;br /&gt;E a loucura reside nesse mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tende piedade, Senhor, das santas mulheres&lt;br /&gt;Dos meninos velhos, dos homens humilhados – sede enfim&lt;br /&gt;Piedoso com todos, que tudo merece piedade&lt;br /&gt;E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinicius de Moraes (1913-1980)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.radio.uol.com.br/musica/vinicius-de-moraes/o-desespero-da-piedade/184504"&gt;Ouça Vinicius recitando este poema&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-12088003299270334?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/12088003299270334/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=12088003299270334' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/12088003299270334'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/12088003299270334'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/12/desespero-da-piedade.html' title='Desespero da Piedade'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRp2h5SMqwI/AAAAAAAABcM/8JCtbJlPyyE/s72-c/vinicius%2Bde%2Bmoraes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-4832492948167080421</id><published>2010-12-28T08:28:00.000-08:00</published><updated>2010-12-28T16:04:26.266-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vinicius de Moraes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Velhice'/><title type='text'>A velhice do poeta</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRoTEYdOE1I/AAAAAAAABcE/KUzwYeoLU8o/s1600/toquinhovinicius%25281%2529.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRoTEYdOE1I/AAAAAAAABcE/KUzwYeoLU8o/s320/toquinhovinicius%25281%2529.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5555774056320340818" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Década de 70:&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Depois de se separar de Cristina Gurjão, uma longa viagem à Europa é vivida como uma iniciação. Vinicius, já acompanhado de Gesse Gessy, parte para uma temporada de rupturas que são tomadas como sinais de decadência, de isolamento tido como esquisitice, de revitalização vista como decrepitude. Nenhum desses enganos o impressiona, nem o faz mudar seu rumo. Vinicius desarruma todos os clichês a respeito da arte de envelhecer. Serenidade, introspecção, ponderação, equilíbrio, prudência, bom senso, enfim, atributos clássicos de um envelhecimento saudável, não o seduzem. Mais do que nunca, ele deseja agarrar a vida, enfrentá-la, e isso significa optar pelo inesperado, pelo estranho, pelo descabido. Isso choca - e muitos amigos conservadores se melindram. Gesse é estranha, aquele menino magrelo chamado Toquinho, montado num violão e posto ao seu lado, é estranhíssimo, aquela nova vida metida numa bata branca e envolvida por cordões místicos, sessões espíritas no candomblé de Mãe Menininha, a companhia de garotos mal saídos da adolescência, shows em diretórios acadêmicos perseguidos pela ditadura militar, e descaso, quase desprezo pela poesia erudita, tudo isso é extravagante e muito, muito estranho. Mas é justamente estranhamento, surpresa, espanto que ele passa a desejar. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;José Castello, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vinicius de Moraes: o poeta da Paixão&lt;/span&gt;. Uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 320-21.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-4832492948167080421?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/4832492948167080421/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=4832492948167080421' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4832492948167080421'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/4832492948167080421'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/12/velhice-do-poeta.html' title='A velhice do poeta'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRoTEYdOE1I/AAAAAAAABcE/KUzwYeoLU8o/s72-c/toquinhovinicius%25281%2529.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-5542405870714882575</id><published>2010-12-27T06:48:00.000-08:00</published><updated>2010-12-27T06:57:13.903-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vinicius de Moraes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><title type='text'>Poema enjoadinho</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRio6S3DUbI/AAAAAAAABb8/-FuuzLMmh-Q/s1600/Vinicius%252Bde%252BMoraes.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 283px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRio6S3DUbI/AAAAAAAABb8/-FuuzLMmh-Q/s320/Vinicius%252Bde%252BMoraes.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5555375859810128306" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Filhos...Filhos?&lt;br /&gt;Melhor não tê-los!&lt;br /&gt;Mas se não os temos&lt;br /&gt;Como sabê-lo?&lt;br /&gt;Se não os temos&lt;br /&gt;Que de consulta&lt;br /&gt;Quanto silêncio&lt;br /&gt;Como o queremos!&lt;br /&gt;Banho de mar&lt;br /&gt;Diz que é um porrete...&lt;br /&gt;Cônjuge voa&lt;br /&gt;Transpõe o espaço&lt;br /&gt;Engole água&lt;br /&gt;Fica salgada&lt;br /&gt;Se iodifica&lt;br /&gt;Depois, que boa&lt;br /&gt;Que morenaço&lt;br /&gt;Que a esposa fica!&lt;br /&gt;Resultado: filho.&lt;br /&gt;E então começa&lt;br /&gt;A aporrinhação:&lt;br /&gt;Cocô está branco&lt;br /&gt;Cocô está preto&lt;br /&gt;Bebe amoníaco&lt;br /&gt;Comeu botão.&lt;br /&gt;Filho? Filhos&lt;br /&gt;Melhor não tê-los&lt;br /&gt;Noites de insônia&lt;br /&gt;Cãs prematuras&lt;br /&gt;Prantos convulsos&lt;br /&gt;Meu Deus, salvai-o!&lt;br /&gt;Filhos são o demo&lt;br /&gt;Melhor não tê-los...&lt;br /&gt;Mas se não os temos&lt;br /&gt;Como sabê-los?&lt;br /&gt;Como saber&lt;br /&gt;Que macieza&lt;br /&gt;Nos seus cabelos&lt;br /&gt;Que cheiro morno&lt;br /&gt;Na sua carne&lt;br /&gt;Que gosto doce&lt;br /&gt;Na sua boca!&lt;br /&gt;Chupam gilete&lt;br /&gt;Bebem xampu&lt;br /&gt;Ateiam fogo&lt;br /&gt;No quarteirão&lt;br /&gt;Porém, que coisa&lt;br /&gt;Que coisa louca&lt;br /&gt;Que coisa linda&lt;br /&gt;Que os filhos são!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinicius de Moraes (1913-1980)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-5542405870714882575?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/5542405870714882575/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=5542405870714882575' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5542405870714882575'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/5542405870714882575'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/12/poema-enjoadinho.html' title='Poema enjoadinho'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TRio6S3DUbI/AAAAAAAABb8/-FuuzLMmh-Q/s72-c/Vinicius%252Bde%252BMoraes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-297853792061515727</id><published>2010-12-19T10:44:00.000-08:00</published><updated>2010-12-27T06:57:13.904-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vinicius de Moraes'/><title type='text'>A infância do poeta</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TQ5UmV5NyvI/AAAAAAAABbo/sXEn2ocFtKs/s1600/Poeta.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 225px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TQ5UmV5NyvI/AAAAAAAABbo/sXEn2ocFtKs/s320/Poeta.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5552468408283286258" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;A infância transcorre serena e cheia de pequenos mistérios. Vinicius tem, constantemente, sua imaginação posta à prova pelos tios mais velhos. A matéria bruta da infância, sem que a família tenha consciência disso, começa a ser talhada. É um menino endiabrado, que não consegue ficar quieto e gosta de mandar. Está sempre imerso, entretanto, num turbilhão de fantasias que, seguramente, começam a servir como o pântano disforme de sustos, impressões e imagens imprecisas em que, aos poucos, a poesia desabrochará.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;José Castello, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vinicius de Moraes&lt;/span&gt;: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Poeta da Paixão&lt;/span&gt;. Uma biografia. São Paulo: Cia das Letras, 1994. p. 35.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-297853792061515727?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/297853792061515727/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=297853792061515727' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/297853792061515727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/297853792061515727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/12/infancia-do-poeta.html' title='A infância do poeta'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TQ5UmV5NyvI/AAAAAAAABbo/sXEn2ocFtKs/s72-c/Poeta.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2045361565946634247</id><published>2010-12-06T07:51:00.000-08:00</published><updated>2010-12-06T08:09:56.085-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poemas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inglês'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Stephen Crane'/><title type='text'>A man went before a strange God</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TP0Hp-W6BFI/AAAAAAAABbg/zR1DrejX3eM/s1600/crane1.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 256px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TP0Hp-W6BFI/AAAAAAAABbg/zR1DrejX3eM/s320/crane1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5547598733685425234" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;A man went before a strange God --&lt;br /&gt;The God of many men, sadly wise.&lt;br /&gt;And the deity thundered loudly,&lt;br /&gt;Fat with rage, and puffing.&lt;br /&gt;"Kneel, mortal, and cringe&lt;br /&gt;And grovel and do homage&lt;br /&gt;To My Particularly Sublime Majesty."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;The man fled.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Then the man went to another God --&lt;br /&gt;The God of his inner thoughts.&lt;br /&gt;And this one looked at him&lt;br /&gt;With soft eyes&lt;br /&gt;Lit with infinite comprehension,&lt;br /&gt;And said, "My poor child!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Stephen Crane (1871-1900)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2045361565946634247?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2045361565946634247/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2045361565946634247' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2045361565946634247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2045361565946634247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/12/man-went-before-strange-god.html' title='A man went before a strange God'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TP0Hp-W6BFI/AAAAAAAABbg/zR1DrejX3eM/s72-c/crane1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2619249523710426490</id><published>2010-12-06T05:40:00.000-08:00</published><updated>2010-12-06T05:59:43.633-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>Solenidade de Formatura ou ensaio de escola de samba?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TPzq17x4o3I/AAAAAAAABbY/kYzoK4sOPrk/s1600/formaturas1.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 300px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TPzq17x4o3I/AAAAAAAABbY/kYzoK4sOPrk/s320/formaturas1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5547567053314499442" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Todo semestre, na faculdade, é a mesma coisa: os formandos combinam com os coordenadores de curso que só vão começar a bagunça no intervalo (“para não prejudicar os outros alunos”, explicam os coordenadores, “que estarão fazendo prova ou tendo as últimas aulas do semestre”), mas raramente cumprem o combinado. Muito antes do intervalo, eles começam a soprar apitos e cornetas com toda a força de seus pulmões, tornando impossível a continuidade de qualquer atividade nas salas próximas às suas; e em seguida começam a circular pelos corredores da faculdade ao som dos mesmos apitos e cornetas, enquanto, do lado de fora, explodem os foguetes. Se um professor, coordenador ou outro funcionário reclamar, na maioria das vezes os formandos ignoram os apelos, são irônicos, desrespeitosos e continuam a comemorar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Não sou contra as comemorações dos formandos (embora eu ache que eles deveriam encontrar alguma coisa mais criativa para fazer nesse dia do que simplesmente circular pelos corredores tocando apitos e cornetas). Eu não concordo é com o desrespeito aos direitos dos outros alunos e professores que estão em aula ou em avaliação – muitos alunos, inclusive, já foram prejudicados nos resultados das provas de final de semestre pelas confusões nos corredores e foguetes. Quando são formandos em Direito, então, a contradição é ainda mais marcante. Terminar um curso de Direito desrespeitando os direitos dos outros? Não pega bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que mais me incomoda é a “solenidade” de formatura. Coloquei a palavra “solenidade” entre aspas porque aquilo para mim pode ser tudo, menos uma solenidade. A palavra solenidade, no dicionário, é definida assim: “Formalidades que tornam importante um fato”. No caso da formatura no Ensino Superior, o fato importante é a conclusão daquele curso com sucesso, permitindo ao formando o exercício de uma profissão, reconhecida pela sociedade. É, ao mesmo tempo, um rito de passagem que simboliza um novo começo, uma nova vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, na maioria das cerimônias de formatura da atualidade, o formalismo deu lugar à bagunça; e o rito, que deveria simbolizar o início de uma trajetória profissional ancorada em valores como a ética e o respeito ao próximo, parece querer simbolizar justamente o contrário: o desrespeito, a ausência de certo e errado, o “tudo pode”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Familiares e amigos dos formandos entram no auditório ou salão com faixas, bandeiras, apitos, cornetas, tambores, confetes, e com todo esse material em mãos, desde o início da cerimônia, fazem uma verdadeira arruaça (um batuque ensurdecedor que não deve nada a um ensaio de escola de samba, daqueles bem desorganizados). Não deixam ninguém falar, interrompem todo mundo, e as autoridades sentadas à mesa mais parecem seres extraterrestres, objetos decorativos fora do lugar, no ambiente errado, o que faz com que a maioria delas se sinta ridícula, como se uma força superior as empurrasse para os bastidores, para trás das cortinas – sensação que fica ainda mais forte quando alguns formandos dirigem a elas olhares de desprezo e/ou ironia, a maioria das vezes acompanhados por sorrisos zombeteiros que parecem querer dizer: “Bem feito para você. Está aí ‘pagando mico’ na frente de todo mundo, com esse sorrisinho sem graça (ou ar superior – vai depender da autoridade), fingindo que está gostando da baderna só para não pegar mal (ou sentindo-se muito acima de nós e doido para ir embora), não é?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com muita propriedade, o advogado Jorge Ferreira Filho chamou, em um artigo recente, essas solenidades de “Solenidades de (Des)formatura”. A ele preocupa o fato de que muitas instituições de Ensino Superior do Brasil têm se empenhado mais em “informar” do que em “formar” (construir um cidadão apto à moderna sociedade democrática de direito, capaz de refletir e analisar a realidade e construir conhecimento visando ao bem da coletividade): “O aluno passou a ser um consumidor – um centro de direitos. O professor transformado num ‘Sílvio Santos’ – aquele que deve agradar a platéia; dar à platéia o que ela quer e não o que ela precisa receber”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que é isso? Será que falta formação cidadã a esses alunos que transformam uma solenidade de formatura em ensaio de escola de samba? Será que temos que repensar nossa postura enquanto educadores e gestores da Educação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Publicado originalmente na minha coluna &lt;a href="http://www.grnews.com.br/index.php?option=com_content&amp;amp;view=article&amp;amp;id=14101&amp;amp;Itemid=166"&gt;Crônicas de um patafufo&lt;/a&gt;, no site GRNews, em 13 de julho de 2010&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2619249523710426490?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2619249523710426490/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2619249523710426490' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2619249523710426490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2619249523710426490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/12/solenidade-de-formatura-ou-ensaio-de.html' title='Solenidade de Formatura ou ensaio de escola de samba?'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TPzq17x4o3I/AAAAAAAABbY/kYzoK4sOPrk/s72-c/formaturas1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-887484600811190253</id><published>2010-11-07T12:59:00.000-08:00</published><updated>2010-11-08T17:27:00.507-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Charles Bukowski'/><title type='text'>O bola-extra</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TNcbQF65JhI/AAAAAAAABbA/eHauiO99ugU/s1600/factot.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 200px; height: 312px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TNcbQF65JhI/AAAAAAAABbA/eHauiO99ugU/s320/factot.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5536924230156363282" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Fui contratado para o que eles chamam de bola-extra. O bola-extra era o cara que fazia de tudo sem ter, ao mesmo tempo, nenhuma atividade específica. Ele devia saber o que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;fazer&lt;/span&gt; após consultar uma espécie profunda e infalível de sexto sentido. Instintivamente, esse cara devia saber como manter as coisas funcionando de modo natural, o que era melhor para a empresa, a Mãe de todos, e suprir-lhe todas as pequenas necessidades que eram irracionais, contínuas e insignificantes.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Um bom bola-extra não tem face nem sexo e deve estar disposto a se sacrificar pela causa. Está sempre esperando junto à porta, antes mesmo do primeiro homem chegar. Logo deve lavar a calçada, cumprimentando cada pessoa pelo nome à medida que elas chegam, sempre trazendo no rosto um sorriso brilhante e encorajador. Reverente. Isso fará com que todos se sintam melhores antes que as engrenagens do moedor comecem a funcionar. Ele verifica se os papéis higiênicos estão em ordem, principalmente no banheiro feminino. Os cestos nunca devem estar cheios. As janelas não podem estar encardidas. Os pequenos reparos são prontamente feitos em mesas e cadeiras. Nada de portas que não abram facilmente. Nenhum tapete enrugado. Jamais deixar uma mulher bem-alimentada e forte ficar sobrecarregada por um pacotinho qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não era muito bom nisso. Minha idéia era vagar por aí sem fazer nada, evitando sempre cruzar com o chefe, além dos puxa-sacos que poderiam me denunciar. Eu não era tão esperto assim. Agia mais por instinto do que qualquer outra coisa. Sempre iniciava um trabalho com a sensação de que, assim que eu o terminasse, seria demitido, e isso me deu um ar tranqüilo, que era facilmente confundido com inteligência ou algum poder secreto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um comércio de roupas auto-suficiente e auto-abastecido, combinando fábrica e venda no atacado. O mostruário, os produtos finalizados e os vendedores ficavam todos no primeiro andar, enquanto a fábrica funcionava no segundo. A fábrica era um labirinto de passarelas e passagens que nem mesmo os ratos conseguiam vencer, longas e estreitas galerias onde homens e mulheres trabalhavam sob lâmpadas de trinta watts, inclinados, movendo os pedais, costurando, sem jamais erguer os olhos ou trocar uma palavra, curvos e calados, trabalhando incessantemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu primeiro dia, andei entre o labirinto de máquinas de costura olhando para as pessoas. Diferentemente de Nova York, a maioria dos trabalhadores era formada de negros. Aproximei-me de um negro, bem pequeno - quase anão -, que tinha um rosto mais agradável que os outros. Ele fazia algum trabalho de acabamento, com uma agulha. Eu tinha uma garrafinha no bolso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu trabalho é de matar. Vai um trago?&lt;br /&gt;- Claro - ele disse.&lt;br /&gt;Tomou um bom gole. Então devolveu a garrafa. Ofereceu-me um cigarro.&lt;br /&gt;- Você é novo na cidade.&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- De onde veio?&lt;br /&gt;- Los Angeles.&lt;br /&gt;- Um astro de cinema.&lt;br /&gt;- Sim, de férias.&lt;br /&gt;- Não devia estar falando com um costureiro.&lt;br /&gt;- Eu sei.&lt;br /&gt;Ele ficou em silêncio (...).&lt;br /&gt;- Me chamo Henry - eu disse.&lt;br /&gt;- Brad - ele respondeu.&lt;br /&gt;- Escute, Brad, fico muito, mas muito deprimido vendo vocês trabalharem. Que tal se eu cantar uma música pra vocês?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Esse trabalho aqui é pavoroso. Por que você segue com isso?&lt;br /&gt;- Porra, não tenho escolha.&lt;br /&gt;- O Senhor disse que há!&lt;br /&gt;- Você acredita no Senhor?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- No que você acredita?&lt;br /&gt;- Em nada.&lt;br /&gt;- Então estamos quites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Bukowski, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Factótum&lt;/span&gt; (1975). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto Alegre, L&amp;amp;PM, 2009, pp. 109-112.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-887484600811190253?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/887484600811190253/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=887484600811190253' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/887484600811190253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/887484600811190253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/11/o-bola-extra.html' title='O bola-extra'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TNcbQF65JhI/AAAAAAAABbA/eHauiO99ugU/s72-c/factot.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2678741203050163883</id><published>2010-10-29T17:50:00.000-07:00</published><updated>2010-10-29T18:24:39.802-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escrever'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Charles Bukowski'/><title type='text'>Um jovem escritor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TMtysgd1fHI/AAAAAAAABao/WZQ4nFArJJs/s1600/factotum.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 218px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TMtysgd1fHI/AAAAAAAABao/WZQ4nFArJJs/s320/factotum.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5533642676109671538" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Aquela cena do escritório se entranhou em mim. Aqueles charutos, as roupas finas. Pensei em belos bifes, longos passeios por passagens cheias de curvas que levavam a casas maravilhosas. Boa vida. Viagens à Europa. Mulheres de alta classe. Eles eram assim tão mais espertos do que eu? O que nos diferenciava era a grana e o desejo de acumulá-la.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Eu também poderia fazer isso! Economizaria meus tostões. Eu teria uma grande idéia, pegaria um financiamento. Contrataria e despediria. Manteria garrafas de uísque na gaveta da minha escrivaninha. Teria uma esposa com enormes peitos e um rabo que faria o jornaleiro da esquina gozar nas calças só de vê-lo balançar. Eu iria traí-la e ela saberia e ficaria quieta para continuar morando comigo e usufruindo minha riqueza. Eu demitiria os sujeitos só para ver a palidez de seus rostos. Demitiria mulheres que não mereciam tal destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto era tudo de que um homem necessitava: esperança. Era a falta de esperança que desencorajava um homem. Lembrei de meus dias em Nova Orleans, vivendo de duas barras de caramelo de cinco centavos por dia, ao longo de várias semanas, para ter tempo livre para escrever. Mas passar fome, infelizmente, não melhora a arte. Apenas a obstrui. A alma de um homem está profundamente enraizada em seu estômago. Um homem pode escrever muito melhor após comer um belo pedaço de filé acompanhado de uma dose de uísque do que depois de uma barra de caramelo de um níquel. O mito do artista faminto é um embuste. Uma vez que você percebe que tudo é um embuste, você fica esperto e passa a sangrar e queimar seus semelhantes. Eu ergueria um império sobre as carcaças e vidas destroçadas de homens, mulheres e crianças indefesos - eu os atropelaria. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Eu lhes daria uma bela lição!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha chegado à pensão. Subi as escadas até meu quarto. Girei a chave, acendi as luzes. A sra. Downing havia colocado uma correspondência junto à porta. Era um evelope pardo, grande, enviado por Gladmore. Recolhi-o do chão. Estava pesado pelos manuscritos rejeitados. Sentei-me e abri o envelope.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caro sr. Chinaski:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos devolvendo esses quatro contos, mas vamos ficar com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Minha alma embriagada de cerveja é mais triste do que todas as árvores de Natal cortadas sobre a face da Terra&lt;/span&gt;. Temos acompanhado o seu trabalho por longo tempo e estamos felizes de aceitar essa história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atenciosamente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clay Gladmore&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me da cadeira, segurando ainda a carta de minha aceitação. MINHA PRIMEIRA. Da revista literária número um da América. O mundo nunca parecera tão bom, tão cheio de promessas. Fui até a cama, sentei-me, voltei a lê-la. Estudei cada curva da assinatura à mão de Gladmore. Levantei-me, fui com a aceitação até a cômoda, guardei-a lá dentro. Depois me despi, apaguei as luzes e fui para a cama. Não conseguia dormir. Levantei-me, acendi as luzes, fui até a cômoda e voltei a ler a carta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caro sr. Chimaski...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Bukowski, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Factótum&lt;/span&gt; (1975). &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto Alegre: L&amp;amp;PM, 2009, p. 52-3.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2678741203050163883?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2678741203050163883/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2678741203050163883' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2678741203050163883'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2678741203050163883'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/10/um-jovem-escritor.html' title='Um jovem escritor'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TMtysgd1fHI/AAAAAAAABao/WZQ4nFArJJs/s72-c/factotum.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-8479642203415008109</id><published>2010-10-08T19:42:00.000-07:00</published><updated>2010-10-08T20:57:45.576-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><title type='text'>A morte de Ivan Ilitch</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TK_ikwGkl3I/AAAAAAAABaM/zEgXG6H39oU/s1600/Ivan.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 190px; height: 320px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TK_ikwGkl3I/AAAAAAAABaM/zEgXG6H39oU/s320/Ivan.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5525884388822521714" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;De repente ocorria-lhe mudar todos os álbuns de lugar e colocá-los no canto da sala onde estavam as plantas. Chamava o empregado, mas quem vinha em seu socorro era sua mulher ou sua filha, que nunca concordavam com ele, contrariavam-no e ele discutia e acabava se irritando. Mas estava tudo bem, desde que ele não pensasse &lt;span style="font-style: italic;"&gt;nela&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ela&lt;/span&gt; não estava ali.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Mas bastava sua esposa dizer, assim que o via carregar ele mesmo alguma coisa: "Deixe que os empregados fazem isso, você vai se machucar outra vez" e imediatamente &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ela&lt;/span&gt; punha os olhos para dentro do abrigo que o protegia. Ele podia vê-&lt;span style="font-style: italic;"&gt;la&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Ela&lt;/span&gt; só dera uma espiada e ele tinha esperanças de que desaparecesse, involuntariamente. Via-se esperando por &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ela&lt;/span&gt; - e lá estava, a mesma de antes, doendo, doendo o tempo todo e agora já não podia esquecê-&lt;span style="font-style: italic;"&gt;la&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ela&lt;/span&gt; o olha atentamente por detrás das flores. "De que adianta isso tudo?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele então ia para seus aposentos, deitava-se e outra vez ficava a sós com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ela&lt;/span&gt;. Cara a cara com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ela&lt;/span&gt;. E não havia nada que ele pudesse fazer com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;ela&lt;/span&gt;, a não ser olhar e estremecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais atormentava Ivan Ilitch era o fingimento, a mentira, que por alguma razão eles todos mantinham, de que ele estava apenas doente e não morrendo e que bastava que ficasse quieto e seguisse as ordens médicas que ocorreria uma grande mudança para melhor. Mas ele sabia que nada do que fizessem teria outro resultado que não mais agonia, mais sofrimento e a morte. E a farsa desgostava-o profundamente: atormentava-o o fato de que se recusassem a admitir o que eles e ele próprio bem sabiam, mas insistiam em ignorar e forçavam-no a participar da mentira. Esse fingimento que se estabeleceu em torno dele até a véspera de sua morte, essa mentira que só fazia colocar no mesmo nível o solene ato de sua morte, suas visitas, suas cortinas, seu caviar para o jantar...eram-lhe terrivelmente dolorosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o exame terminou o médico olhou para o relógio, e Praskovya anunciou a Ivan Ilitch que  naturalmente ele decidiria, mas ela já havia procurado um célebre especialista que o examinaria e se reuniria depois com Mihail Danilovich (o médico da família).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por favor, não faça objeções. Estou fazendo isso por mim - disse cinicamente, dando a entender que estava fazendo isso por ele e só dizia o contrário para não lhe dar o direito de recusar. Ele ficou em silêncio, franzindo as sobrancelhas. Sentia-se emaranhado em uma rede de tamanha falsidade que ficava difícil livrar-se do que quer que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo que ela fazia para ele era inteiramente para si mesma, e ela costumava dizer a ele que estava fazendo por ela mesma o que de fato ela estava fazendo por ela mesma, como se isso fosse tão inacreditável que só pudesse significar o contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu casamento...tão gratuito quanto o desencanto que se seguiu. E o mau hálito de sua esposa e os momentos de sensualidade e a hipocrisia! E aquela odiosa vida oficial e a preocupação com dinheiro. Um ano, dois anos, dez, vinte e sempre a mesma coisa. E quanto mais o tempo passava, mais detestável ficava. "Como se eu estivesse caindo montanha abaixo, imaginando estar subindo. E era assim mesmo. E na opinião dos outros eu estava o tempo todo subindo e todo o tempo minha vida deslizava sob meus pés. E agora acabou tudo e é hora de morrer. Mas do que se trata afinal? Por que tem de ser assim? Não pode ser que a vida seja tão destestável e sem sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se outros quinze dias. Ivan Ilitch agora não saía mais do sofá. Não deitava mais na cama, só no sofá. E de olhos fixos na parede a maior parte do tempo, deitado, na solidão, sofria todas as inexplicáveis agonias e fazia sempre a mesma pergunta sem resposta: "O que é isto? É possível que isto seja a morte?". E a voz interior respondia: "Sim, é possível". "Por que toda essa agonia?" E a voz respondia: "Por nenhuma razão. É assim e pronto". Não havia nada além disso ou ao lado disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do momento em que começou a gritar, Ivan Ilitch prosseguiu por mais três dias e eram gritos tão horríveis que podiam ser ouvidos de porta fechada, dois quartos adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ele tudo aconteceu em um único instante e a sensação daquele instante não mudou dali em diante. Para os que presenciavam sua agonia, esta durou mais duas horas. De sua garganta ainda saía um som e via-se um estranho movimento de seu corpo já sem vida. Até que a respiração ofegante e o som passaram a vir em intervalos cada vez maiores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acabou! - disse alguém perto dele, o que ele repetiu dentro de sua alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A morte está acabada", disse para si mesmo. "Não existe mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirou profundamente, parou no meio de um suspiro, esticou o corpo e morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leon Tolstoi, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Morte de Ivan Ilitch&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; (1a edição: 1886).&lt;/span&gt; &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto Alegre, L&amp;amp;PM, 2009. Tradução de Vera Karan. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-8479642203415008109?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/8479642203415008109/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=8479642203415008109' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8479642203415008109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/8479642203415008109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/10/morte-de-ivan-ilitch.html' title='A morte de Ivan Ilitch'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TK_ikwGkl3I/AAAAAAAABaM/zEgXG6H39oU/s72-c/Ivan.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2406780206758507750</id><published>2010-09-27T09:50:00.000-07:00</published><updated>2010-09-27T09:56:14.047-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MEUS ESCRITOS'/><title type='text'>O rapaz infinitamente promissor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TKDL3kjEI9I/AAAAAAAABZ8/FgbpwuuaLLc/s1600/2+O+rapaz+infinitamente+promissor.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 217px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TKDL3kjEI9I/AAAAAAAABZ8/FgbpwuuaLLc/s320/2+O+rapaz+infinitamente+promissor.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5521637298720220114" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Conversei recentemente com uma jovem que tinha trabalhado nove anos nos Estados Unidos e que hoje mora em Belo Horizonte com o marido e os filhos, tem casa própria, uma empresa bem estabelecida, carro do ano e uma poupança bem fornida, frutos de muito trabalho e dedicação na Meca do Capitalismo Ocidental.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;O que mais me surpreendeu na conversa que tivemos foi o conteúdo das histórias por ela contadas, narrando suas experiências na terra do Tio Sam. Nelas, o verbo mais utilizado foi, sem dúvida, o “comprar”.  Além de juntar dinheiro, essa jovem (integrante de uma equipe de faxina, que “fazia três ou quatro casas por dia”) comprava muito, geralmente produtos de consumo popular nos Estados Unidos, mas que, aqui no Brasil, são relativamente caros: televisões, computadores, celulares, tênis das marcas Nike ou Puma (originais), iphone, ipod, playstation, etc. De lá ela trouxe, só para ela, 50 pares de tênis de marca, que ela nem sabe se vai usar. Isso porque o Capitalismo é muito eficaz na criação de novas modas e novos desejos, de forma a estimular o consumo desenfreado da população que, bombardeada por propagandas sedutoras, muitas vezes abandona bens em bom estado de conservação para adquirir produtos da moda, novas tecnologias, novas marcas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que, ao consumir, muita gente se preocupa, acima de tudo, em criar em torno de si uma imagem de prosperidade e sucesso, já que no mundo capitalista os bens materiais não são simplesmente artigos de utilidade, mas também símbolos de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;status&lt;/span&gt; social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino que o leitor conheça alguém que se endividou absurdamente para financiar um carro importado pelo simples desejo de transmitir à sociedade uma imagem de poder e riqueza. Uma imagem falsa - porque, na sua essência, o Capitalismo é falso, artificial, efêmero e, muitas vezes, cruel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo de hoje, o desejo de riqueza, poder e ostentação tem se sobreposto a valores essenciais para a harmonia da sociedade, como a humildade, a generosidade, o altruísmo e o amor ao próximo. Somos fantoches de um sistema que nos quer consumistas, bem sucedidos e orgulhosos; que quer que nos preocupemos em ser ricos e poderosos ou, pelo menos, em aparentar riqueza e poder (o que, além de ridículo, pode gerar frustração, depressão e até suicídio).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pense nisso, leitor. Reflita mais sobre o que é realmente essencial na sua vida e procure, acima de qualquer coisa, ser feliz e viver em paz e harmonia com o próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para reflexão, deixo você com um trecho do livro &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Quando Nietzsche chorou&lt;/span&gt;, de Irvin D. Yalom:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Chegar aos quarenta abalou a idéia de que tudo me era possível. Subitamente, entendi o fato mais óbvio da vida: que o tempo é irreversível, que minha vida estava se consumindo. É claro que eu já sabia disso antes, mas sabê-lo aos quarenta foi uma espécie diferente de saber. Agora, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;sei&lt;/span&gt; que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;o rapaz infinitamente promissor&lt;/span&gt; foi meramente uma ordem de marchar, que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;promissor &lt;/span&gt;é uma ilusão, que &lt;span style="font-style: italic;"&gt;infinitamente &lt;/span&gt;não tem sentido e que estou em fileira cerrada com todos os outros homens em direção à morte."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.grnews.com.br/index.php?option=com_content&amp;amp;view=article&amp;amp;id=14101&amp;amp;Itemid=166"&gt;Flávio Marcus da Silva&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pará de Minas, 08 de julho de 2010&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1261577566478783784-2406780206758507750?l=oficinahistorias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/feeds/2406780206758507750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1261577566478783784&amp;postID=2406780206758507750' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2406780206758507750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1261577566478783784/posts/default/2406780206758507750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oficinahistorias.blogspot.com/2010/09/o-rapaz-infinitamente-promissor.html' title='O rapaz infinitamente promissor'/><author><name>Flávio Marcus da Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15102160347752689360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TKDL3kjEI9I/AAAAAAAABZ8/FgbpwuuaLLc/s72-c/2+O+rapaz+infinitamente+promissor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1261577566478783784.post-2663511239714421206</id><published>2010-09-06T05:39:00.000-07:00</published><updated>2010-09-06T06:23:19.234-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jack Kerouac'/><title type='text'>Big Sur</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TITp-LrQXhI/AAAAAAAABZs/ymopS5qhvKc/s1600/Big+sur.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 240px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_4-MkO-9gEy0/TITp-LrQXhI/AAAAAAAABZs/ymopS5qhvKc/s320/Big+sur.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5513789098303708690" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ao meio-dia o sol enfim sempre aparece, forte, batendo na varanda alta onde estou sentado com livros e café e à tarde eu pensei nos antigos índios que devem ter habitado esse cânion por milhares de anos, em como no século X esse vale devia ter o mesmo aspecto, só com árvores diferentes: esses índios antigos simplesmente os ancestrais dos índios mais recentes digamos de 1860 - Como todos morreram e em silêncio enterraram seus ressentimentos e expectativas - Como o córrego podia ser alguns centímetros mais fundo já que a atividade madeireira dos últimos 60 anos prejudicou um pouco as vertentes - Como as mulheres pilavam as bolotas, bolotas ou bolopts, até que enfim achei as nozes naturais do vale e elas tinham um gosto doce - E os homens caçavam veados - Na verdade só Deus sabe o que eles faziam porque eu não estava aqui - Mas o mesmo vale, mil anos de pó mais ou m
